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fratura exposta, por rodrigo levino

por   /  28/07/2010  /  21:32

Bruna, por Rodrigo Levino

Ser o mais alto da classe aos oito anos de idade significa que você é desengonçado. Bruna era desengonçada e meio boba, ria alto e por qualquer coisa, embora à época eu achasse isso muito próximo do que fui saber anos depois tratar-se de imponência. O seu andar molengo e a voz estridente ornavam com o perfeito caimento dos cabelos loiros.

Eu estava saindo de um caso complicado de se entender, a paixão pela professora de português que se tornou dolorosa quando percebi que dificilmente poderíamos levar o meu plano – que envolvia casamento e filhos – adiante por tratar-se de uma mulher muito velha e que certamente não iria querer brincar comigo quando eu cansasse de beijá-la. Bruna tornou-se com o passar dos dias, e um olhar mais atento, uma outra paixão possível.

Mantive-me em silêncio, embora publicamente abobalhado com o que ela dizia, fazia, o jeito que sorria tentando esconder os dentes meio tortos e como desengonçava tudo ao redor com seus braços maiores que o tronco e as pernas cambaleantes. Na hora do recreio eu sentava na escada do pátio e a observava de longe abrindo a lancheira cor-de-rosa da Barbie com o cuidado que têm as donas-de-casa e as mães e reiterava o meu desejo, outrora relacionado à professora, de casar, ter filhos e brincar de casinha, médico e esconde-esconde. Tudo junto.

Sem nenhum traquejo para revelar o sentimento, enxerguei no último dia de aula a chance inescapável de fazer saber ao mundo tanto amor. No sorteio do amigo oculto da turma, uma semana antes do fim das aulas e início do limbo de três meses de férias que nos afastaria até o recomeço do ano letivo, o coração veio à boca quando as letras desenharam o nome no papel dobrado, retirado de um copinho de plástico. B R U N A, Bruna, eu repetia, “BRU-NA”.

“Você gosta dela, né?”, perguntou minha mãe à queima-roupa numa das oito vezes num só dia em que eu tentava convencê-la de que o limite de alguns poucos cruzeiros era baixo demais para tudo que Bruna merecia, que o presente deveria ser grande e que ela era linda. ‘”Linda” desencadeou a inquirição da qual não pude fugir. Eu disse sim e a coragem de admitir levou minha mãe, compadecida, a bater perna comigo nas lojas do centro da cidade em busca do presente perfeito que se revelou no terceiro dia um urso de pelúcia enorme e perfumado ao custo dos olhos da cara e de acordo com o que eu julgava justo.

Por sorteio, eu fui o primeiro e entregar o presente e entendi isso como um inexorável sinal divino. Nosso destino foi traçado na sala de aula. Pronunciei o nome enquanto andava em sua direção, ” Bruna”, ao que ela riu, pegou, desembrulhou, gritou de felicidade um “ai, que lindo!” e abraçou o urso como deveria fazer comigo, que embasbacado mal ouvi a classe inteira fazer coro de alguma coisa que impingia em nós a condição de amantes. “Eu também tirei você!”.

Teria sido melhor não. Um Resta Um fuleiro, de plástico azul, que eu recebi acabrunhado e medindo ali tudo que eu valia para ela; o limite do preço estabelecido pela professora, o tamanho do amor que ela dedicava. Correr e chorar me pareceram as únicas atitudes possíveis e foi o que fiz, antes de encerrar a questão jogando o regalo no lixo.

Entramos em férias e nunca mais vi Bruna. Até hoje espero o recomeço das aulas, um pedido de desculpa, a chance de dizer que “tudo bem, a gente pode ser feliz mesmo assim, esquece o que passou, me dá um beijo e vamos para o pátio lanchar juntos”, qualquer coisa que cure a fratura exposta, à mostra, à vista como o choro, o tabuleiro azul do Resta Um, os pinos vermelhos e todo amor do mundo, do tamanho de um urso enorme e perfumado.

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A foto é de Mary Robinson

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Fratura Exposta é uma seção colaborativa do Don’t Touch. Então, se você quer escrever sobre as coisas do coração, manda um e-mail pra mim! > dani@donttouchmymoleskine.com

11 Comentários Deixe seu Comentário

  • mari leme • 28.07.2010 @ 21:59 responder

    lindo!

  • Gabriela Galvão • 29.07.2010 @ 10:02 responder

    Q-coisa-mais-linda.

    Amo meu nome, mas durante a leitura, deu vontade d me chamar Bruna.

    (Me amarro no Xico Sá tb, mas este aqi ‘bateu’, ñ hah dúvidas!)

  • Isadora • 29.07.2010 @ 10:44 responder

    demais.

  • ana k • 29.07.2010 @ 11:07 responder

    wow, pequeno rodrigo!

  • Ilana • 29.07.2010 @ 12:40 responder

    na visão de uma criança, o amor é ainda mais verdadeiro.
    muito lindo. gostei muito.

  • Noelle Araujo • 29.07.2010 @ 14:02 responder

    Concordo com a llana.

    Quando crianças amamos sem medidas. Sem mensuração. Livres…

    Muito bom lembrar disso lendo seu texto, Rodrigo!

    Bom demais!!

  • Marcia • 1.08.2010 @ 20:41 responder

    Lindo!!!
    Me emocionei…

  • heidy • 15.10.2010 @ 13:02 responder

    :’o)

  • gabi @liubliu • 15.10.2010 @ 17:34 responder

    muito bom!
    ri tanto, porque casar e ter filhos parece muito com brincar de casinha, médico e esconde-esconde. tudo ao mesmo tempo. ;)

  • Rita Apoena • 29.04.2011 @ 08:22 responder

    Eu queria dizer que gosto tanto taaaaanto do Rodrigo Levino, porque só fico lendo o que ele escreve em silêncio, e talvez ele nem adivinhe, né… mas perdi o email dele. Então, quem sabe ele leia esse comentário. Rodrigo, obrigada! :***

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