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Ninguém é de ninguém, de Rogério Reis

por   /  26/02/2016  /  11:11

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Verão ta aí, e eu não canso de olhar para o meu exemplar de “Ninguém é de ninguém”, do fotógrafo Rogério Reis.

Publicado pela editora Olhavê, de Alexandre Belém e Georgia Quintas, com projeto gráfico de Yana Parente, o livro é uma celebração da praia como espaço mais democrático que existe. Espaço para todos os corpos, todas as cores. Um desbunde!

Mais sobre o livro:

Ninguém é de ninguém reúne pela primeira vez em livro o mais recente trabalho de Rogério Reis, um dos fotógrafos brasileiros mais destacados no país e exterior. Com beleza e ironia as fotografias captadas nas praias do Rio de Janeiro querem fazer refletir sobre a dualidade público e privado. Ao utilizar tarjas sobres os rostos de seus personagens, flagrados da forma mais espontânea, Rogério Reis lança um olhar crítico sobre a criação da propriedade de imagem no espaço público em contraponto ao caráter documental da fotografia. Nesse jogo de crítica, humor e imagem, Rogério apresenta, junto às cerca de 40 fotografias reunidas, a “Cartilha para tirar fotos espontâneas na praia”, em que está presente a oportuna frase do artista urbano inglês Banksy: “É sempre mais fácil conseguir perdão do que permissão”.

Para comprar > loja.olhave.com.br

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#vitrinedonttouch: 100 lugares para dançar

por   /  26/02/2016  /  9:09

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100 lugares para dançar é uma cartografia dançada de cidades imaginadas, sonhadas e esquecidas. Quem nos conta é Marina Guzzo, uma das dançarinas do projeto. Ao lado de Vinícius Terra, ela explorou cidades como Santos, São Paulo e Rio de Janeiro, criando 100 minivídeos que podem ser vistos em 100lugaresparadancar.org.

Eles explicam:

Trata-se de um estudo de improvisação, no qual a superfície do corpo – feita das roupas, das cores e dos cabelos – contornam a dança que é concebida no instante da sua execução. É do encontro com as pessoas, prédios, muros, barcos, containers, bares, escadas, águas, ruínas e sonhos que essa dança desvenda a cidade. São detalhes, informações, experiências, memórias e civilidades que comunicam  a sensação de morar/dançar em  Santos, em seus não-lugares, cheios de danças instantâneas e efêmeras. Lugares onde o corpo (des)especula, vira um espectro, sorve, sucumbe e se dissolve entre a memória do futuro e o risco do passado. Como artistas encontramos a possibilidade de dar visibilidade a contradição da falta de espaços e possibilidades culturais da cidade, em oposição à pujança econômica e especulativa do mercado. Talvez porque somos estrangeiros, talvez porque ainda há muito que conhecer, talvez porque a dança tem espaços impensáveis. Vamos atrás deles, com a câmera e o corpo na mão. A

Marina completa: Eu me apaixonei por Santos. Mas não foi logo de cara. Foi uma paixão construída aos poucos, devagar.  Cheguei como estrangeira, com o olhar de viajante aprendido ao longo da vida. Foram vários encontros, espaçados, desapercebidos, estranhos. Mas quando encontrei o porto pela primeira vez, senti os ventos do mundo. E como foi bonito perceber, de repente, que eu estava apaixonada, e que tudo já não era como antes. Mudou o jeito de chegar na cidade, de trabalhar aqui, de viver, de desejar estar mais perto, de entender e olhar as pessoas. Mudou o jeito que eu penso e faço arte. Mudou também o jeito que eu falo ou escrevo sobre arte. E principalmente para que serve a arte.

Para mim, a arte serve para inventar coisas que não existem, para pensar diferente, para sentir diferente. Em cidades que são, ao mesmo tempo lindas e horríveis. Cheias de ilusões e ruínas (dessas mesmas ilusões). Dançar nesses 100 lugares, para tantas pessoas, com as pessoas, me fez ser menos estrangeira, mais humana. A paixão ajuda a mudança acontecer. Embora seja um trabalho sobre lugares, foram nas relações humanas os espaços de maior crescimento. Trabalhei com gente que eu amo, que admiro, que respeito. Como é difícil misturar amor e trabalho. Não devia ser fácil? Mas foi difícil… E muito lindo. Porque juntar gente diferente, interessante, de opinião, com potência e orquestrar tudo isso num período de tempo curto não é tarefa simples. Eu faria tudo de novo, se fosse me dada a chance. Porque a paixão não nos deixa escolhas. Destrói e constrói tudo em seu páthos e faz a vida ter mais sentido.

O projeto é de 2011 e, desde então, saiu de Santos, ganhou São Paulo, Rio e até Frankfurt, em 2013, quando foi encenado na Feira do Livro.

Na internet, sempre atemporal, a gente se perde por horas assistindo aos vídeos. Divirtam-se! > 100lugaresparadancar.org

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Longe de tudo e de todos

por   /  25/02/2016  /  13:13

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O meu último aniversário passei sozinho no pequeno aeroporto de Ljubliana, na Eslovênia, aguardando um voo para Skopje, na Macedônia. Sentado numa desconfortável cadeira, mirando as montanhas que compõem o maciço dos pré-Alpes, percebi de repente quão longe me encontrava de tudo e de todos e o quanto isso me pesava os ombros. Num vislumbre, vi meu rosto refletido no vidro da ampla janela, espectro estilhaçado pela luz do começo de tarde. E nele reconheci a passagem do tempo, essa terrível abstração concreta — a areia já se acumula, inexorável, no porão da minha ampulheta.

Vasculhei um lado e outro procurando enxergar minha mãe e por um momento senti seus dedos afagando meus cabelos — senti até mesmo o cheiro de sabão em pó, anil e água sanitária que usava para lavar trouxas e mais trouxas de roupa para fora. Ali estavam novamente seus castanhos olhos tristes — olhos que perderam o viço quando meu irmão morreu, aos 26 anos, em um estúpido acidente. Tenho certeza que ela morreu junto com ele — apenas permaneceu entre nós arrastando os dias como alguém condenado à prisão perpétua conta as horas: sem esperança.

Sinto falta, um texto lindo do Luiz Ruffato no El País

A foto é do François Fontaine

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Os livros preferidos das escritoras

por   /  24/02/2016  /  9:09

Virginia Woolf

Li “A louca da casa”, de Rosa Montero, e fui à casa da Ivana Arruda Leite, amiga querida e escritora de quem sou fã. Falei da Rosa, e claro que ela já tinha lido. A Andrea também, a Bia, idem. Perguntei quais outros livros tinham um poder tão arrebatador, e elas me indicaram “Um teto todo seu”, da Virginia Woolf, que eu devorei em seguida.

Uma dica tão valiosa merece ser compartilhada, e eu acabei perguntando a essas mulheres que eu tanto admiro quais são seus outros livros preferidos. O resultado é precioso – e eu tô aqui querendo ler todos!

Ivana

Ivana Arruda Leite

Sempre me embanano quando pedem meu livro preferido. Então vou falar alguns.
Aos 18 anos, “Antes do Baile Verde” – Lygia Fagundes Telles
Aos 30 anos, “Morangos mofados” - Caio Fernando Abreu
Aos 35 anos, “Jogo da amarelinha” – Júlio Cortazar
Aos 40 anos, “Além do bem e do mal” – Friedrich Nietzche
Aos 50 anos, “A caixa preta” – Amós Oz
Aos 55 anos, “Patrimônio” – Philip Roth
Aos 60 anos, “Sábado” – Ian Mcewan; “Elizabeth Costello” – J. M. Coetzee.
Aos 64 anos – “Antes do baile verde” – Lygia Fagundes Telles.

Lá na época (2004?), nenhum livro me pareceu tão meu quanto “O passado”, do Alan Pauls.

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Andrea del Fuego

Vou citar meu assombro atual: Vergílio Ferreira com o romance “Aparição”. No atacado, todos do Ian McEwan, todos do Philip Roth, todos (poucos) da Sylvia Plath.

“Um teto todo seu” é Bíblia.

Bia

Beatriz Antunes

Depois de “Um teto todo seu”, nada mais me virou do avesso.

Eu leio muito mais não-ficção… Acho que “Hiroshima” é meu livro favorito (John Hersey). Mas é isso, reportagem. E desgraça. Não tem combinação melhor.

“Stasilandia” - Anna Funder é foda também. E “O demônio do meio-dia” - Andrew Solomon.

AH! Tem um livro muuuuuito bom. Tipo m u i t o fucking bom. “A menina sem estrela”, do Nelson Rodrigues. Uma espécie de autobiografia dele.

[Na foto da Bia, a ilustração é do Renato Moriconi para o livro “Telefone sem fio”, escrito em parceria com o Ilan Brenman (Companhia das Letrinhas). “Como eu amo essa ilustração, quero até tatuá-la, eu tenho um postalzinho na minha sala, para me inspirar quando trabalho”, diz. “E essa caixa com cara de homem é uma revista literária maravilhosa, chamada McSweeney’s. Cada edição da revista vem num projeto gráfico diferente, e essa é uma caixa cheia de contos e quadrinhos e coisinhas lindas dentro, com encadernações as mais diversas. Acho que é de 2010. Mas a caixa é muito engraçada, isso que importa.]

Ruth Erdt

por   /  23/02/2016  /  9:09

Ruth Erdt

I was around 12 years old when i imagined a camera.
This camera I conceived was attached to my head, could be used any time and ‘took pictures’ when I wanted it to, and from the angle I chose.
The focus of that apparatus was outside me.

I myself was often depicted in those first pictures.
My aim was not so much to see, as to ‘feel’ an image. Somehow the moment when I pressed the release was extraordinary, a faltering in the course of the day, a deceleration, a dead point that engraved the image on my brain. These initial self-portraits were then joined by new images of objects bathed in a mysterious light, or images of people I wanted to get in contact with, to whom I felt somehow bound. There were no restrictions, just the compilation of a huge archive of imaginary images. 

Ruth Erdt

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A louca da casa, de Rosa Montero

por   /  22/02/2016  /  9:09

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Se o livro que estamos lendo não nos acorda como se fosse um punho batendo em nosso crânio, para que lê-lo?

Kafka

Existem livros que nos fazem repensar a relação com a literatura. São aqueles que transformam uma biblioteca imensa em um amontoado de papel e te deixam com vontade de fazer uma faxina e só manter títulos que despertem tamanho entusiasmo. “A louca da casa”, da autora espanhola Rosa Montero, tem esse efeito.

Mistura de autobiografia e exercício sobre o que é escrever, o livro é um desses que você grifa do começo ao fim. Livro lido, livro gasto, livro com história, sabe? Do jeito que eu gosto. Rosa é espanhola, tem 65 anos e já escreveu mais de 15 romances. Também é jornalista, e eu conheci o trabalho dela quando li um perfil seu sobre John e Yoko, em uma xerox que ganhei em alguma aula na época da Folha.

Por alguns anos, os livros dela ficaram na estante sem me chamar a atenção. Talvez por conta das capas, que não me diziam muito. Até que no fim de 2015 resolvi ler “Histórias de mulheres”, uma série de perfis de mulheres das artes, da literatura, de áreas diversas como antropologia. Mulheres marcantes, cujas trajetórias e seus feitos foram resumidos em poucas páginas por uma Rosa apaixonada por cada uma delas, leitora ávida de biografias, feminista, eternamente incomodada com o silêncio a que somos submetidas desde sempre. Deu vontade de ler tudo que Georges Sand, Agatha Christie, Simone de Beauvoir, Frida Kahlo escreveram, ou ao menos mais um pouco do que escreveram sobre elas.

Na sequência, peguei “A louca da casa”. Li nos primeiros dias do ano, em uma paradisíaca praia no Ceará, o que deve ter contribuido para a perfeição do momento. Virava cada página com aquela ansiedade de quem espera mais uma descoberta, mais um insight poderoso, mais um trecho que resume tão bem o que já me passou pela cabeça, ou o que eu nem sabia direito que pensava mas logo fez todo sentido.

Rosa nos conduz por uma investigação sobre o ato de escrever, misturando suas histórias e percepções com fragmentos da vida de escritores do cânone e as ideias deles sobre o ofício. “Quero dizer que escrevemos na escuridão, sem mapas, sem bússola, sem sinais reconhecíveis do caminho. Escrever é flutuar no vazio”, diz.

Ela também fala das armadilhas da literatura, como a busca pelo sucesso. Fala de travar e achar que jamais será capaz de escrever outra linha novamente. Fala de vidas destruídas pela literatura e de outras salvas pelo mesmo motivo. Fala de viver não para colocar as experiências no papel, que aí o caminho é fácil demais, mas de entender que “o imaginário reaviva a imaginação, enquanto a realidade pura e dura, o ruído imediato da própria vida, é péssima influência literária.”

Com maestria, ela ainda brinca com o poder da palavra. Conta uma história de sua vida, e a gente acha que aquilo aconteceu, até que somos surpreendidos por mudanças no roteiro, uma, duas, três vezes. Não basta apenas falar do que a palavra é capaz, mas sim mostrar isso brilhantemente nas páginas que se seguem. Rosa encanta porque é frágil, vulnerável, tem medo e dúvida, às vezes trava, às vezes quer ser reconhecida. E principalmente porque nos faz entender que deixar a imaginação, essa tal louca da casa, solta (e ser bastante fiel à disciplina) é o que faz com que as histórias que ela nem sabe que existem continuem a surgir de dentro dela. Que sorte a nossa.

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Separei alguns trechos pra dividir com vocês!

A literatura é um caminho de conhecimento que precisamos percorrer carregados de perguntas, não de respostas.

Acho que a vida é um mistério descomunal do qual só arranhamos a casquinha, apesar de nossas pretensões de grandes cérebros. Na verdade não sabemos de quase nada; e a pequena luz dos nossos conhecimentos é rodeada (ou melhor, sitiada, como diria Conrad) por um tumulto de agitadas trevas. Também acredito, e continuo com Conrad, na linha de sombra que separa a luz da escuridão; em margens confusas e fronteiras incertas. Em coisas inexplicáveis que nos parecem mágicas só porque somos ignorantes. O romance se dá numa região turva e escorregadia, em torno de um romance sempre acontecem as coisas mais estranhas.  

Seja como for, não é preciso morrer, nem se tornar um doido oficial e ser trancado num manicômio, nem se drogar feito o junkie mais decadente, para ter vislumbres do paraíso. Em todo processo criativo, por exemplo, você chega à beira dessa visão descomunal e alucinante. E também entra em contato com a loucura primordial toda vez que se apaixona loucamente. (…) Porque a paixão talvez seja o exercício criativo mais comum da Terra (quase todos nós inventamos algum dia um amor) e porque é a nossa via mais habitual de conexão com a loucura. Em geral os seres humanos não se permitem outros delírios, mas aceitam o amoroso. A alienação passageira da paixão é uma doidice socialmente admitida. É uma válvula de escape que nos permite continuar sendo equilibrados com todo o resto.

Manter a distância exata do que conta é a maior sabedoria de um escritor; você tem que fazer com que aquilo que narra o represente, como ser humano, de uma maneira simbólica e profunda, da mesma maneira que os sonhos; mas tudo isso não deve ter nada a ver com o episódio de sua pequena vida.

A literatura é uma felicidade inata e uma dificuldade adquirida. [Irmãos Goncourt]

- Sei lá. Às vezes a gente evita começar o trabalho. É uma coisa esquisita.
- Por preguiça?
- Não, não.
- Por quê?
- Por medo.

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The Waiters e a celebração de 13 anos de música

por   /  19/02/2016  /  13:13

Matt Love - Lulina

Foi em mais uma véspera melancólica de Natal que ouvi “Christmas lights” pela primeira vez. Lulina mandou a música por email, e eu senti um conforto no coração. Ela também contou que havia feito a música com um amigo virtual que morava nos Estados Unidos, o Matt. Música literalmente feita por computador, que legal! Quando ela fez sua primeira turnê internacional, o Matt também estava lá, articulando lugares para os shows, tocando junto. A amizade dos dois já dura treze anos, se transformou na banda The Waiters e, no ano passado, deu cria: um disco indie lo-fi delicioso.

Conversei com o Matt por email querendo saber mais da relação deles. “Não foi há tanto tempo que nos conhecemos, mas em termos de ciberespaço, foi há séculos. As coisas mudaram tanto!” O ano era 2003, e Matt pesquisava nomes de filmes com o título “Plan _ From Outer Space” (cineastas amadores fazem homenagem ao clássico filme B “Plano 9 do Espaço Sideral”). Quando digitou “Plan 13 From Outer Space”, achou um único link, com a frase solta em um texto em português. “Era o blog de uma mulher incrível. Por sorte, os programas de tradução também tinham começado a existir, e descobri que ela dizia que iria escrever uma música chamada ‘Plan 13 From Outer Space’. Pensei: ok, estou procurando filmes, mas posso procurar músicas também.”

Alguns cliques depois, Matt descobriu o email de Lulina e sua fixação pelo número 13, que ele também compartilhava. “Também descobri que uma das bandas preferidas dela era o Beat Happening. Agora sim eu tinha uma conexão pra dividir! O primeiro show do Beat Happening foi de abertura para a Wimps, minha primeira banda, que também fazia seu primeiro show”, lembra. “Escrevi e pedi pra ela me mandar uma cópia da música quando estivesse gravada. Ela respondeu e disse ‘vamos gravar juntos!’. Lulina tem uma maneira maravilhosa de se relacionar com as pessoas por meio da música, e a ideia de conhecer melhor as pessoas fazendo música com elas também é uma prática que adotei.”

Não por acaso, 13 anos depois do primeiro encontro virtual, Matt e Lulina – e Leo Monstro, artista que é parceiro da cantora há anos – lançaram juntos o primeiro disco do The Waiters. A banda surgiu de uma conversa entre Matt e Leo. O norte-americano, que foi funcionário público por mais de duas décadas e deixou o emprego para virar cuidar dos pais em tempo integral, formou com uns amigos uma banda, a Dweebish, mas acabava tocando pouco. Léo, pernambucano radicado em São Paulo, sentia falta de tocar com mais frequência. Surgia, então, o The Waiters, simplesmente porque eles estavam sempre esperando – inclusive a cantora ter tempo pra se juntar.

O disco, encontro entre Olinda, cidade da infância de Lulina, e Olympia, em Washington, onde Matt vive, é um presente pra todos que passamos os últimos anos da adolescência ouvindo maravilhas indies. “É muito lindo poder registrar essa parceria de 13 anos em um disco”, diz Lulina. “Ele é uma grande celebração dessa amizade musical e envolve muitos amigos que se juntaram a nós ao longo desses anos”, completa ela, que em 2010 fez uma turnê pela costa oeste dos EUA, com shows em Seattle, Olympia, Portland, Wenatchee e Anderson Island, e também por Chicago. “O Matt foi o meu baixista nessa turnê, pois o Zé não conseguiu visto. Foi muito especial, imagina assistir Calvin Johnson [do Beat Happening] dançando na minha frente todo empolgado durante o show?”

Matt (à dir.) com a banda Wimps, em Seattle, 1984

Matt (à dir.) com a banda Wimps, em Seattle, 1984

Falando em bandas, Matt, 59 anos, cresceu rodeado por discos de vinil e tinha como hábito ir a uma loja com o irmão a cada sábado escolher um título novo. Entre suas influências, estão Bob Dylan, The Clash, Bad Company, Foreigner, Thompson Twins, Talking Heads, B-52s, XTC, Abba. Da época em que era DJ de uma rádio, relembra algumas pérolas: “O Superman”, de Laurie Anderson, e “Singing in the Rain”, do Just Water. “Passo por períodos na vida em que escuto a mesma música repetidas vezes. ‘Love will tear us apart’, do Joy Division, me manteve vivo após o divórcio com minha primeira mulher. Passei por épocas longas em que ouvia ‘My old school’, do Steely Dan, repetidamente. Sem falar em ‘Strawberry Fields forever’.”

Matt já veio ao Brasil seis vezes, sendo a primeira em 2008, e sempre se impressiona com a recepção. “Daniel Belleza me disse que todo mundo que ele conhece conhece Lulina, e eu vi que isso era verdade. Em toda loja, casa de show que eu ia, falavam ‘Matt está numa banda com Lulina!’. ‘Ah, Lulina!’ Foi uma recepção bem calorosa.”

Enquanto se dedica o quanto pode à música, ele faz planos de gravar um segundo disco do Waiters em um intervalo menor de tempo – e de voltar ao Brasil com a mulher, Anne, e a filha, Olivia, em dezembro deste ano. “Fazer música, ao menos desde Dylan, é um processo indefinido e misterioso, no qual você se joga e lida com insegurança.” Ele conta que já esbarrou em vários becos sem saída por ignorar a “maneira certa” de fazer as coisas, mas se deu conta de que tudo isso vira história – ou música. “Venho de uma cidade pequena, quero voltar para uma cidade pequena, mas a cada dois anos vou para algumas das maiores e mais legais cidades do mundo e brindo a todas essas experiências.”

Lulina celebra a parceria. “O que eu mais admiro nele? A generosidade, o amor que tem pela música e por nós, todos os seus amigos brasileiros, e também a persistência e paciência pra não desistir de continuar compondo e tocando com a gente, mesmo com a distância e o pouco tempo disponível de todos. Ver o Matt no palco é tocante, ele é puro coração ali. É uma felicidade muito grande quando esse grupo está junto, seja compondo, gravando ou fazendo show.” Que venham os próximos encontros.

+ Lulina no Don’t Touch

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#bibliotecadonttouch: Noemi Jaffe

por   /  18/02/2016  /  9:09

Noemi

A convidada da semana na #bibliotecadonttouch é a Noemi Jaffe, escritora que eu adoro! Estou lendo o livro mais recente dela, “Írisz: as orquídeas” – e nunca deixo de acompanhar seu maravilhoso blog, Quando nada está acontecendo.

Da Companhia das Letras: Noemi nasceu em São Paulo, em 1962. Doutora em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo e crítica literária, é autora de “A verdadeira história do alfabeto”, vencedor do prêmio Brasília de Literatura, e “O que os cegos estão sonhando?”, entre outros.

A foto é do Renato Parada.

Hiroshi Senju 1y

Vender sua própria alma… Invencionice falsa! E, alma, o que é? Alma tem de ser coisa inteira supremada, muito mais do de dentro, e é só, do que um se pensa: ah, alma absoluta! Decisão de vender alma é afoitez vadia, fantasiado de momento, não tem a obediência legal. (…) Então, se um menino menino é, e por isso não se autoriza de negociar… E a gente, isso sei, às vezes é só feito meninio. (…) Se tem alma, e tem, ela é de Deus estabelecida, nem que a pessoa queira ou não queira. Não é vendível.

“Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa [a foto é de Hiroshi Senju]

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Ela tinha conhecido a felicidade, uma felicidade rara, uma felicidade intensa, e ela prateava as ondas encrespadas com um puco mais de brilho à medida que a luz do dia se apagava e o azul fugia do mar e ela se envolvia em ondas de puro limão que se curvavam e intumesciam e morriam na praia e o êxtase explodia em seus olhos e ondas de puro prazer corriam pelo solo de sua mente e ela sentia: Basta! Basta! 

“Ao farol”, de Virginia Woolf [a colagem é de Katrien De Blauwer]

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Chamemos o nosso homem, o herói da história, de Amargo. Imaginamos um homem e, para ele, um nome. Ou, ao contrário: imaginamos o nome e, para ele, o homem. Embora isso tudo seja secundário, pois o nosso homem, o herói da história, chama-se, na realidade, Amargo. O pai dele se chamava assim. E o avô também. Por conta disso, Amargo foi registrado como Amargo no cartório: essa é, portanto, a realidade, a que – como cabe à realidade – Amargo hoje em dia não atribui muita importância. Nos últimos tempos – num dos anos derradeiros do milênio que se encerra, digamos, no início da primavera de 1999, num final de manhã ensolarado -, a realidade se tornara, para Amargo, um conceito problemático, e, o que era mais grave, um estado problemático. Um estado em que – segundo os sentimentos mais íntimos de Amargo – a realidade era o que mais faltava. Se de algum modo o obrigavam a usar a palavra, Amargo sempre acrescentava: “a assim chamada realidade”. Entretanto, isso era apenas uma frágil compensação, que não o satisfazia.

“Liquidação”, de Imre Kertesz [a foto é de Mario Botta]

Merit Badge

E é assim como aqueles que nos iluminam são os cegos. Assim é como alguém, sem saber, chega a mostrar-te irrefutavelmente um caminho que, por sua parte, seria incapaz de seguir. A Maga jamais saberá como o seu dedo apontava para a fina moldura que cerca o espelho, até que ponto certos silêncios, certas atenções absurdas, certas corridas de centopéia deslumbrada eram a senha para o meu sólido estar-em-mim-mesmo, que era um estar em nenhuma parte. Enfim, isso da fina moldura… Se queres ser feliz, como dizes/ Não poetiza, Horacio, não poetiza. Visto objetivamente: ela era incapaz de me mostrar qualquer coisa dentro do meu terreno, até mesmo no seu girava desconcertadamente, tateando, apalpando. Um morcego frenético, o desenho da mosca no ar do quarto. De repente, para mim, ali sentado, olhando para ela, um indício, uma suspeita. Sem que ela o soubesse, a razão das suas lágrimas ou a ordem das suas compras ou a sua maneira de fritar qualquer comida eram sinais. Morelli falava de algo assim quando escrevia: “Leitura de Heisenberg até o meio-dia, anotações, fichas. O filho da porteira me traz a correspondência e falamos de um modelo de avião que ele está montando na cozinha de sua casa. Enquanto me conta isto, dá dois saltos sobre o pé esquerdo, três sobre o direito, dois sobre o esquerdo. Pergunto-lhe por que dois e três, e não dois e dois ou três e três. Olha-me surpreendido, não compreende. Sensação de que Heisenberg e eu estamos do outro lado de um território, enquanto o garoto continua a cavalo, com um pé em cada um, sem saber, e que brevemente estará apenas do nosso lado e toda a comunicação terá sido perdida. Comunicação com quê, para quê? Enfim, continuemos a ler; talvez Heisenberg…”

“O Jogo de Amarelinha”, de Julio Cortázar [a foto é de Oli McAvoy]

Ina Jang

Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então não me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar. Mas ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável em mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.

“A paixão segundo GH”, de Clarice Lispector [a foto é de Ina Jang]

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Quem já passou pela #bibliotecadonttouch:

Paula Gicovate

Liliane Prata

Emilio Fraia

Maria Clara Drummond