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Longe de tudo e de todos

por   /  25/02/2016  /  13:13

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O meu último aniversário passei sozinho no pequeno aeroporto de Ljubliana, na Eslovênia, aguardando um voo para Skopje, na Macedônia. Sentado numa desconfortável cadeira, mirando as montanhas que compõem o maciço dos pré-Alpes, percebi de repente quão longe me encontrava de tudo e de todos e o quanto isso me pesava os ombros. Num vislumbre, vi meu rosto refletido no vidro da ampla janela, espectro estilhaçado pela luz do começo de tarde. E nele reconheci a passagem do tempo, essa terrível abstração concreta — a areia já se acumula, inexorável, no porão da minha ampulheta.

Vasculhei um lado e outro procurando enxergar minha mãe e por um momento senti seus dedos afagando meus cabelos — senti até mesmo o cheiro de sabão em pó, anil e água sanitária que usava para lavar trouxas e mais trouxas de roupa para fora. Ali estavam novamente seus castanhos olhos tristes — olhos que perderam o viço quando meu irmão morreu, aos 26 anos, em um estúpido acidente. Tenho certeza que ela morreu junto com ele — apenas permaneceu entre nós arrastando os dias como alguém condenado à prisão perpétua conta as horas: sem esperança.

Sinto falta, um texto lindo do Luiz Ruffato no El País

A foto é do François Fontaine

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