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Em clipe manifesto, Bel Baroni mostra como é bom ser sapatão

por   /  19/04/2018  /  13:13

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Cantora, compositora, escritora e artista visual, a carioca Bel Baroni fez um clipe manifesto que mostra como é bom ser sapatão. Sim, assim mesmo, sem rodeios. É tão legal ver a palavra escrita assim, vinda de uma celebração, e não de uma dor, né? A gente tem um longo caminho pela frente, e ver quem tá andando lá na frente desperta curiosidade e admiração.

“É muito comum que as narrativas LGBT carreguem sofrimento, histórias de opressão e violência, e por isso quis trazer essa outra perspectiva: que prazer eu tenho em conhecer minha sexualidade, em afirmá-la, em vivê-la plenamente. O refrão da música diz: “vou usar esse calor a meu favor”. Se querem acender a fogueira, saibam que a gente não vai queimar, não, a gente vai suar, dançar, se esfregar e celebrar a nossa existência. Não há nada que me faça voltar atrás no meu prazer, esse é o recado”, ela diz nesta #entrevistadonttouch.

Mais um daqueles papos bons, profundos, que nos deixam ainda com mais vontade de ouvir quem está por trás de tantas palavras – e melodias.

Mais Bel: @belbaroni + YouTube

– O que a música representa na tua vida?

Uma constante descoberta. Investigação. A forma através da qual melhor me expressei em toda minha vida. Um lugar de desconforto também, onde me desafio, onde me exponho, me abro toda. Não reconheço em mim muitos talentos natos, os meus caminhos foram traçados nas vivências, nos desejos, nos esforços. Meus pais não eram músicos. Minha mãe veio de uma família nordestina de cantoras, cantava e tocava lindo o violão e o acordeon, mas largou todas as inclinações artísticas e veio para o sudeste em nome do diploma de economia, do emprego fixo, da família e da casa própria. Por mais que sempre tivesse muita música em casa, aulas de piano, canto, grupos de percussão, sei que teve um momento em que a expressão musical tomou um lugar maior na minha vida, que me encontrei com esse processo. Para além da musicalidade, do interesse pelas sonoridades e sensações que elas provocam, tenho uma paixão forte por escrever e fui percebendo que os meus versos me induziam à melodias. E aí foi acontecendo naturalmente, levando som, fazendo bandas, compondo e cantando. Acho que foi isso que me pegou mesmo, a expressão, a comunicação. Poder escrever uma letra, fazer uma música, mostrar pras pessoas e dizer algo de mim com aquilo. Ao mesmo tempo, estou amadurecendo nossa relação, minha e da música. Entendo que trata-se de um trabalho, um ofício como outro qualquer. E as condições de realização são sempre tão informais que muitas vezes sou obrigada a dialogar com essa produção artística de outra forma, tirar do pedestal, secar expectativas, zerar o romance. Tem sido uma relação de magia e resistência.

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– Ser mulher na música significa….

Acho que porque somos mulheres não significa que temos a mesma vivência. Eu posso falar sobre o que é ser mulher cis LGBT, sudestina e branca, e que se encaixa em vários padrões de beleza. O que sinto dentro desse meio musical é o que sinto em qualquer meio machista, ou seja, acho que os desafios são os mesmos em tantas outras profissões. É justamente sobre “ser mulher” antes de ser indivíduo. Te colocam em lugares destinados a você, te enfiam em gavetas. Na música, geralmente tentam nos encaixar num padrão de feminilidade, de diva, de vocalista com voz aguda que nunca desafina. Os boys estão o tempo inteiro duvidando do seu conhecimento, da sua experiência, achando que você não tá entendendo, te explicando como as coisas funcionam. Quase sempre, significa ganhar menos, ser menos convidada pra festivais, trabalhar em meio a uma equipe formada majoritariamente por machos. Significa ser chamada de “diva” enquanto seus colegas músicos são chamados de “gênios”. Mas sabe, acho que já estamos chegando em outro lugar, nos unindo, nos comunicando, nos cuidando, nos organizando e gritando juntas. Toda mudança que tá acontecendo se deve a isso, a nós, ao nosso esforço, à nossa luta. E tudo isso pra que a gente em algum momento não precise mais falar sobre como é ser mulher na música e possa ser livre pra fazer nossa arte, pra falar sobre como é bom ser mulher nesse mundo.

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– No que você tá trabalhando agora? E como é sua trajetória?

Eu ainda estou trabalhando bastante na difusão do meu disco, que lancei no ano passado. Já apresentei “Quando brinca” de muitas formas diferentes: solo, duo ou trio; com guitarra e bateria e/ou teclados e/ou baixo; com participações das mais diversas pelas cidades onde passei. Gosto de sentir as músicas vivas, não estacionadas no fonograma, e o nome do disco me veio como um chamado. É exatamente o que eu faço com essas faixas – brinco, bagunço, experimento. Agora tô viajando para tocar em Buenos Aires e em Montevideo, com a ajuda do programa Ibermúsicas 2018, e em companhia de duas pessoas queridas que gravaram esse disco comigo: Larissa Conforto e Guilherme Marques. Estive nessas duas cidades ano passado apresentando um show solo, com loops, guitarra e voz. Troquei muito com a galera, conheci muita gente, mulheres maravilhosas da música, das artes, um movimento lindo de coletivas LGBT. Enfim, felicíssima de voltar e animada para sentir de novo as reverberações da comunidade latinoamericana. Enquanto isso, sigo com as composições novas, mas ainda entendendo quais são meus desejos. Eu só quero conectar cada vez mais a minha música com minha atuação política, com minha identidade e minhas intenções. Os tempos estão sombrios, a gente sabe.

– No mundo da música por muito tempo as grandes cantoras não falavam abertamente sobre sua sexualidade, e hoje a gente começa a ver uma mudança. Te dá vontade de falar sobre o assunto? Como é ser lésbica ou sapatão nesse universo?

Me dá muita vontade de falar sobre o assunto. Mais uma vez, pra que a gente não precise falar do assunto algum dia. Quem coloca as pessoas acima ou abaixo das outras por conta do gênero é o patriarcado. Mas fingindo que é normal, que é natural. A gente tem mais é que falar sobre isso, jogar as luzes sobre isso, se queremos que as coisas mudem. Precisamos estimular que mais pessoas sejam felizes, se sintam a vontade com sua sexualidade e sejam respeitadas independente do seu desejo sexual, da sua roupa, da sua raça, enfim. Nesse sentido, representatividade sempre importa. É muito óbvio que a sociedade é misógina e lesbofóbica e que promove um apagamento das identidades lésbicas e transmasculinas. Como escrevi aí em cima, as mulheres são cobradas no sentido de servirem feminilidade. Existe um papel designado a você desde o momento em que você nasceu com uma xoxota. A gente vê a ascensão de várixs artistas de identidades gays e transfemininas na mídia e no mainstream, enquanto as sapatonas e transmasculinas seguem sendo invisibilizadas, estereotipadas (vide o termo “sapatão da MPB”), fetichizadas e apagadas. Leci Brandão, por exemplo, essa artista-deputada-sapatão maravilhosa que sempre desconstruiu gênero no samba e, ao meu ver, nunca foi amplamente reconhecida por isso. E cadê as identidades transmasculinas na música brasileira, em um tempo onde artistas como Pablo Vittar e Liniker estão bombando?

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– Aliás, conta sobre seu clipe manifesto?

Vem justamente dessa vontade aí, de me colocar, mas escolhendo falar sobre como é bom ser sapatão. É muito comum que as narrativas LGBT carreguem sofrimento, histórias de opressão e violência, e por isso quis trazer essa outra perspectiva: que prazer eu tenho em conhecer minha sexualidade, em afirmá-la, em vivê-la plenamente. O refrão da música diz: “vou usar esse calor a meu favor”. Se querem acender a fogueira, saibam que a gente não vai queimar, não, a gente vai suar, dançar, se esfregar e celebrar a nossa existência. Não há nada que me faça voltar atrás no meu prazer, esse é o recado. É o segundo clipe do álbum, e dessa vez eu não só produzi como dirigi também. Foi uma experiência maravilhosa porque juntei uma equipe diversa e amiga, além de 20 lésbicas da cidade do Rio de Janeiro que toparam performar pra uma das cenas, um ritual sapatônico que nunca mais vou esquecer. Na gravação, ocupamos espaços públicos em diferentes zonas da cidade e isso somou muito ao clipe. Também gravamos na Velcro, festa de sapatão aqui do Rio, que frequento. O resultado me encheu de felicidades e confirmações.

– Me indica uma música que você ama desde sempre? E uma que você tá apaixonada recentemente?

Amo desde sempre: O Chamado, da Marina Lima. Apaixonada recentemente: Miragem, da Xênia França.

– Ser artista no Brasil hoje, como é?

Muito difícil responder essa pergunta. O que significa ser brasileira, ou morar no Brasil, nesse momento? Num país onde uma mulher presidenta eleita é deposta num golpe de estado, num país onde se instaura uma intervenção militar baseada no genocídio do povo negro da favela, onde se aprova reformas que ferem os direitos das classes trabalhadoras, onde se mata uma mulher parlamentar negra LGBT e quase um mês depois não tem nenhuma notícia sobre as investigações, onde tentam assassinar e conseguem prender um ex-presidente que pela primeira vez nesse país colocou a periferia na universidade, enquanto toda a corja do helicóptero de cocaína segue impune fazendo lucro. Acho que como indivíduos que fazem parte de uma comunidade, temos responsabilidades, nossos gestos reverberam. Em meio a esse “teatro dos vampiros” que se apresenta, o posicionamento político da classe artística é importante, o engajamento e a atuação consciente dentro desse cenário são necessários. Acredito que cada pessoa, diante de seus contextos e suas trajetórias, deve encontrar sua forma de atuar. Acredito que os privilégios precisam ser revistos, e que ao mesmo tempo não devemos nos paralisar. Eu tenho me provocado com relação a isso. Ser artista pra mim é uma coisa, diferente do que é pra outra pessoa. Gosto do caminho que conecta com a sinceridade. Quero estar de mãos dadas com quem tá se movimentando contra isso tudo que tá acontecendo.

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