fratura exposta, por geverson rodrigues

Fragmentos de Geverson Rodrigues

1.
Trago, além desses braços, alheios ao restante do corpo, e das pernas ainda firmes e brancas, uma amargura fluida que se integrou ao meu
sangue. Essa amargura é um pouco mais dolorosa do que tantas outras que ainda irei carregar, porque sua criação está nos amores não
realizados que, úmidos, começaram a me envenenar. São amores que rimam sim com dores, sentimentos, cujos maiores êxitos foram duas ou três cusparadas na cara.

2.
O meu corpo era o playground dele. Diversão garantida nas tardes molengas de terça-feira. Não me importava com isso, me divertia
também. Eram dentes, cabelos revirados, roupas amassadas, sexos umedecidos e marcas nômades, além ou mais do que isso, não era. O que
tínhamos era nada e foi esse não nada que começou a nos tomar. O nada é insuficiente pra qualquer um, até pra ele. O tudo entorpece, mas o
nada entristece.

3.
E você vai vir de volta. Sem medo como sempre. Com a boca seca. É isso, você vai reaparecer, calçando um tênis sem meia, mostrando as
pernas, e vai dizer se eu vou sair depois dali, porque estou com uma bela camisa.Eu vou dizer que não, não vou sair, e você não vai ouvir,
porque você nunca ouve direito na primeira vez, e na segunda vez, eu vou dizer que não, que não vou sair, agora de modo mais seco, do jeito que eu gostaria de ter dito na primeira vez. Depois disso, você mostrará sua chave e pedirá uma cerveja e eu direi olhando pro barman
cujo braço apresenta uma tatuagem confusa que é preciso somente de mais um copo, porque a cerveja ainda está cheia, na verdade, minha
intenção era continuar a oração pro barman e dizer: é preciso só de mais um copo, porque até ele chegar a minha ansiedade cessa a pontos
mínimos. No entanto, o moço com a tatuagem confusa também não me escuta e prestativo já deixou o copo faz tempo no balcão e você já se
serviu, tomou um grande gole, e não brindou, eu então espero até você puxar algum assunto, qualquer coisa porra, mas você não fala nem sobre o tempo, nem sobre a novela, nem sobre mim. Falar da minha camisa foi um gesto de desculpa por não ter vindo das outras vezes, uma tentativa frustrada de demonstrar alguma atenção comigo, ação frustrada, porque sempre estou com a mesma camisa e nunca a uso quando vou sair depois dali. A cerveja já acabou e agora sim você pode falar e mostrar sua chave ao garçom que debita na sua conta uma cerveja e você comenta que hoje vai beber, mas não diz o que comemora, com certeza não celebra o encontro comigo, porque não havia propriamente um encontro, eu sabia que em algum momento você estaria lá, e você também sabia que em algum  momento eu estaria lá, corríamos algum risco.

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A foto é do Free Bliss

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Fratura Exposta é uma seção colaborativa do Don’t Touch. Então, se você quer escrever sobre as coisas do coração, manda um e-mail pra mim! > dani@donttouchmymoleskine.com

Um comentário

  1. 16 de julho / 201020:38

    Gostei muito dos textos. Adoro contos assim. Essa seção é muito boa, sempre com textos ótimos.

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