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“O pior dia de todos”, de Daniela Kopsch

por   /  25/06/2019  /  13:13

O pior dia de todos

Tem livro que me arrebata. Não consigo largar até terminar. Viro as páginas com aquele entusiasmo de quem deu a sorte de encontrar uma história muito bem contada. “O pior dia de todos” (@tordesilhaslivros), de Daniela Kopsch (@danikopsch), é um desses. Como jornalista, a autora estreante cobriu, em 2011, a tragédia de Realengo, quando um atirador inaugurou no Brasil a modalidade massacre em escola, matando 12 crianças, a maioria meninas. A autora estreante entrevistou sobreviventes, famílias, ficou marcada pelo que viu e ouviu – e talvez foi ali que o livro começou a ser tecido. O que “sobra” depois da tragédia? Quem são as pessoas além de números estampados na manchete do jornal? O que elas faziam, com o que sonhavam?

A história mostra a amizade de Natália e Malu, que são primas e estudam na mesma escola. A rotina, suas famílias, a interação com outras pessoas do bairro, uma que gosta mais de redação, outra de ciências, as descobertas e as paixões. Duas meninas tão diferentes e tão necessárias uma para a outra – e que também disputam espaços e afetos. Em vários momentos elas me lembraram a dupla Lila e Lenu, de “A amiga genial”, da Elena Ferrante. Só que vivendo em um subúrbio do Rio permeado por alcoolismo, abandono, violência, limitações, falta de silêncio. E também por uma noção ampliada de família, por desejos de mudar o curso da vida, em um Brasil que ainda vivia um boom econômico.

“O pior dia de todos” é um romance sobre ser menina no Brasil, como é crescer menina e também como se faz para viver depois de uma brutalidade que não tem explicação. Fala de perda e luto, de quem a gente é e em quem a gente se espelha para ser e para não ser também. Honra a memória e também é feito em memória de meninas que antes de se tornarem mulheres já foram silenciadas simplesmente porque o mundo ainda insiste em nos ver com ameaça e nos colocar em perigo todos os dias. Forte e bonito demais, recomendo.

#bibliotecadonttouch

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