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“Estamos aqui pra evoluir e rever nossos privilégios”, diz a fotógrafa Naiara Jinkss

por   /  17/04/2018  /  15:15

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A fotografia de Naiara Jinkss tem aquela força de quem conhece completamente o que registra. São cenas e olhares que a gente vê e tem a sensação de quase estar ali junto, tamanha a imersão dela no assunto. Ela fotografa a Belém onde nasceu, o mercado Ver o Peso em que seus avós se conheceram, a realidade de quem muitas vezes é excluído. Aos 27 anos, ela já é gigante, na fotografia e na percepção de mundo. “Acredito que a arte transforma vidas e que todos estamos aqui pra evoluir e rever nossos privilégios”, ela diz em entrevista ao Don’t Touch, que vocês leem logo abaixo.

Conheçam, sigam e prestigiem o trabalho dessa mulher: @nayjinkss

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O que é objeto da tua fotografia?

Busco fazer recortes do que é muitas vezes rejeitado. Quando a gente cria estereótipos a gente acaba segregando grupos, e aquela comunidade, lugar e/ou pessoa que é rejeitada, estereotipada, acaba sendo excluída. Quando fotógrafo busco estreitar ou estabelecer um laço, seja afetivo, seja social entre objeto fotografado e o espectador. “Quando a gente quebra os estereótipos, a gente aproxima as pessoas.”

O que a fotografia representa na sua vida?

Meu trabalho é a extensão do meu pensamento. Me aproxima de todo tipo de pessoa e faz com que eu quebre meus preconceitos também. Acredito que a arte transforma vidas e que todos estamos aqui pra evoluir e rever nossos privilégios. Acredito que não posso reter conhecimento, e sim que preciso repassá-los… É como eu tento mudar a realidade de onde eu venho e das pessoas que eu conheço.

@nayjinknss@nayjinknss3

Quantos anos você tem?

Tenho 27, praticamente na terceira idade.

O que cursou na faculdade?

Estudei artes visuais em Belém. E, em seguida, direção cinematográfica no Rio de Janeiro.

A fotografia é teu trabalho 100% hoje?

Sim, é algo bem difícil. Poucas vezes as pessoas ao redor compreendem meu processo de criação e entendem que isso é um trabalho como qualquer outro de carteira assinada.

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Quais são seus planos como fotógrafa: o que sonha em fotografar, onde quer chegar?

Tenho tantos planos, sonho em fotografar tantos lugares. Penso em visitar outros países e conhecer novas culturas. Desejo conhecer pessoas e ouvir suas histórias. Quero poder viver do meu trabalho e poder ajudar as pessoas através dele.

Pretendo fazer um mestrado pra poder dar continuidade aos meus estudos e para dar aula o mais rápido possível, porque acredito que reter conhecimento é egoísmo e ignorância. Penso em dar aula de educação não formal para pessoas de baixa renda ou em situação de risco. Tenho uma imensa vontade de desenvolver alguns projetos educacionais dentro do sistema penitenciário do Pará, vamos ver. Vontade não me falta.

Também gosto muito de fotografar músicos, mas sempre com foco no documental. Espero em algum momento fotografar meus ídolos e quem sabe fazer uma capa, né? Custa nada sonhar…

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Conta da tua relação com o mercado Ver o peso?

Minha relação com o Ver o Peso começou antes mesmo d’eu nascer. Foi lá que meus avós se conheceram, mas só vim saber disso anos depois, fazendo meu TCC.

A primeira foto que fiz do Ver o Peso pensei: Po, isso tá legal hein?!

Me fez pensar se jornalismo era mesmo pra mim (pois era o curso que planejei a vida inteira fazer). Desde aí, fui atrás da graduação que me oferta por mais tempo a disciplina fotografia – e encontrei artes visuais. Não sei o que teria sido de mim sem minha formação de artes.

O Ver o Peso é como uma pessoa. Que me olha, me entende e me dá conselhos. Gosto de chegar de madrugada, ouvir os barcos, as vozes ao fundo. O vento frio da madrugada e o pitiú que vem do Rio.

Sempre estou pelo Ver o Peso, é meu trabalho e meu lazer… Penso que todos deveriam vir aqui um dia.

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Você fotografa muito lá, né? Por que essa escolha, quais as histórias que mais te marcaram?

Acredito que nem sempre somos nós quem escolhemos algo, às vezes nos escolhem. Tenho tantas histórias que acho que daria um livro… Lembro quando sofri uma tentativa de assalto a mão armada. Gosto quando termino de fotografar e bebo cerveja com meus amigos de lá. Ou fumo. Já vi briga, já vi romance, já vi assalto… As situações se repetem mas mudam os protagonistas.

Quem são suas maiores referências? Tanto de fotografia internacional quanto de gente que você acompanha hoje?

Recentemente conheci um coletivo de fotógrafas chamado Mamana, e elas produzem um trabalho que também exige delas coragem, e aquela sensação de não saber o que está por vir. Mas olha, amo fotografia e o tem muitos outros fotógrafos que me inspiram, mas minha real referência vem da música, dos raps que eu ouço, que falam dos problemas sociais e do quanto não estamos atentos às urgências que exigem nossa atenção.

Quem são os fotógrafos que você admira?

João Ripper foi um dos caras mais especiais na minha formação e ainda é. O modo no qual ele se expressa e fala do seu trabalho e da humanização que as fotos transmitem. Existe sempre um respeito muito grande entre ele e o objeto fotografado, que torna seu trabalho único e sensível.

Também adoro Nan Goldin e Nair Benedicto, são fotógrafas únicas. Sempre após de ver as fotografias produzida por elas, me pergunto como elas conseguiram fazer tal registro.

Também preciso citar o Miguel do Rio Branco, que me ensinou a fotografar não mais pessoas desconhecidas e sim amigos. Se você quer fotografar aquilo que você sonha, você precisa estar seguro do que está fazendo e do lugar que está. Uma vez me disseram o seguinte: é sempre bom conhecer alguém que conhece a malandragem, assim você nunca tá sozinho, tá sempre ligado nas coisas. E é bem isso mesmo…

Tem alguém com quem você adoraria trabalhar?

Égua, tem com certeza. Gosto muito de poder desenvolver meus projetos voltados para fotografia de rua, documental. Mas sou apaixonada por música e cinema também, tenho vontade de produzir videoclipes para artistas no quais eu me identifico.
Tem alguns músicos, como o Elza Soares, Criolo ou Mano Brown.

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No que você tá trabalhando atualmente?

Trabalho com fotografia, me sustento com os freelas que arranjo e com vendas de fotografias também.

E como é o mercado em Belém?

Aqui é muito difícil, é uma selva com poucas opções. O mercado é competitivo e machista muitas vezes. Tive que me especializar fora de Belém por não ter opções de estudo voltadas para fotografia.

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Como é ser mulher nesse meio?

Embora minha família seja grande, admiro duas pessoas em especial, que são: minha mãe e minha avó. O modo no qual fui criada fez com que o fato de ser mulher fosse só um detalhe. Pra mim sempre foi muito nítido que eu precisava ser independente e buscar não depender de ninguém, principalmente de homens. Sempre fui estimulada a meter a cara nas coisas. Minha mãe e minha avó sempre falavam e conheciam Deus e o mundo, então acho que herdei um pouco dessa simpatia.

Mas isso não me livra de sofrer alguns preconceitos, né? Geralmente vindo do próprio meio, no caso de outros fotógrafos. Tem sempre quem diminua seu trabalho, mas acredito que existe espaço para todos. A outra coisa que acontece, mas compreendo e não me incomoda são cantadas, mas converso e tudo fica okay!

Você tem vontade de viver em outros lugares também?

Claro, acho que por tudo estar sempre em constante movimento, nós também precisamos nos movimentar. Conhecer outros hábitos, novas culturas, novas pessoas. Nos dando a oportunidade de crescer e compreender a particularidade de cada indivíduo.

Acha que o eixo Rio/SP é priorizado quando se fala de foto?

Com certeza, são duas metrópoles e muita coisa é produzida por lá. Acho muito competitivo também, mas acredito que existe espaço para todos.

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