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“Ponte dourada sobre rio noturno”, de Ilana Lichtenstein

por   /  02/09/2016  /  15:15

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Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

Trecho de “Guardar”, de Antônio Cícero

Fotografar é guardar. É tentar estancar um momento, uma memória – para depois se debruçar sobre eles na tentativa de ressignificá-los, achar sentidos até então ocultos. É buscar, investigar, analisar. Quase sempre na tentativa de uma vida inteira que é entender a nossa própria narrativa e a de quem é fundamental para nós. Em “Ponte dourada sobre rio noturno”, a fotógrafa Ilana Lichtenstein faz uma costura entre o passado e o presente para criar um elo entre sua mãe e o Japão.

O fotolivro começou a tomar forma quando sua mãe teve um diagnóstico de uma doença sem cura, e a fotógrafa quis levá-la para o outro lado do mundo. “O Japão para mim sempre foi uma pulsão de vida, uma fonte de beleza profunda.” Visitou o país pela primeira vez em 2010. Em 2013, quando morou lá, a artista recebeu uma carta da mãe. “Ela dizia que quando eu tinha morado na França, em 2008, havia surgido entre nós uma paixão à distância. A gente não tinha uma relação muito próxima antes, não era muito harmônica. Mas quando fui morar longe pela primeira vez, a gente se aproximou muito. Na nova ida para o Japão eu confiava nisso. Tinha o sonho que ela conhecesse. Nesse estado de torpor, de letargia, achava que seria ótimo ela ver o outro lado do mundo.”

Não conseguiram ir juntas. Ilana viajou, voltou em dezembro de 2013. Em março do ano seguinte, a mãe foi internada em uma UTI por 81 dias, de onde não saiu – o que deu origem a outro livro, feito pelo seu pai, um diário poético e dolorido desse período. “Ela está, de fato, agora, de um outro lado do mundo que não alcanço. Mas esse trabalho dá de alguma forma materialidade a esse sonho.”

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Ilana passou dois anos trabalhando nas imagens que compõem o fotolivro. “Tempo lento, tempo certo”, diz. Além de suas fotos, feitas entre 2013 e 2015 em Tóquio, Kyoto e Itō, ela também recorre às imagens que seu avô, Joel Goldbaum, registrou nos anos 1960 e 1970. A ligação entre os materiais se dá ora pelas imagens em preto e branco, ora pelas bordas na maioria delas e, principalmente, nas imagens dos asiáticos que se juntam aos traços orientais do rosto da mãe, que passou a vida sendo confundida com japonesa, quando sua origem remete à Polônia. As imagens nos conduzem por uma viagem que remete a sonho, nostalgia e contemplação.Têm um pouco de melancolia e muito de beleza e poesia.

Na trama familiar, o design foi feito por sua irmã, Tamara Lichtenstein, que também costurou cada um dos 300 exemplares. O formato remete a um calendário e tem até linhas pontilhadas que permitem destacar as imagens. “Ouvi de uma senhora que a palavra defunto tem a ver com o significado de difundir. Essas fotografias serem soltas tem tudo a ver.” Pensar na passagem do tempo é inevitável.

No processo, Ilana se deparou não só com luto, mas também com mistério. “Tem coisas que não podem, não querem e não vão ser fotografadas.”, diz Ilana. “Levei minha câmera pra Tóquio, ela quebrou. Comprei outra, o filme rodava, depois soltava e entrava de volta na câmera, o que é estranhíssimo. Tenho várias imagens feitas pra esse livro em que aconteceu isso. Eu chorava, anotava essas imagens no caderno para de alguma forma não perdê-las.” O título do fotolivro, aliás, vem de uma dessas imagens que ela não conseguiu fotografar, sendo também uma metáfora sobre a morte.

O livro será lançado neste sábado, 03/09, data de aniversário da mãe de Ilana, na Doc Galeria (rua Aspicuelta, 145, Vila Madalena), das 12h às 18h.

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“Ponte dourada sobre rio noturno”, de Ilana Lichtenstein

Ipsis

60 pág.

14 x 21 cm

Quanto: R$ 80

www.ilanalichtenstein.com

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