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Líricas afetivas, por Dandara de Morais: Homem é tudo babaca

por   /  19/11/2018  /  19:19

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São duas da madrugada, estou do outro lado do oceano, e que belo momento para ter uma crise de ansiedade. Gosto de pensar que a criação e a escrita são a minha válvula de escape. Com os pensamentos a milhões por hora, entre fisioterapias, ônibus e caminhos, um grande de um boylixo me vem à cabeça. Chico Bento, essa é a sua fita.

Nesse ano amadureci bastante, mas ainda não o suficiente para não deixar minhas experiências negativas em relacionamentos me afetarem mesmo em momentos bons da minha vida. Ele poderia ter ficado calado, poderia ter sido um caso rápido e gostoso, mas ele preferiu proferir palavras, fazer planos e juras. Eu inocentemente baixei a guarda e me deixei acreditar por achar que ele estava falando a verdade.

Ele não é branco, e isso já foi um ponto a mais no balanço. Mas não é por ser um cara indígena que ele estava imune a ser um boylixo, pelo contrário, isso só mostra que macho é tudo macho mesmo. Nesse momento, eu me encontro num misto de frio, raiva e angústia, e minhas palavras soam mais agressivas, como uma criança que planeja uma vingança boba contra um coleguinha. Mas, como já disse antes, eu não vou mais me desculpar pelos meus sentimentos.

Quando nos conhecemos, eu não estava nem um pouco a fim de me envolver romanticamente com ninguém. Mas o desejo não tardou muito a aparecer, a atração era mútua e visível para todo e qualquer olho ao nosso redor. Uma atmosfera tímida de paquera foi surgindo, entre olhares distantes, toques e aproximações. Sem nenhum motivo especial, houve uma conexão.

Nesse exato momento, minha vontade é de mandar ele arder no inferno. E estou fazendo isso mentalmente, porque é madrugada e eu não posso gritar ou externar o que sinto. Talvez esse não seja o melhor momento para escrever essa história, mas eu sinto que se não fizer isso agora – entre pausas pra fechar os olhos e me aquecer – eu não vou conseguir dormir.

Eu tomei a iniciativa, como sempre. Sinto que em algum lugar da minha existência eu intimido os caras. Sinto não, tenho certeza, e já ouvi isso de algumas pessoas.

Ao primeiro primeiro passo dado por mim, ele deu um passo adiante. E assim começou uma história que poderia ter existido sem qualquer peso ou traço de lixão se para os homens, não fosse tão tentador colocar a gente num lugar vulnerável.

“Assim eu me apaixono”. Li isso e me contorci até o chão algumas horas antes de rolar o primeiro encontro depois que a paquera já estava encaminhada, quando passamos o fim de semana inteiro trocando mensagens vestidas de vontades e afetos. Tudo falso. Tinha uma falsiane bem na ponta do meu nariz e não fui capaz de reconhecer.

A gente carrega essa culpa, esse sentimento de achar que poderia ter evitado desgaste, que devia ter sido mais esperta que boy que não tem um pingo de responsabilidade pelo que faz, mesmo com quase 40 anos na cara e pai. Novamente, parece que nada, raça, idade, localização espacial, gosto musical, cueca boxer ou samba canção, faz a mínima diferença quando se trata de destratar alguém que teve coragem de se abrir num mundo onde enganar se tornou hábito comum.

Eu me via blindada, queria estar blindada depois de ter passado por uma relação fracassada. Mas com tantas, inúmeras, várias, muitas mesmo, atitudes românticas eu pensei: “né possível que ele tá falando isso tudo da boca pra fora”. Apois te ilude.

Diversas vezes caras ficavam comigo num cantinho, ele não. Isso também adicionou pontos no balanço total. Assumir uma mulher preta é coisa rara, e isso, se somando a outros acontecimentos, me fez criar uma expectativa que ele não teve culhão pra bancar. Filhos? Não sei vocês, mas eu falo de filhos com todos os boys que eu fico (por favor entenda a ironia). “Imagina um filho nosso, meio indígena, meio tu. Mas só se você quiser.” Me abraçou apertado como quem diz “é verdade esse bilete”.

Não se cansava de falar sobre paixão, ou de dizer que viajaria pra me ver onde eu estivesse. E que mesmo distantes, sempre iria ter um lugar nosso. Assim como aquela velha frase que eu não acredito nunca mais “We’ll always have Paris”, a gente teria a casa na roça pra fugir do mundo, tomar blend de café em caneca livre de poliuretano e ter um lifesytle Chico Bento feat. “Minha Rosinha”. Palavras dele. Juras, promessas e planos não partiram de mim, eu apenas acreditei, e acho que muitas pessoas em meu lugar também acreditariam.

Como de praxe, ele sumiu. “Magicamente”, reapareceu mandando essa mensagem da foto. Mas eu me tornei sagaz, e não deixo mais barato. Eu tava na casa de uma amiga e cheguei a uma conclusão. Enquanto ela gritava lá de dentro do quarto “é isso, amiga. Macho é tudo igual mesmo”, eu gritei da rede onde me balançava “só muda de nuance!”, e a gente riu. É que nem paleta de cores. Não deixe que eles tornem tudo cinza.

Leia as colunas anteriores:

Líricas afetivas: Método para identificar boylixo

Líricas afetivas: Número 0

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: estreia da coluna

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