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fratura exposta, por beatriz antunes

por   /  30/06/2010  /  18:23

Sério, Beatriz Antunes tem um dos melhores textos do Brasil!

Maçã verde

Meu único osso quebrado não era meu. A vítima, meu irmão, nunca soube de quem era a culpa por ter colocado a corrente alto demais para que ele pulasse, na verdade para que ele não tentasse pular e assim eu vencesse as olimpíadas caseiras. Aconteceu muito de repente, quando vi ele estava gritando de dor e minha mãe parecia nem me ver mais, toda cuidados com ele. A cena seguinte é ele com o braço engessado, sem dor, com o cabelo muito preto (até hoje é assim) e os dentes muito brancos (de leite) saindo do hospital. A versão oficial, estabelecida naquele dia, foi que a corda estava alta por engano, descuido, qualquer coisa menos pela minha vontade de vencer a competição.

Não sinto culpa, não me arrependo, não tenho nenhum sentimento estranho com relação a esse episódio da infância. Se falo dele é primeiro porque tinha que escrever alguma coisa e, segundo, porque pretendia fazer uma analogia entre fraturas e amores mal curados ― analogia que não é minha, mas da Dani Arrais [nota da editora: os créditos vão para Yana Parente e Alberto Lins, que criaram o maravilhoso conceito], muito bem observada por sinal. Amores que fraturam qualquer coisa imaterial na gente. E o difícil é achar um que não tenha sido assim. De que amor saí incólume? Não lembro. Minha memória é bastante melhor quando se trata de coisa ruim: o que fizeram contra mim, o que deixaram de pagar. De maneira que a analogia, tão simpática, não serve para muita coisa no meu caso. Sei muito de fratura espiritual, mas nada de ligamentos e ossos rachados. Na verdade, meu primeiro parágrafo nem precisava existir para eu me lembrar como fiquei sem força nas pernas quando Tarso, o Loiro não dispensou o videogame na hora certa.

Era aniversário dele e, embora ninguém soubesse, não me pareceu despropositado agir como se fosse uma coisa natural levar um presente caro para um coleguinha de rua, presente que deveria, além de presentear, transmitir o recado de que eu era completamente apaixonada. Aos 8 anos, o completamente se escrevia em maiúsculas na minha mente e o apaixonada eu sussurrava no banheiro, com medo de alguém ouvir. Como o trato lá em casa era dinheiro mediante serviços prestados, lavei carro com aspiração do estofamento (que era mais caro) por algumas semanas até juntar dinheiro suficiente para a compra do artigo luxuoso que tinha em mente. Guardadas as devidas proporções, era como planejar a compra de uma joia. Não podia ser qualquer presente e não seria.

O Shopping Eldorado era respeitável naquele final da década de oitenta e, melhor ainda, perto de casa. Minha mãe me levou sem suspeitar de nada. Depois de fazer compras no Sé (o supermercado onde os carrinhos tinham calculadoras acopladas, estando nós em plena astronomia inflacionária), pedi para visitar a Pakalolo. Meus caros, a Pakalolo era um negócio. Tudo fosforescente, muito laranja, letras garrafais que davam a volta na camiseta, pulseirinha pra cá, tiara acolchoada pra lá. E mais importante que tudo: chaveiros infláveis no formato de maçã verde. A joia que eu tinha reservado para Tarso. Sendo o objeto unissex, e sendo também dona de uma extensa coleção de chaveiros, não levantei suspeitas comprando o chaveirinho. E como já naquela época eu era a embaladora oficial dos presentes da família (na época de Natal eu trabalhava bastante), sabia dar um laço bonito e não amassava JAMAIS uma folha de papel espelho, a dificuldade toda recaiu em como explicar à minha mãe que queria um embrulho da loja. Ora não é pra coleção? Ora, não é você que prefere fazer os enfeites em casa? Como eu ia explicar que, sendo aquele chaveiro um presente para o meu amor, a quem nada importava tanto como uma marca, um logotipo endinheirado e uma aparência rica, era preciso estar escrito PAKALOLO no papel? A solução ficou por conta do destino: minha mãe se lembrou do aniversário não sei de quem e sumiu com a vendedora atrás dos moletons nas araras. Escolhi, paguei, mandei embrulhar e escondi o presente na mochila em questão de minutos, e logo tudo estava resolvido e minha mãe já estava fazendo sinais com os olhos para mim, indignada com o preço de uma calça.

Chegou o grande dia. Meu coração acelerou já no ensaio geral, dentro do quarto. “Vou tocar a campainha, aí quando a empregada uniformizada atender, deixo o pacote com ela e saio correndo. Fico uns dias sem aparecer na rua, e daí um dia ele vai tocar a minha campainha e dizer que foi o presente mais lindo que ele ganhou”, plano 1. “Não. Ridículo. Vou bater lá e dizer pra empregada pra chamar ele, entrego o presente e nos beijamos infinitamente”, plano 2, um pouco distante ainda. Eis que finalmente me decido a sair, presente na mão, chave do portão na outra – chave essa que no dia pareceu pesada, desajeitada, barulhenta, não cabia no bolso, não cabia na mão, um nervosismo horroroso, aquele metal ali – e caminhei até a casa. Portão branco, Escort XR3 vermelho na frente, cachorro de marca latindo. A empregada não apareceu, como planejado, mas a mãe dele me disse para entrar, ofereceu um Toddy gelado e depois se voltou para a pia, como quem recebe alguém de casa, acostumado. “Sobe, sobe lá, Bia!”, ela disse depois. Então aconteceu.

Subi o primeiro lance nervosa, no segundo já estava tomada pela ansiedade, e ao chegar na porta aberta do quarto dele pode-se dizer que estava inconsciente. Lembro vagamente de ter dito: “Oi”. Não sei se falei mais alguma coisa, porque de todo modo ele não respondeu, não se mexeu. Continuou jogando videogame de costas para a porta. Até que de repente – ou será que eu falei mais alguma coisa? – ele se virou, não tomou um susto, não levantou sequer uma pálpebra e ficou olhando pra mim. O pacote de presente era um saco de papel parecido com um saco de pão, só que branco, pequeno, e embora cumprindo a especificação de trazer PAKALOLO bem grande, era de todo modo pequeno. E estava amassado. Mas não foi exatamente por isso que naquele dia fraturei alguma coisa sem remédio: a corrente que estenderam alto demais nas olimpíadas improvisadas se chamou, naquele dia, deprezo, e foi com essa fita métrica longuíssima que naquele dia Tarso, o Loiro destruiu o meu coração infantil dizendo “Deixa aí” quando eu acabava de estender o que mais parecia um saquinho de pipoca amassado dizendo “Parabéns, trouxe um presente pra você”.

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A foto é de Volkswitt

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Fratura Exposta é uma seção colaborativa do Don’t Touch. Então, se você quer escrever sobre as coisas do coração, manda um e-mail pra mim! > dani@donttouchmymoleskine.com

11 Comentários Deixe seu Comentário

  • lara • 30.06.2010 @ 21:43 responder

    eu sou apaixonada por esse menino. e o volkswitt é foda! ele tem mais de 10 filhos, sabia?

  • Mariel • 30.06.2010 @ 22:50 responder

    po, curti demais esse texto.

    nem sei como vim parar aqui, qnd vi estava lendo e chorando com o coração partido da Bia.

    esses meninos são uns bocós mesmo.

  • fernanda • 1.07.2010 @ 00:15 responder

    delícia de texto, como sempre. saudades das duas, bia e dani.

  • Cáren • 1.07.2010 @ 00:39 responder

    que maravilhoso… deu até vergonha de te dar alguma coisa pra ler :D

  • Mariana Pasini • 1.07.2010 @ 01:28 responder

    Não tem como não me identificar… Que mulher nunca perdeu o homem pro videogame??

  • cris astolfi • 1.07.2010 @ 09:35 responder

    delícia de ler: ironia fina que faz a gente rir ao mesmo tempo que mostra a dor ali, fratura exposta…
    o título caiu muito bem ;-)

  • Dimitri BR • 1.07.2010 @ 18:52 responder

    ai que doída essa fratura. tudo culpa da Bia, que tira chapa assim, nítida. afinal, não dá pra culpar o (burro do) Tarso por não largar o videogame pela menina aos 8 anos (o problema é quando os tarsos seguem fazendo isso DESDE os 8 anos…).

  • Quelany • 6.07.2010 @ 05:52 responder

    totalmente identificável tal fratura!

  • erica • 14.07.2010 @ 23:12 responder

    Demais este texto. De repente, ficou tão claro porque algumas meninas consomem tantas revistas que tentam ensinar a curar feri..ops, fraturas até os sei lá quantos anos. E tantos meninos continuam viajando no videogame, futebol e por aí vai. Bom que sempre tem quem foge à regra, sejam meninos ou meninas ;)
    Incrível como a Bia consegue escrever com doçura e sarcasmo ao mesmo tempo.

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