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Parece que não é mais permitido sofrer

por   /  12/08/2020  /  9:04

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Cada um tá fazendo o melhor que pode, eu sei. Sobreviver já é a vitória que conquistamos em 2020. Ainda assim, tem dia em que eu choro aquele esguicho de lágrimas porque tá pesado demais. Sofro por mim, por você, pelo mundo inteiro. Por essa suspensão, esse não saber, por quem perdeu pessoas amadas, por quem nem pode sofrer por tudo isso. E logo penso: tem que dar conta, precisa ganhar dinheiro, é bom comer bem, fazer exercício, trabalhar, ir na análise, fazer a ronda dos amigos, passear com o cachorro. É preciso prever o futuro, ouvir gente que precisa cravar que o novo normal vai ser assim, que o futuro já não é como era antigamente. Looping de angústia com incerteza.
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Ainda assim, parece que não é mais permitido sofrer. Se compartilho uma angústia, logo ouço: vai ficar tudo bem. Se estou mal, leio: tá tudo bem não estar bem. Se vivo um momento difícil de qualquer ordem, recebo um: vai passar, você vai ver.
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Parece que a gente perdeu uma capacidade de sustentar a dor. Parece que a solidão que eu tô sentindo não é só sobre tudo isso (e também sobre a gente não se ver), é uma solidão de não poder sofrer. Escrevo, então, pra me autorizar a sentir.

Talvez seja mecanismo de defesa. Afinal chegamos aos 100.000 mortos, e a vida voltou ao “normal” pra tanta gente, em tantos lugares. Vida que segue, apesar das que nunca mais voltam. Explosão em Beirute? Mais uma dor que sai no jornal. 

Endosso o discurso do vai passar tantas vezes. Principalmente se alguém vem dividir um problema. Já quero arranjar solução, nem parece que li “Comunicação não violenta”. Me policio pra acolher mais do que dar conselho. Falho várias vezes.

Voltando à angústia. Tem dias que me sinto só. Apesar de tanta conexão, grupos de Whatsapp, comunicação que nunca termina… Tão conectados e tão sozinhos, lembro da Sherry Turkle.

Às vezes tenho a impressão de que mais vale discorrer sobre o cancelamento do dia, ler o texto que originou o cancelamento, a réplica, as trocentas tréplicas em formato de thread no Twitter, o pedido de desculpas, o descancelamento. Duas horas de leitura de treta aí. A gente gasta um tempo criando opiniões sobre o que quer que seja, mas passa tão menos tempo perguntando como o outro está de verdade pra além do tudo bem, como foi o fim de semana?

Pra sobreviver ao presente, a gente projeta o futuro e fica com saudade do passado. Na velocidade dos dias a gente faz caber tanta coisa. Menos nosso mal estar, nossas dúvidas, nossas angústias. Penso que quem viveu guerras ou outros momentos históricos talvez sofresse mais coletivamente (a gente sempre acha que o outro viveu de uma forma diferente, né?), talvez porque na manchete do jornal havia informação que todos liam e pensavam: é isso o que está acontecendo. Hoje tem quem discuta terra plana, ou pergunta o que farão os anti-vacina quando a da Covid chegar. A gente perdeu o chão em comum (em 2018, mais exatamente). Cada um acredita na realidade que quer. Ou é uma gripezinha, ou são 100.000 mortos. As duas coisas não dá.

No meio tempo muitas vezes estancamos os incômodos, parece que ficar bem é imperativo. Tudo depende de você. Se você quiser, faz seu dia ser bom. Se você quiser, é dono do seu tempo. Se você quiser, aprende alguma coisa com a pandemia. Mas e se você não tiver conseguindo todo tempo? Pode? Por mais que a intenção seja a melhor, eu não quero ouvir “vai ficar tudo bem”. Quero sentir a dor, porque só sentindo a dor é que vou/vamos conseguir processar esse tanto.

“Solidão, que poeira leve.” Queria discutir menos celebridades, e mais a gente. Queria que tivéssemos passado da cultura do cancelamento e criado uma cultura de construção – estamos em obra e erramos e revemos e aprendemos e pedimos desculpas e tentamos de novo. Queria mais nuance e mais colo. Menos lacração e menos certeza. Mais afeto – mediado por telas mesmo. Menos cada um por si e mais a gente junto pra atravessar esse momento que nunca pensamos que iríamos viver. Estou triste, estamos tristes. Escrevo, então, pra ver se consigo sentir completamente, pra ver se conseguimos fazer isso juntos.

1 Comentário Deixe seu Comentário

  • Maria Eduarda • 12.08.2020 @ 09:26 responder

    Que reflexão tão bonita e necessária, Dani. Me vejo muito nisso. Me vejo nessa batalha interna de se agarrar à ideia de produtividade pra não se afundar. E não tenho respostas sobre a medida certa desse equilíbrio entre o sentir a dor e colocar na gaveta pra lidar melhor depois. De verdade, o que tem me salvado nessa travessia é o afeto, o valor das relações e o pensar no amanhã. Haja futuro pra um presente tão pesado como o de hoje.
    Um beijo bem grande e já já a gente se abraça na vida real!

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