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lendo a internet

por   /  27/06/2010  /  14:28

- Esta é a história da resistência. Faz uma semana que a vida de Reginaldo Aquino da Silva escureceu sem nem avisar. Na Rua José Rufino de Santana, em Palmares, na Zona da Mata Sul pernambucana, não sobrou nada. Não ficou ninguém. Só ele, os dois vira-latas e um mundo de lama. Sem cerimônia, a água expulsou quem vivia por lá. Com uma vela, passa o tempo todo trancado nos escombros vigiando o seu patrimônio: bujão de gás, TV e uma geladeira velha.

É difícil de acreditar. A mesa estreita agora é cama. Ele é maior do que ela. A dormida segue assim há uma semana. Reginaldo não sabe, mas virou entulho. Nem percebe que foi engolido. Vive misturado aos restos de madeira, lama e ferro. É o extremo. Tem vergonha de falar sobre si mesmo. Nem precisa. Até agora, não recebeu uma visita sequer. O filho, ele mandou para casa de um amigo. E a mulher, Marliete Maria da Silva, está na rua de cima. “Não fico aqui com ele por falta de espaço.”

A escuridão da rua destruída, com destroços por todos os lados e cheiro muito pior do que um Instituto de Medicina Legal (IML), assusta. É cenário de guerra que deixa fotógrafos experientes dez segundos mais lentos. Gente é coisa rara por lá. Do lado de fora, impossível acreditar que ali dorme um homem de 50 anos. “Fazer o que?”, é a pergunta que Reginaldo devolve de imediato para qualquer questionamento. Em 40 minutos de conversa, o mantra do conformismo e desesperança foi repetido cinco vezes. Depois de três gritos nos cachorros, manda “os meninos da reportagem entrar.” Perguntado sobre a situação, diz que não sabe como vai ser para frente. “Só sei que vou continuar nessa escuridão.”

No meio da conversa, Marliete lembrou que estava completando 21 anos de casamento naquela data. “É hoje mesmo. Minha filha veio me buscar para morar em São José da Coroa Grande (Litoral Sul) com ela. Mas tô com ele na alegria e na tristeza. Não é assim?” Reginaldo se mexe na mesa-cama, mas não fala nada. Quem acolheu Marliete na rua de cima foi Vera Lúcia Lopes da Gama, 40, a mãe dela, Maria José de Lima, 66, e a avó de 99 anos. Também estão sem água e energia. Mas tem canto para mais um. As paredes ficaram de pé. Lá, as velas viraram artigo essencial. Maria José diz que voltou a Palmares dos anos 70. “Aqui era assim. Nessa, mesma casa não tinha energia. Agora, percebo como a gente sofria e nem notava.” Palmares à noite é desolador.

João Valadares escreve sobre Os heróis da cheia resistem na escuridão (o texto continua, para assinantes), com foto de Heudes Regis

- O JC também publicou um slideshow com fotos da tragédia: SOS Pernambuco

- Eu penso no que aconteceu o tempo todo, mas a hora mais difícil é à noite. Eu coloco no chão esse colchão que ganhei, deito aqui no meu canto e fico pensando se ainda vou ter a minha casa para morar. Eu, velho, com essa doença, tem hora que desanimo. Mas depois penso: Tem que tirar esse pensamento ruim da cabeça. Tem que confiar que a situação ainda vai melhorar.

Cícero Oscar da Silva em depoimento a Fábio Guibu: A situação vai melhorar

E mais:

- Claro que não torço contra o Brasil, nem no futebol, nem no tênis de mesa, e nem mesmo nos disputados torneios de lançamento de anões, nos quais nem sei se há hoje competidores ou anões brasileiros atuando. Mas confesso que me encantou aquela repentina, majestosa, quase surreal bolha de silêncio que se instalou nesse imenso canteiro de obras que chamamos de cidade durante o jogo, e que tive a boa ventura de usufruir nos dois jogos seguintes, com ênfase neste último, contra Portugal, que chegou à perfeição, sem ninguém a berrar GOOOL!!! nas minhas oiças fatigadas.

Reinaldo Moraes sobre A bolha de silêncio neste canteiro de obras que chamamos de cidade

- Com exceção de algumas pessoas que adoram ou fingem gostar do cotidiano, por medo e/ou por não conhecer ou por não ter outras possibilidades, o ser humano sonha em se tornar um cidadão do mundo. Mas, quando viaja por um tempo maior, morre de saudade de sua rotina, das pequenas coisas. Quer ser muitos em um só. “Sou o que penso, mas penso ser tantas coisas.” (Fernando Pessoa)

Tostão escreve sobre Mundos opostos

- Acredito que os artifícios usados em Dilma já estejam agindo sobre o interior da ex- guerrilheira. Me pergunto o que sente ao se olhar no espelho, se gosta e se se reconhece no que vê. Penso também no que pensaria a ex-militante de si mesma hoje; se compreenderia aos 20 a mulher na qual se transformou aos 60. Todo jovem acredita que a divisão entre o que é verdadeiro e falso é uma linha bem definida. Com a idade, a gente descobre que essa fronteira é bem ampla.

Fernanda Torres escreve sobre Dilma: Parece ser ou não ser

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