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era uma vez eu, verônica

por   /  18/12/2012  /  9:17

Escrevi pra revista Bravo sobre o filme “Era uma vez eu, Verônica”, de Marcelo Gomes.

Leiam > http://bravonline.abril.com.br/materia/diario-da-medusa-no-recife#image=183-ci-veronica-hermila-guedes

Diário da Medusa no Recife

Por Daniela Arrais

Na vida, há muito espaço para desgraças e reviravoltas. E quase nenhum para angústias que, à primeira vista, não têm propósito. Você possui uma profissão, um emprego que paga as contas, um namorado ocasional, amigas para tomar cerveja. Tudo certo, dentro do esperado. Até o momento em que percebe que nada faz sentido. Você, então, não se desespera, apenas encontra espaço para a agonia.

Era uma Vez Eu, Verônica, novo filme de Marcelo Gomes, com sete prêmios no último Festival de Brasília, mostra esse momento de transição para uma garota da classe média, recém-formada em medicina. Interpretada por Hermila Guedes (O Céu de Suely), a protagonista, que vive no Recife, tem no mar de Boa Viagem seu alento e enfrenta a doença grave do pai. No meio tempo, atende pacientes com problemas mentais em um hospital público. No gravador que usava para aprender diagnósticos, passa a relatar fragmentos de sua própria experiência, como “a paciente estudada não tem tendência ao romance, apenas ao sexo”.

Para compor a personagem, Gomes – de Cinemas, Aspirinas e Urubus e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo – entrevistou 30 mulheres e percebeu algo em comum entre elas: todas buscam primeiro o sucesso profissional. “São pessoas que, aos 25 anos, ainda vivem emocionalmente como adolescentes”, diz o cineasta. Uma fase em que o mundo é gigante, e as possibilidades, infinitas: “A Verônica vive esse mal-estar sartriano. Decide por um caminho e segue angustiada pelos outros que não escolheu. Vem o vazio sentido por toda uma geração e tão bem revelado nas letras de Karina Buhr (que assina a trilha sonora com Tomas Alves Souza)”.

O filme levou sete anos para ficar pronto, e sua gênese está ligada a alguns desejos do diretor. O primeiro foi fazer uma obra em que o Recife, com sua atmosfera e seus hábitos cotidianos, servisse de pano de fundo para um drama pessoal. O outro era desenvolver um personagem feminino, inspirado em suas paixões cinematográficas: Cabíria (As Noites de Cabíria, de Federico Fellini), Mônica (Mônica e o Desejo, de Ingmar Bergman) e Blanche DuBois (Uma Rua Chamada Pecado, de Elia Kazan). Como tudo gira em torno de um diário íntimo, não houve pudor ao rodar as sequências de sexo: “Construímos a coreografia das cenas e depois filmamos como se fosse um documentário, sem preocupações de buscar o ângulo mais pudoroso ou mais belo fisicamente”.

Partitura de emoções

Foi este o maior desafio nas filmagens: encontrar a naturalidade. Gomes vem do documentário, o que o faz tentar unir o real e a ficção. Nas cenas do hospital, atores e não-atores falam, há registro de diálogos verdadeiros e o espectador não consegue fazer distinções. Sobre sua atriz, ele afirma: “Hermila encanta a câmera tal como a Medusa. Quando sua personagem conversa com o médico sobre o diagnóstico do pai, é como se não houvesse­ o diálogo. Há apenas ela e a câmera. É magnífico porque existe toda uma partitura de emoções”.

Verônica também acerta na escolha dos outros atores, como J. W. Solha, o pai da protagonista, João Miguel, o namorado apaixonado (e não correspondido), e Renata Roberta, a amiga que tenta descomplicar qualquer tristeza. O resultado é um filme sem arroubos nem respostas, daqueles que seduzem o espectador durante a projeção e, principalmente, o acompanham depois dela. “Verônica é alguém que trabalha, tem família, amigos, faz sexo, às vezes namora e mergulha em dúvidas”, define o diretor. “Ou seja, ela é como a maioria da população mundial. É isso que me interessa na personagem.” E a todos nós também.

1 Comentário Deixe seu Comentário

  • Tany • 20.12.2012 @ 03:44 responder

    Assisti esse filme mês passado no Amazonas FIlm Festival e eme apaixonei demais. Tinha gostado da sinópse, mas não sabia que seria um trabalho tão espetacular do cinema brasileiro. Adoro a Hermilda Guedes e depois desse filme, comecei a gostar mais ainda.

    Não imaginava que pudesse me identificar tanto com essa estudante de medicina. Assistiria de novo, e de novo, e de novo..

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