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fale com elas

por   /  30/06/2010  /  10:32

Minha querida e premiada amiga Fabiana Moraes escreveu um especial sobre travestis para o Jornal do Commercio. Os textos impecáveis são acompanhados por fotos maravilhosas de Mariana Guerra > http://www.flickr.com/photos/marianaguerra/

Não é o travesti, é a travesti > Tem gente que não tem coração: olha a moça alta, rosto delicado, pele preta, batom vermelho e grita: “Satanás”. Não quer saber se ela demorou se arrumando para sair, que na verdade ela queria usar saia e acabou vestindo calça, justamente para evitar comentário, gracinha. Não que deseje passar despercebida, quase nenhuma mulher gosta. Mas sabe que seria bom chamar atenção porque está bonita, de brinco, lenço no cabelo. Aí vem alguém, olha para ela, a sobrancelha feita, a base marrom ajudando a esconder o bigode que começa a crescer, olha para ela e diz bem alto: “Satanás”.

Sobre sair de mãos dadas e ir ao cinema no domingo > Não associamos o amor romântico, aquele que mostra o casal passeando na praia, fazendo carinho, o amor que dá caixa de chocolate de presente, que tem ciúme e vai ao cinema, àquelas moças que nasceram em corpo de homem. Mas muitas delas esperam ansiosamente, perdoem-lhes as feministas, por um Ele que seja querido namorado ou marido chegando à noite em casa. Como imaginar que aquele tipo que parece nos ameaçar e conviveria facilmente com torpedo romântico, alguns vestidos bonitos e um Homem para neutralizar qualquer olhar de desaprovação dirigido para elas? “Somos ridicularizadas por causa de nosso estilo de vida. Acham que travesti não tem emoção.” Elaine, que hoje veste bata branca, daqui a pouco se forma enfermeira, já ficou muito triste, na época em que se prostituiu, quando um cliente pagou uma noite que tinha sido muito boa para ela. Achava que poderia ter sido igualmente importante para ele. Que dali sairia uma história de amor. Que ela nunca mais passaria por aquela espremeção nas tripas, ver o rapaz puxar o dinheiro da carteira.

O céu de Clóvis não tem silicone > Na Assembleia de Deus Pentecostal da Fé, em João Pessoa, o inferno é repleto de perucas e sapatos de saltos finos. O paraíso, outrora localizado entre o Tigre e o Eufrates, é agora representado pela trindade pai-mãe-filho, aquela que vai ao supermercado e passeia no shopping center aos domingos. Esse lugar idílico também inclui um carro confortável, emprego fixo e consequente respeito social. O inferno é o oposto. Povoado por homens de saias curtas, nele não há carinho de esposa nem bom dia amável do porteiro. O pastor Clóvis Bernardo, que “chacoalhou no lodo”, conheceu de perto esse canto de danação, mas, aleluia!, encontrou Socorro. Com ela, teve dois filhos, todos hoje bem instalados, louvado seja Deus!, em um apartamento no Edifício Esplendor. Agora, vestindo terno, ele dedica a vida ao que chama de libertação: em sua igreja amarela, tenta levar homossexuais e travestis, como um dia ele foi, até o paraíso de uma nova vida, onde a luz está nas prestações de um novo jogo de sofá e principalmente na família unida e dócil. O paraíso, nos informa a figura corrigida de Clóvis Bernardo, é simplesmente ser aceito.

O pastor que atualmente dirige três congregações – a principal no Altiplano Cabo Branco, outra em Manaíra e mais uma na Colina do Sul – se prostituiu durante mais de duas décadas na Praça Pedro Américo, em João Pessoa, e na Rua Carlos Pereira Falcão, Boa Viagem, Recife. Era travesti com vasta técnica de sobrevivência: com apenas cinco anos de idade, foi, ao lado da mãe, Edith, procurar o pai no Rio de Janeiro. Nunca o encontrou, mas lá, durante três anos, pediu esmola na feira de São Cristóvão e se encantou por um menino, Carlinhos. A mãe arrumou outro parceiro. Clóvis era uma criança apaixonada por outra do mesmo sexo e que sustentava a si e a nova família com o dinheiro conseguido na rua.

E mais um monte de textos no JC > http://jc3.uol.com.br/jornal/2010/04/12/can_450.php

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