
Fratura exposta, por Marcos Donizetti
Nunca sabemos quando tudo realmente acaba. O beijo roubado que te fez voltar suspirando para casa ou cantando baixinho no ônibus pode ter sido o último. Aquela noite de amor inesquecível talvez não se repita mais. O abraço do amigo, a viagem para Porto Alegre, a conversa na varanda durante a noite fria, o banho de piscina, o pedaço de bolo de fubá com café quentinho, o passeio com o cachorro. De uma hora para outra, aleatoriamente, perdemos a chance de repetir nossos melhores momentos, e ficam apenas fragmentos, fantasmas guardados nisso que chamamos de memória.
Não dói a ausência. Dói isso que fica. Esse processo penoso que chamamos de luto não é falta, é presença. A chaga, a fratura, o órgão dilacerado, é esse vulto, essa imagem difusa que não nos deixa, a permanência do que não existe mais. O último “eu te amo” dito é um
fêmur que se parte em dois e que rasga o músculo. O primeiro segurar na mão dela é a clavícula exposta quando tudo termina. O beijo que
você relembra a cada fechar de olhos é um maxilar feito em pedaços.
Somos a soma de nossos encontros durante a existência, e alguns deles são feridas que nunca cicatrizam. No fundo, é a felicidade que mutila. Só o que é intenso deixa marcas, só o inesquecível rasga a carne. E não adianta não se colocar no mundo, não adianta fugir do outro, não adianta se esconder. A única alternativa viável para permanecer intacto é não viver.
Sendo assim, jogue-se. Quebre-se. Frature-se. E tenha orgulho de cada uma dessas marcas.
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A foto é de Leigh Ellexson
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Fratura Exposta é uma seção colaborativa do Don’t Touch. Então, se você quer escrever sobre as coisas do coração, manda um e-mail pra mim! > dani@donttouchmymoleskine.com




7 Comentários
Concordo plenamente!!
Ótimo texto.(como sempre!!)
que coisa mais linda.
ca-ra-lho
lindo!
me lembrou a lição que o monsieur duffayel dá para amélie poulain: você não tem ossos de vidros, pode aguentar os baques da vida.
=)
o mais lindo de todos os ‘f. expostas” que li até agora
É interessante o quanto deixamos de pensar em nossa finitude. O cotidiano no prende à rotina frenética não dando espaço para que possamos refletir que aquele poderá ser o último beijo, o último sorriso, a última palavra, enfim…
Gostei muito do texto, nos lembra da nossa finitude!
Vários destes fantasmas me assombram e eu fico me perguntando “como é que não percebi que seria o último?”
Dói.