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O artivismo fundamental de Aíla

por   /  29/03/2018  /  15:15

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Escute “Lesbigay” e prepare-se: a música vai grudar na sua cabeça e vai te fazer querer ouvir muito mais do que Aíla tem para cantar. Ao vê-la ao vivo, a potência impressiona. Ela enche o palco inteiro,  e aí você entende que música boa te faz dançar enquanto fala de algumas das questões fundamentais desse mundo doido em que a gente vive.

Conversei com a cantora paraense em uma extensa entrevista, daquelas que dá vontade de trocar os emails por uma conversa ao vivo, sabe? Espero que gostem!

Mais Aíla: @ailamusic + YouTube + site oficial

As fotos são de Julia Rodrigues.

– Ouvindo seu disco lembrei daquela frase “Se não posso bailar, não é a minha revolução”. Você fez um álbum político do começo ao fim. Conta um pouco sobre ele, sobre como assuntos tão diversos como desmatamento a LGBTfobia te interessam?

De um tempo pra cá, eu senti que precisava falar do hoje, das coisas urgentes que nos cercam, que precisam ser ditas. Eu queria uma poesia mais política. Desde que comecei a idealizar esse novo trabalho, um pensamento que me movia muito era a possibilidade de fazer as pessoas dançarem muito, cantarem alto e refletirem ao mesmo tempo. Sempre imaginei aproximar canções pops, dançantes, desse discurso mais ‘artivista’. Com esse desejo, temas como feminismo, assédio, racismo, homofobia, ocupações, intolerância e resistência ganharam o centro do debate.

Arte é revolução. O maior sentido de fazer arte hoje, pra mim, é transformar o agora, é mover, fazer refletir, cutucar, contra-atacar. Somos responsáveis pela construção de espaços de debates, de diálogos. Apesar de vivermos em um mundo controlado pelo medo, pelo capital, pela repressão, nossa arte precisa ser um sopro de resistência e liberdade. Esse disco é um grito contra a intolerância, o preconceito, o ódio, o aprisionamento, a exclusão.

– Você cresceu na periferia de Belém. O que isso te deu de bagagem?

Acho que a minha origem, a Terra Firme, que é também um dos bairros mais populosos de Belém, tem total relação com as minhas inquietudes, as minhas lutas, as minhas ideologias, as minhas buscas… Tenho muito orgulho de ter vindo da “TF”, e mais feliz ainda de poder estimular outros artistas da periferia a apostarem nos seus sonhos e acreditarem que a arte pode sim fazer revolução.

Foto 2 Julia Rodrigues

– O que te formou musicalmente? O que te inspira a compor?

Desde sempre, fui estimulada a ouvir todo tipo de música, de todos os cantos. Ainda no Pará, pelos LPs e fitacassetes da minha mãe, Mutantes, Tropicália e Jovem Guarda a todo vapor. Pelas frequências das rádios, chegavam os sons quentes da América Central que se misturavam às referências locais, cumbia, calypso, lambada. Pelos carros-som e festas de aparelhagem, em altíssimo volume, ecoava o brega, o tecnobrega, que é o beat da periferia. Na adolescência, ouvi demais música brasileira e de artistas transgressores também: Elis, Cazuza, Cássia, Marina, Arnaldo. Minha formação musical tem muita relação com esse mix de referências, essa multiplicidade… Nos últimos anos, em busca de inspirações pro novo trabalho, conheci muita coisa nova, imergi na obra de uma banda brasileira de pós-punk da década de 80, chamada As Mercenárias, uma banda só de mulheres, com letras diretas, pops, curtas, e políticas, que muito me influenciou a começar a compor. A música “Rápido”, desse meu novo disco, flerta bastante com essa influência. Adentrei em universos de artistas brasileiros que muito me inspiram hoje, como o pernambucano Siba, a multiartista Karina Buhr, o grande Chico César e o próprio Lucas Santtana, que produziu esse meu disco mais recente. Sou fã de artistas que são agitadores políticos também. Um artista posicionado politicamente, nos tempos de hoje, é necessário, urgente, e faz todo sentido pra mim.

– Voltei de Belém ano passado encantando com o tanto de música maravilhosa que ouvi. Como ser de lá influencia a tua música? Quem são os artistas que te formaram, com quem você já trabalhou, com quem deseja trabalhar, o que a música paraense representa pro Brasil?

Belém é incrível mesmo, e é intensa musicalmente. Meu primeiro disco, o “Trelêlê” (2012), reflete muito o início da minha carreira, os tradicionais festivais de canção que eu participei pelo Pará, o convívio com compositores da região norte e todas as influências que me cercavam: carimbó, lambada, brega, guitarrada… A intenção era a de misturar a tradição popular musical do Pará com uma sonoridade mais moderna, muitos discos seguiram esse caminho na época. Naquele momento, tava rolando o “boom tropical” que o Pará viveu e exportou para o resto do Brasil (e exporta até hoje). Aí conheci pessoas queridas, parceiras pra vida toda, como Dona Onete. Fui a primeira cantora a gravar uma música dela, e tenho maior orgulho disso. Meu primeiro videoclipe, lançado em 2013, foi o primeiro videoclipe dela também, “Proposta Indecente”, música que reverberou demais. Em 2015, quando me mudei pra São Paulo, a intenção era de criar novas conexões e fazer circular mais o meu trabalho. Aí novas referências chegaram, novos caminhos. Então veio a vontade de compor sobre o agora… O meu lado ativista e inquieto acabou roubando a cena e fiz o disco “Em Cada Verso Um Contra-Ataque”. Sinto que me encontrei totalmente nesse trabalho, me conectei comigo de vez. Tem o Pará ali ainda, um outro Pará, que faz dançar, mas cutuca, que tem lambada, mas tem punk também. Um Pará que o Brasil precisa conhecer mais.

Nesse processo todo, já me conectei e trabalhei com muitos conterrâneos, como Banda Strobo, Gaby Amarantos, Felipe e Manoel Cordeiro, Mestre Solano, e tenho buscado me aproximar cada vez mais dos artistas da periferia, onde encontro fortes afinidades, como o rapper Pelé do Manifesto, que pouca gente conhece e tem muito a dizer.

São Paulo, SP, BRASIL 26.05.2016 : Aíla. (Foto: Julia Rodrigues)

– O que ser cantora, compositora, artista, melhor te ensinou e ensina sobre a vida? E quais foram as maiores dificuldades no caminho?


Ser mulher em um país culturalmente machista, em qualquer meio, já trás um peso e uma dificuldade maior pra se alcançar qualquer objetivo, e na música não é diferente. A figura da cantora sempre carregou o estereótipo de “musa”, “diva”, intocável, que só tem que ser “bonita”, cantar “afinada” e ponto. Então pra mim a quebra de padrões já começou daí, fui percebendo que precisava me colocar de outra maneira. Nesse segundo disco, por exemplo, comecei a buscar parceiras mulheres pra compor junto, além de ter também começado a compor as minhas próprias músicas. Em termos visuais, comecei a investir em figurinos mais conceituais, artísticos, esquisitos para alguns, mas que na verdade fogem da imagem “cantora-mulher-sexy”. Eu posso cantar, compor, ser performer, produzir discos, tocar, sei lá, qualquer coisa… Mas as pessoas sempre irão reduzir a minha função somente a “cantora”, isso mostra que não importa a multiplicidade de coisas que uma mulher pode ser, ela sempre será enquadrada na categoria mais aceita pra sociedade machista. Mas sinto que isso tá mudando, e isso tem total relação com a luta feminista, com as nossas mudanças de posturas. Eu, diariamente, luto pelo contrário, seja no palco, ou fora dele, de forma individual ou coletiva, como a ideia de criar o Festival MANA > Mulher, Arte, Narrativas, Ativismo < que aconteceu no ano passado em Belém, um festival de arte e feminismo, idealizado por mim e pela Roberta Carvalho, que é artista visual e minha mulher, e que nasceu com o intuito de debatermos o protagonismo das mulheres nas artes. É isso, precisamos agir pra passar por cima das dificuldades.

– Agora pausa pra uma pergunta de RH: como você se vê daqui a cinco anos? E daqui a 20? O que você quer fazer que ainda não fez?

Ah, não sei muito o que será de mim (pausa dramática, risos)… Mas acho que estarei sempre cheia de inquietudes, lutando por alguma coisa, cheia de vontade de mudar as coisas pra melhor, e isso irá me mover, com certeza. Sendo mais objetiva agora (meu lado escorpiana), daqui há 5 anos, me vejo com mais 2 discos lançados, uns 20 clipes pela internet, 2 turnês internacionais, uma pela América Latina e outra não sei por onde ainda, e já na minha casa própria. Daqui a 20 anos? Uau, difícil imaginar, mas se eu estiver viva (quero estar!), estarei com 50 anos, e já quero ter aumentado a família, meu amor do lado forever, uns 3 filhos, adotados também, uma fazenda orgânica, com toda nossa alimentação diária vinda de lá, minha mãe do ladinho, cheia de saúde. Uma vida de música a todo vapor. Muitas composições novas, parcerias inéditas. E, através da minha arte, fazendo ARTivismo!

– Ser artista no Brasil hoje é…

Resistência pura, mas é necessário seguir.

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