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fratura exposta, por jaqueline couto

por   /  07/03/2013  /  10:29

Fratura Exposta, por Jaqueline Couto

E quando eu menos esperei estava lá, aquela coisa se arrastando pelo meus pulsos… Lacerada, aberta cicatriz medonha que nunca se fecha. Como fratura exposta, meus pensamentos sobre você e o que provavelmente fará sem mim povoam minha cabeça vazia de tudo, menos de você, enquanto cruzo a bendita avenida Paulista. Enquanto sei que poderá estar em qualquer parte do mundo, inclusive perenemente em mim, você se refugia em acordes de saudade. Olho, com as mãos nos bolsos e os pensamentos perdidos no tempo frio de São Paulo, o asfalto molhado pela fina garoa que teima em cair e deixa todo cinza o chão mais negro da minha imaginação pensando em com quem poderá você estar, uma vez que escapou do meu coração, rasgando-o para sair e ir embora deixando essa danada dessa fratura… Exposta. Para todo mundo ver, como prova de que alguém, um dia, se libertou de algo quase imutável. Como um amor desgastado, você deixou a minha ferida à mostra. Foi-se…

Vago, com as mãos nos bolsos, repito, para proteger o mundo de agarrá-lo e trazê-lo para mim, com a mente direcionada a um único objetivo: trazer você de volta. Lembrei das nossas conversas. E da maneira como me dizia “toma um café, enquanto não chego”. Eu acatava, na expectativa daquele líquido aquecer meu corpo enquanto você não vinha e tomar seu devido lugar: do meu lado. De dentro. E lembro… Também. De seu coração bater tão forte que era quase possível furar seu peito e se encostar no meu. E agora, andando há um bom tempo, cruzo a São João e, novamente, vem à tona as últimas horas poucas que estive com você. Seu cheiro de chuva caída em chão batido trazia o gosto de um tempo que não teve tempo de passar, porque eu o tinha guardado em forma de saudade. Escutando aquela música da gente, brega como todo sentimento que fala de comonãosepodeviversem, lembrei que você vinha assim, sorrindo, e me dizia “eu também… Eu também…” Como um mantra que se recusa a parar de ser entoado.

Olhei para trás. Deixei o guarda-chuva caído e permiti os pingos entranharem em mim, como pela primeira vez em que o reencontrei. Caminhei, o All Star de vinil preto encharcado, e as calças arrastando pelo peso da água que caía, em direção ao ponto de taxi. E eu disse: “Moço, toca pro aeroporto, antes que eu desista de vez de sorrir…”. E o taxista me olhou de maneira estranha, a menina descabelada e molhada de chuva. Olhos de cansaço… Morosidade da espera que nunca chega. Frio. O queixo, batendo, me fez recordar do instante em que me vi sem você, aqueles minutos de dúvida que parecem durar eternamente, me dizendo “quando nos veremos de novo?” e eu dizia “para sempre”… Mas o para sempre havia morrido, deixando para trás só uma feia ferida de uma fratura exposta.

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A foto é de Hayley Brown.

13 Comentários Deixe seu Comentário

  • Bruna Ramos • 12.03.2013 @ 15:54 responder

    Que lindo!

  • Luis Cabral • 7.05.2013 @ 20:55 responder

    Doeu no peito.

  • Mayra Dias • 7.05.2013 @ 20:57 responder

    Ô dó! 🙁 Senti na pele a garoinha.

  • Cecilia Araujo • 8.05.2013 @ 18:55 responder

    Que bonito. Delicado, doloroso e sofrido. A garoa caindo, os pés molhados, encharcados. A saudade que ela estava sentindo dele, lembrando de quando tomavam café. Nossa. Consegui até ver a cena toda. Se aconteceu mesmo, foi de lascar.

  • Geysa Sena • 8.05.2013 @ 19:03 responder

    Lindo, profundo, saudoso e triste. Muito bom 🙂 !!!

  • Stela • 8.05.2013 @ 19:43 responder

    Amiga…voce é mto cabeça….nota dez…..adorei…bj gde

  • Tania • 8.05.2013 @ 20:27 responder

    Metáforas muito bem elaboradas, parabéns pelo texto digno de uma mente efervecente em erupçoes emotivas. Linnnnnnnnndo

  • Débora Soares • 9.05.2013 @ 10:31 responder

    Texto muito tocante. Parabéns!

  • Jaqueline Couto • 12.12.2013 @ 16:37 responder

    Oh, caramba! 😀 Obrigada, pessoal…
    Sem palavras, viu? Um beijão pra todos! Fiquei até pimpona depois desses elogios todos. :}

  • Ana Carolina de Carvalho Lima • 28.08.2014 @ 17:04 responder

    Eita, que coisa bonita! Mas é triste. 🙁

  • Jorge Fernandes • 28.08.2014 @ 17:06 responder

    Um giro. Gostei demais! Aproveitei e estive a ler os outros. Bons!

  • Ricardo Castilhos • 28.08.2014 @ 17:09 responder

    Daora.

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