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Líricas afetivas: Método para identificar boylixo, por Dandara de Morais

por   /  21/09/2018  /  13:13

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Método para identificar boylixo, por Dandara de Morais

Tinha alguma coisa errada. Como é possível que nenhum cara ficou/fica por mais de um mês na minha vida? Isso quando chega a um mês, porque geralmente não passa de 3, 4 vezes “saindo” juntos. Entendendo que a história se repetia sempre,  comecei a notar um padrão de comportamento que se repetia com cada um deles, independente de idade, esquerda, direita, localização espacial. Juntamente com o fato de ter mais amigas negras e saber que elas viviam o mesmo, consegui  (só um pouco)  deixar de me sentir culpada por nenhum deles ficar na minha vida.

As minhas experiências me levaram a catalogar os caras de acordo com as seguintes perguntas:

– Era sempre quando e onde ele queria?

– Ir “ver um filme” na casa dele era o programa de vocês?

– Houve algum tipo de constrangimento da parte dele ao ficar em público?

– Vocês só ficavam “escondidos” ou afastados de amigos/conhecidos?

– Simplesmente parou de te responder? Não te cumprimenta quando te encontra?

Se você respondeu sim a todas essas perguntas, não vou te dar parabéns, e sim um tapinha nas costas pra consolar. Aplicar esse método resultou em mais dedos nas mãos do que boys decentes.

Achamos que os sinais de lixão que captamos são invenção da própria cabeça. “Mas a gente saiu naquele dia prum barzinho”, “Que é isso, tô aqui com você não é?”, “Não te vi naquele dia, tava meio aéreo”. NÃAAAAAAAO! Não é coisa da sua cabeça, amada! Precisamos começar a entender de quem é a culpa. Que não é nossa, claro. São séculos de tratamento dos nossos corpos como meros objetos. Ali que começou a negação de nossa subjetividade e consequentemente a rejeição.

Sim, tristemente menos de 10 caras passam nesse teste quando eu aplico. O mais bizarro é que, ao ser tratada com respeito, carinho e atenção, ele automaticamente ganha pontos. É tanto boylixo, tratando mal. Já perceberam que ao encontrar um cara massa tendemos a dizer “ele me trata tão bem”? Não é bem assim. Tratar uma pessoa bem é o mínimo esperado.

Tinha esse boy, que em uma das perguntas recebeu um não, mas nem por isso eu acho ele menos lixo. A gente se fala, se cumprimenta, ele me respeita e se preocupa comigo. Mas no fundo do seu ser, e dentro das minhas péssimas experiências com boys, eu caracterizo ele como boylixo. Demos match no Tinder (rsrs) há muitos anos. Conversa vai, conversa vem, e nada de sair. Até que um dia ele não respondeu mais, e eu não lembro como, mas anos depois voltamos a conversar.

Ficamos algumas vezes, na casa dele.  As amizades que tínhamos em comum até sabiam que tava rolando algo, mas nunca nos viram juntos.

Um dia teve uma festa, e essas amizades estavam presentes, assim como ele. Lembro que ele chegou me deu um abraço (tinham pessoas por perto) e foi pro bar comprar cerveja. Aí comecei a pensar “que estranho, ele nem falou comigo direito” e não muito tempo depois comecei a duvidar da minha intuição. “Não, ele é tão legal! Ele não faria isso,  então fui atrás dele. Tinha algum amigo perto, e eu, com medo de levar um fora, esperei sair. Cheguei perto dele e disse brincalhona “ei, você não falou comigo direito!”, tentando amenizar a situação, porque pra gente ouvir um “isso é coisa da tua cabeça” é um piscar de olhos.

Eu questionei ele, dito e feito. “É coisa da tua cabeça, mulher”. Me deu um beijo sem graça e foi pra galera. E nada de demonstrações de afeto pelo resto da noite. O que pra ele pode ter sido inocente, pra mim foi mais um boy se sentindo constrangido. E eu finalmente entendi isso.

Em algum momento dessa história, combinamos de sair: ir pra casa dele… Mas antes, ele quis conversar, disse que achava melhor morgar por motivos de não lembro muito bem. Mas não faz a menor diferença. Beleza, tchau e benção. Depois ele apareceu namorando com outra pessoa.

Eu até questionei ele sobre as atitudes que teve enquanto a gente tava saindo e ele disse que não tinha nada a ver. Que já teve uma namorada negra, e que a atual também era. Negras de pele mais clara que a minha e cabelos lisos. Aham, Cláudia.

Ele não foi 100% lixo, mas sinto informar que isso não redime ninguém do que aconteceu no passado. E definitivamente não preciso me desculpar ou carregar qualquer peso por achar que nessa relação ele teve um quê de boylixo. Vacilou, boy.

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Leia as colunas anteriores:

Líricas afetivas: Número 0

Coluna: Líricas afetivas, por Dandara de Morais

 

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