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fratura exposta, por lila

por   /  10/01/2013  /  9:07

O amor pode ser um silêncio, por Lila

Eu ainda gosto ou, pelo menos, insisto, em olhar nossas fotografias. O álbum de casamento saiu do armário da sala, foi escondido no quarto de hóspedes e, de vez em quando, eu, corajosa, resolvo jogá-lo fora. Último estágio dessa separação.

 Mas ele volta pro quarto. E eu nem gosto daquelas fotografias. Fotógrafo ótimo, sem dúvida. Muito bem escolhido, você sempre gostou do melhor, ou de mostrar que gostava do melhor, não sei bem. Sim, ótimo fotógrafo, já eu, gorda, com o cabelo e a maquiagem que desmancharam antes de acabar a cerimônia. Talvez já fosse um sinal e, pensando e olhando as fotografias, tenho certeza das escolhas erradas, a gente só foi piorando, percebe?

Nós dois, no final, éramos dois trapos, duas partes. Lembro-me de olhar no espelho depois do divórcio e pensar, como eu cheguei aqui? e de te encontrar em seguida e pensar a mesma coisa, como eu não cuidei desse cara? Porque a gente se fez tão mal.

Também no fundo do armário, estão os filmes da nossa última viagem juntos. Estamos lá, ainda horrorosos, só alguns pedaços da gente. Mas a gente ri, um do outro e vê o pôr-do-sol. A gente que não tem a menor paciência pra natureza olha o pôr-do-sol e ri.

E eu falo que preciso beber alguma coisa. Você some do filme e aparece trazendo água com gás, sem gelo, sem limão. Você sabe que o que eu quero beber é água com gás. E você busca, simples, como tudo que era da gente.

A gente se olha e não ri mais. O resto do filme em silêncio. Acho que a gente não percebe que não desligou a câmera. O nosso silêncio, a minha parte preferida do filme, a minha parte preferida de tudo, a maior intimidade que eu já tive com alguém.

 O nosso olhar em silêncio e o garçom trazendo outra água com gás.

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A foto é do maravilhoso Martin Parr.

2 Comentários Deixe seu Comentário

  • Érica Martinez • 14.01.2013 @ 15:33 responder

    uau! e eu que, ainda ontem, falava que: pior que o fim do tesão é o fim do assunto…

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