
(…) “Porra, Papai Noel”, pensava ela cada vez que a imagem do presente invadia seu olhar cegando-a do que estava à volta. Tinham sido só três dias, não dera tempo de enjoar, de descobrir defeitos de fabricação. Ela só o levara em seus esconderijos preferidos, mostrara-lhe apenas os caminhos e paisagens que mais a tocavam fundo na alma. E agora todo aquele universo particular era uma grande Ausência, pois aqueles lugares nunca tinham sido tão bonitos quanto quando ela fora visitá-los com ele.
Na primeira manhã em que acordou e olhou para o lado e ele não estava lá, abraçou o travesseiro e cutucou-o com o focinho como se quisesse acordá-lo. Depois escondeu nele o rosto como se quisesse sufocar e só o tirou quando a fronha já estava encharcada e os olhos inchados. Depois virou-se para o outro lado como se quisesse que ele estivesse ali, olhando para as sardinhas das costas dela, esperando que ela acordasse.
Talvez essa chaga demorasse também só três dias para cicatrizar, pensou.
No primeiro dia foi ocupar-se, passear por lugares desconhecidos, visitar amigos, mas era pegar-se distraída que a garganta apertava.
No segundo dia foi viver o luto com o mesmo apetite do apego, como se um pudesse anular o outro: não comeu; não saiu; não teve prazer. Mas ao fim daquele dia sentiu que se continuasse naquele ritmo, deixaria de ser aquela que ele conheceu, e isso não! Ela tinha que continuar sendo a mesma, era o que lhe restava, e… quem sabe um dia ela ainda não o reencontraria? (…)
Lorelei Lee, em Presente > leiam o texto completo no blog dela, o Femme Fatale
A foto é de Inès

