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Don’t Touch + Spotify

por   /  21/03/2016  /  8:08

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Don’t Touch acaba de ganhar uma conta verificada no Spotify! Vocês vão encontrar por lá mais de 50 playlists – ou seja, tem horas e horas de tudo quanto é tipo de música, pra qualquer ocasião.

Tem mixtapes de amorde despertar da consciênciade revival dos 16 anospra ensolarar aqueles dias mais ou menosTem amigos criando suas suas playlists também. Tem um monte de discos maravilhosos.

Vou adorar compartilhar tudo com vocês 

Vem comigo? play.spotify.com/user/donttouchmymoleskine

dtmm spotify Se você acabou de fazer sua conta no Spotify, vale assistir ao tutorial  do Maestro Billy.

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#portfoliodontouch: Renata Ursaia em busca do desencaixe

por   /  15/03/2016  /  9:09

Renata Ursaia

Existe um hábito entre alguns amigos de quase nunca falar de trabalho quando a gente se encontra para passar réveillons em praias paradisíacas ou almoçar por horas em um sábado de chuva e sol. Acho interessante, já que vivemos todos em São Paulo, a cidade da pergunta “o que você faz?” logo nos primeiros minutos de conversa. Ao mesmo tempo, adoro quando a conversa sobre trabalho surge. Tenho tanto amigo talentoso que dá vontade de contar pro mundo o que eles fazem, sabe?

Há um tempo vinha querendo mostrar aqui o trabalho da Renata Ursaia, fotógrafa e artista cujo trabalho eu conhecia mais pelo site do que ao vivo – vi apenas uma residência artística que ela fez no Pivô, no centro de SP. Dia desses fiquei vendo os trabalhos dela e tem tanta coisa tão legal - vocês precisam conhecê-la! Na entrevista abaixo, misturo umas perguntas sobre o processo de trabalho dela, de onde vem a inspiração, pra onde ela quer ir, com fotos e vídeos.

Mais > www.renataursaia.com.br

Renata Ursaia - Brenda e Tampinha (2010)

Eu trabalho na margem estreita do “quase óbvio”. Procuro um deslocamento pequeno de ponto de vista, que faça com que as engrenagens do cotidiano apareçam sob um outro ângulo, e que alguma dúvida possa se instaurar neste processo. Uma ferramenta poderosa para esta desestabilização é o humor. Porque o humor trata desse desvio que transforma uma expectativa em outra coisa. Tem inclusive uma piada que ilustra bem isso (sério!): O cara que chegou no médico, desesperado, achando que tinha uma doença grave, porque todas as partes do corpo em que ele tocava doíam. O médico examinou e concluiu que o problema dele era o dedo, que estava quebrado. Bom, eu acho que o humor, a arte e o que eu tento com o meu trabalho é ser esse dedo quebrado; um desencaixe, que muda o sentido do que está ao redor.

Renata Ursaia - Vegas (2013)

Passo uma boa parte do tempo tentando esquematizar uma metodologia eficaz de criação. Mas claro que é quando eu me distraio disso por um momento, que as coisas costumam se mostrar. Então é um acordo difícil. Você vai mapeando algumas pistas, com fotos, anotações, livros, o que está chamando sua atenção no momento. Tentando articular questões internas e externas. Porque, de alguma maneira você tem que confrontar o que lhe é mais custoso para encontrar um caminho que seja legitimamente seu.

Eu sempre gostei de viajar. E comecei a fotografar nessas viagens que eu fazia na época da faculdade. Quando você é de fora, naturalmente já olha para as coisas de um jeito novo. Isso me ajudou. O vídeo me interessava desde antes do surgimento dessas câmeras que fazem as duas coisas. Gosto do ritmo que você consegue construir na edição, da possibilidade narrativa da câmera em movimento. É uma outra maneira de lidar com o tempo.

Eu comecei trabalhando como fotojornalista e também com documentário. Mas chegou uma hora em que me senti cercada pela variedade de assuntos, a simultaneidade dos acontecimentos e a falta de conexão entre eles. E percebi que precisava voltar toda minha atenção justamente para isso; para a brecha de sentido do cotidiano, o ponto onde os objetivos escapam… aquilo que eu estava falando sobre desencaixe.

Renata Ursaia - Excursão  

O meu desejo com o trabalho é que ele possa ecoar como um antídoto contra a funcionalidade a que se resume cada vez mais a vida das pessoas. Acho que a minha contribuição é no sentido de apontar para a beleza da inutilidade.

Veja os demais posts da série #portfoliodonttouch:

A fotografia sentimental de Juliana Rocha + #retratosanônimostakeover por @rochajuliana

Paulo Fehlauer e a fotografia guiada por sensações + #retratosanônimostakeover por @fehlauer

A noite sem filtros de Luara Calvi Anic + #retratosanônimostakeover por @luaracalvianic

Corpo em desclocamento na fotografia de Patricia Araújo + #retratosanônimostakeover por @patiaraujo

A busca pela pureza na fotografia de Bruna Valença + #retratosanônimostakeover por @brunavalenca

O mundo dos sonhos de Cassiana Der Haroutiounian

A juventude pelo olhar de Pedro Pinho

O vazio na fotografia de Ana Teresa Bello

#portfoliodonttouch  ·  amor  ·  arte  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  vídeo

#bibliotecadonttouch: Gabriel Pardal

por   /  02/03/2016  /  9:09

Gabriel Pardal

O convidado da vez da #bibliotecadonttouch é Gabriel Pardal, editor da rede de autores Ornitorrinco e autor do @canibalvegetariano. Ele é artista multimídia, nasceu em 1984 e mora há 9 anos no Rio de Janeiro. Seus trabalhos costumam originar na escrita e se desenvolve, em diversas plataformas, como livros, websites, filmes, performances e vídeos. Publicou “Carnavália” (editora Oito e Meio) em 2011 e, em breve, vai lançar o livro “Tédio & Diversão”, reunindo seus textos publicados no Ornitorrinco. Atuou em uma dezenas de espetáculos teatrais e, em 2015, lançou o longa-metragem “Tropykaos”, onde é o protagonista.

“Eu poderia passar o dia inteiro te enviando meus trechos favoritos de livros. Tenho um baú – na verdade uma pasta no computador – cheio deles, que costumo alimentar cotidianamente com novas frases, parágrafos etc. Eu vivo ali, pescando pérolas para inspirar meus trabalhos. Impossível pra mim selecionar os melhores entre eles, então fui mais prático e catei os primeiros que vieram”, explica.

Rubem Braga

O melhor é não amar, porém aqui, para dar fim a tanta amarga tolice, aqui e ora vos direi a frase antiga: que é melhor não viver. No que não convém pensar muito, pois a vida é curta e, enquanto pensamos, ela se vai, e finda.

“200 crônicas escolhidas”, de Rubem Braga

Karl Ove Knausgård, 1989

Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder. E então para. Cedo ou tarde, mais dia, menos dia, cessa aquele movimento repetitivo e involuntário, e o sangue começa a escorrer para o ponto mais inferior do corpo, onde se acumula numa pequena poça, visível do exterior como uma área escura e flácida numa pele cada vez mais pálida, tudo isso enquanto a temperatura cai, as juntas enrijecem e as entranhas se esvaem. Essas transformações das primeiras horas se dão lentamente e com tal constância que há um quê de ritualístico nelas, como se a vida capitulasse diante de regras determinadas, um tipo de gentlemen’s agreement que os representantes da morte respeitam enquanto aguardam a vida se retirar de cena para então invadirem o novo território. Por outro lado, é um processo inexorável. Bactérias, um exército delas, começam a se alastrar pelo interior do corpo sem que nada possa detê-las. Houvessem tentado apenas algumas horas antes, e teriam enfrentado uma resistência cerrada, mas agora tudo em volta está calmo, e elas avançam pelas profundezas escuras e úmidas. Chegam aos canais de Havers, às glândulas de Lieberkühn, às ilhotas de Langerhans. Chegam à cápsula de Bowman nos rins, à coluna de Clarke na medula, à substância escura no mesencéfalo. E chegam ao coração. Ele continua intacto, mas se recusa a pulsar, atividade para a qual toda a sua estrutura foi construída. É um cenário desolador e estranho, como uma fábrica que trabalhadores tivessem sido obrigados a evacuar às pressas, os veículos parados a projetar a luz amarela dos faróis na escuridão da floresta, os galpões abandonados, os vagões carregados sobre os trilhos, um atrás do outro, estacionados na encosta da montanha. No exato instante em que a vida abandona o corpo, ele passa para os domínios da morte. As lâmpadas, as malas, os tapetes, as maçanetas, as janelas. A terra, os campos, os rios, as montanhas, as nuvens, o céu. Nada disso nos é estranho. Estamos permanentemente rodeados por objetos e fenômenos do mundo dos mortos. Ainda assim, poucas coisas nos causam mais desconforto do que ver alguém preso a essa condição, ao menos se julgarmos pelos esforços que empreendemos para manter os cadáveres longe dos nossos olhos.

“A Morte do Pai – [Minha Luta: Volume 1]”, de Karl Ove Knausgard

JC

Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo de minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer e tudo recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha. Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água.

“O Jogo da Amarelinha”, de Julio Cortázar

Charles Bukowski

Some lose all mind and become soul, insane.

some lose all soul and become mind, intellectual.

some lose both and become accepted.

“Poesia”, de Charles Bukowski

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You’re an interesting species. An interesting mix. You’re capable of such beautiful dreams, and such horrible nightmares. You feel so lost, so cut off, so alone, only you’re not. See, in all our searching, the only thing we’ve found that makes the emptiness bearable, is each other.

“Contact”, de Carl Sagan

Noemi Jaffe por Renato Parada

gosto do bonito, não do belo; do difícil, não do complicado; do simples, não do fácil; do verdadeiro, não do real; da mentira, não do falso; do longe, não do distante; do perto, não do próximo; da procura, não da busca; da paciência, não da espera; de estar sozinha, não da solidão; da tolice, não da burrice; da inteligência, não da esperteza. mas nada disso é tão categórico assim.

“tão”, de Noemi Jaffe

angélica freitas

eu durmo comigo/ deitada de bruços eu durmo comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão longa em que não durma comigo/ como um trovador agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo comigo às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir ao lado.

“Um útero é do tamanho de um punho”, de Angélica Freitas

Pauline Kael

Há um diálogo crucial [em Hiroshima Mon Amour]: “Fazem filmes para vender sabão, por que não um filme para vender a paz?”. Eu não sei quantos filmes vocês viram ultimamente feitos para vender sabão, mas os filmes americanos “parecem” comerciais, e podemos sem dúvida supor que indiretamente vendem um estilo de vida que inclui sabão, além de uma infinidade de outros produtos. O que torna o diálogo crucial, porém, é que a platéia de Hiroshima Mon Amour se sente virtuosa porque quer comprar a paz. E a pergunta que eu quero fazer é: quem a está vendendo?

“Fantasias do público do cinema de arte”, de Pauline Kael

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Não é necessário sair de casa. Permaneça em sua mesa e ouça. Não apenas ouça, mas espere. Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio. Então o mundo se apresentará desmascarado. Em êxtase, se dobrará sobre os seus pés.

Franz Kafka

Quem já passou pela #bibliotecadonttouch:

Noemi Jaffe

Paula Gicovate

Liliane Prata

Emilio Fraia

Maria Clara Drummond

Ninguém é de ninguém, de Rogério Reis

por   /  26/02/2016  /  11:11

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Verão ta aí, e eu não canso de olhar para o meu exemplar de “Ninguém é de ninguém”, do fotógrafo Rogério Reis.

Publicado pela editora Olhavê, de Alexandre Belém e Georgia Quintas, com projeto gráfico de Yana Parente, o livro é uma celebração da praia como espaço mais democrático que existe. Espaço para todos os corpos, todas as cores. Um desbunde!

Mais sobre o livro:

Ninguém é de ninguém reúne pela primeira vez em livro o mais recente trabalho de Rogério Reis, um dos fotógrafos brasileiros mais destacados no país e exterior. Com beleza e ironia as fotografias captadas nas praias do Rio de Janeiro querem fazer refletir sobre a dualidade público e privado. Ao utilizar tarjas sobres os rostos de seus personagens, flagrados da forma mais espontânea, Rogério Reis lança um olhar crítico sobre a criação da propriedade de imagem no espaço público em contraponto ao caráter documental da fotografia. Nesse jogo de crítica, humor e imagem, Rogério apresenta, junto às cerca de 40 fotografias reunidas, a “Cartilha para tirar fotos espontâneas na praia”, em que está presente a oportuna frase do artista urbano inglês Banksy: “É sempre mais fácil conseguir perdão do que permissão”.

Para comprar > loja.olhave.com.br

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#vitrinedonttouch: 100 lugares para dançar

por   /  26/02/2016  /  9:09

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100 lugares para dançar é uma cartografia dançada de cidades imaginadas, sonhadas e esquecidas. Quem nos conta é Marina Guzzo, uma das dançarinas do projeto. Ao lado de Vinícius Terra, ela explorou cidades como Santos, São Paulo e Rio de Janeiro, criando 100 minivídeos que podem ser vistos em 100lugaresparadancar.org.

Eles explicam:

Trata-se de um estudo de improvisação, no qual a superfície do corpo – feita das roupas, das cores e dos cabelos – contornam a dança que é concebida no instante da sua execução. É do encontro com as pessoas, prédios, muros, barcos, containers, bares, escadas, águas, ruínas e sonhos que essa dança desvenda a cidade. São detalhes, informações, experiências, memórias e civilidades que comunicam  a sensação de morar/dançar em  Santos, em seus não-lugares, cheios de danças instantâneas e efêmeras. Lugares onde o corpo (des)especula, vira um espectro, sorve, sucumbe e se dissolve entre a memória do futuro e o risco do passado. Como artistas encontramos a possibilidade de dar visibilidade a contradição da falta de espaços e possibilidades culturais da cidade, em oposição à pujança econômica e especulativa do mercado. Talvez porque somos estrangeiros, talvez porque ainda há muito que conhecer, talvez porque a dança tem espaços impensáveis. Vamos atrás deles, com a câmera e o corpo na mão. A

Marina completa: Eu me apaixonei por Santos. Mas não foi logo de cara. Foi uma paixão construída aos poucos, devagar.  Cheguei como estrangeira, com o olhar de viajante aprendido ao longo da vida. Foram vários encontros, espaçados, desapercebidos, estranhos. Mas quando encontrei o porto pela primeira vez, senti os ventos do mundo. E como foi bonito perceber, de repente, que eu estava apaixonada, e que tudo já não era como antes. Mudou o jeito de chegar na cidade, de trabalhar aqui, de viver, de desejar estar mais perto, de entender e olhar as pessoas. Mudou o jeito que eu penso e faço arte. Mudou também o jeito que eu falo ou escrevo sobre arte. E principalmente para que serve a arte.

Para mim, a arte serve para inventar coisas que não existem, para pensar diferente, para sentir diferente. Em cidades que são, ao mesmo tempo lindas e horríveis. Cheias de ilusões e ruínas (dessas mesmas ilusões). Dançar nesses 100 lugares, para tantas pessoas, com as pessoas, me fez ser menos estrangeira, mais humana. A paixão ajuda a mudança acontecer. Embora seja um trabalho sobre lugares, foram nas relações humanas os espaços de maior crescimento. Trabalhei com gente que eu amo, que admiro, que respeito. Como é difícil misturar amor e trabalho. Não devia ser fácil? Mas foi difícil… E muito lindo. Porque juntar gente diferente, interessante, de opinião, com potência e orquestrar tudo isso num período de tempo curto não é tarefa simples. Eu faria tudo de novo, se fosse me dada a chance. Porque a paixão não nos deixa escolhas. Destrói e constrói tudo em seu páthos e faz a vida ter mais sentido.

O projeto é de 2011 e, desde então, saiu de Santos, ganhou São Paulo, Rio e até Frankfurt, em 2013, quando foi encenado na Feira do Livro.

Na internet, sempre atemporal, a gente se perde por horas assistindo aos vídeos. Divirtam-se! > 100lugaresparadancar.org

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#vitrinedonttouch  ·  arte  ·  fotografia  ·  internet

Longe de tudo e de todos

por   /  25/02/2016  /  13:13

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O meu último aniversário passei sozinho no pequeno aeroporto de Ljubliana, na Eslovênia, aguardando um voo para Skopje, na Macedônia. Sentado numa desconfortável cadeira, mirando as montanhas que compõem o maciço dos pré-Alpes, percebi de repente quão longe me encontrava de tudo e de todos e o quanto isso me pesava os ombros. Num vislumbre, vi meu rosto refletido no vidro da ampla janela, espectro estilhaçado pela luz do começo de tarde. E nele reconheci a passagem do tempo, essa terrível abstração concreta — a areia já se acumula, inexorável, no porão da minha ampulheta.

Vasculhei um lado e outro procurando enxergar minha mãe e por um momento senti seus dedos afagando meus cabelos — senti até mesmo o cheiro de sabão em pó, anil e água sanitária que usava para lavar trouxas e mais trouxas de roupa para fora. Ali estavam novamente seus castanhos olhos tristes — olhos que perderam o viço quando meu irmão morreu, aos 26 anos, em um estúpido acidente. Tenho certeza que ela morreu junto com ele — apenas permaneceu entre nós arrastando os dias como alguém condenado à prisão perpétua conta as horas: sem esperança.

Sinto falta, um texto lindo do Luiz Ruffato no El País

A foto é do François Fontaine

amor  ·  fotografia  ·  literatura

Os livros preferidos das escritoras

por   /  24/02/2016  /  9:09

Virginia Woolf

Li “A louca da casa”, de Rosa Montero, e fui à casa da Ivana Arruda Leite, amiga querida e escritora de quem sou fã. Falei da Rosa, e claro que ela já tinha lido. A Andrea também, a Bia, idem. Perguntei quais outros livros tinham um poder tão arrebatador, e elas me indicaram “Um teto todo seu”, da Virginia Woolf, que eu devorei em seguida.

Uma dica tão valiosa merece ser compartilhada, e eu acabei perguntando a essas mulheres que eu tanto admiro quais são seus outros livros preferidos. O resultado é precioso – e eu tô aqui querendo ler todos!

Ivana

Ivana Arruda Leite

Sempre me embanano quando pedem meu livro preferido. Então vou falar alguns.
Aos 18 anos, “Antes do Baile Verde” – Lygia Fagundes Telles
Aos 30 anos, “Morangos mofados” - Caio Fernando Abreu
Aos 35 anos, “Jogo da amarelinha” – Júlio Cortazar
Aos 40 anos, “Além do bem e do mal” – Friedrich Nietzche
Aos 50 anos, “A caixa preta” – Amós Oz
Aos 55 anos, “Patrimônio” – Philip Roth
Aos 60 anos, “Sábado” – Ian Mcewan; “Elizabeth Costello” – J. M. Coetzee.
Aos 64 anos – “Antes do baile verde” – Lygia Fagundes Telles.

Lá na época (2004?), nenhum livro me pareceu tão meu quanto “O passado”, do Alan Pauls.

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Andrea del Fuego

Vou citar meu assombro atual: Vergílio Ferreira com o romance “Aparição”. No atacado, todos do Ian McEwan, todos do Philip Roth, todos (poucos) da Sylvia Plath.

“Um teto todo seu” é Bíblia.

Bia

Beatriz Antunes

Depois de “Um teto todo seu”, nada mais me virou do avesso.

Eu leio muito mais não-ficção… Acho que “Hiroshima” é meu livro favorito (John Hersey). Mas é isso, reportagem. E desgraça. Não tem combinação melhor.

“Stasilandia” - Anna Funder é foda também. E “O demônio do meio-dia” - Andrew Solomon.

AH! Tem um livro muuuuuito bom. Tipo m u i t o fucking bom. “A menina sem estrela”, do Nelson Rodrigues. Uma espécie de autobiografia dele.

[Na foto da Bia, a ilustração é do Renato Moriconi para o livro “Telefone sem fio”, escrito em parceria com o Ilan Brenman (Companhia das Letrinhas). “Como eu amo essa ilustração, quero até tatuá-la, eu tenho um postalzinho na minha sala, para me inspirar quando trabalho”, diz. “E essa caixa com cara de homem é uma revista literária maravilhosa, chamada McSweeney’s. Cada edição da revista vem num projeto gráfico diferente, e essa é uma caixa cheia de contos e quadrinhos e coisinhas lindas dentro, com encadernações as mais diversas. Acho que é de 2010. Mas a caixa é muito engraçada, isso que importa.]