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fratura exposta, por guilherme lamenha

por   /  31/01/2013  /  7:08

Samba canção, por Guilherme Lamenha

Se disser que eu desafino, amor, pode ter certeza que vou deixar de cantar perto de você. Eu brinco com os instrumentos enquanto você cozinha. Toco pandeiro enquanto você tempera o peixe. Sua casa é tão limpa que assusta. Asséptica, quase hospitalar. Penso, enquanto tento tirar um som qualquer do violão. Acendo um cigarro, você manda apagar, fala do cheiro, abre a janela com rispidez. Não olha nos meus olhos nem quando está com raiva.

Apuro meus sentidos, buscando o aroma que foge da cozinha para a sala. Você continua indiferente, com a saia estampada de flores miudinhas na altura do joelho. Sempre gostei dos seus joelhos.

Queria que me visse por dentro, agora. Mas toda sua concentração vai parar na porta da geladeira, quando pego uma cerveja e você tira a latinha da minha mão, dizendo que vamos tomar vinho branco no almoço.

Minto. Invento uma desculpa esfarrapada e saio do apartamento. Na calçada, pessoas sobem e descem a Augusta movimentada nesse sábado que poderia ser tão agradável se nós não.

Lembro quando você fazia planos de ter filhos comigo e cortava meu cabelo no banheiro, com tanto carinho. Quase sinto o toque que sua mão tinha antes. Suave, quente.

Mas agora daria tudo por um amor expresso, desses que a gente embala pra viagem. Não me engano mais com sua boca bem delineada pelo batom caro comprado com a grana da bolsa de “doutoranda”, como faz questão de frisar quando lembra a minha falta de dinheiro e de futuro.

Percebo que há muito não queria mais receber seus telefonemas, cada vez mais raros.

Mas acabo sem ter onde passar o fim de semana nessa cidade que nunca foi minha. Vou ao seu apartamento, onde encontro os instrumentos deixados no canto da sala pelo teu mais novo ex-qualquer-coisa. Como sou fraco, nessas horas. Me habituei a essa comédia de erros em que se transformou nossa relação desde o ponto final (ou as reticências?).

Conferi se a carteira estava no bolso. Parei o primeiro ônibus que passava no ponto em frente ao seu prédio. Vou ficar longe da sua limpeza, das suas frases feitas, da sua superioridade em relação a nós e também desse peixe cheio de ervas e futilidades. Vou procurar, daqui por diante, nunca mais me perder de novo. Preciso andar.

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A foto é de Marina Sobral.

4 Comentários Deixe seu Comentário

  • Lara • 31.01.2013 @ 11:05 responder

    foi um dos fraturas mais honesto que li. digo honesto no sentido que senti a angústia junto, mesmo não tendo passado por nada parecido. bonito isso.

  • VanVan • 31.01.2013 @ 12:08 responder

    Me vi por uma espécie de tomógrafo de alta resolução. Arrasador. Gostei muito.

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