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Quando o Brasil não me espantar estarei morta

por   /  03/09/2015  /  12:00

 

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Quando o Brasil não me espantar estarei morta. Espanta-me o presidente da Câmara que conduz um culto evangélico, a bala perdida que entra na casa da minha amiga no Rio, as três horas que levo a vir de Guarulhos, e que ainda haja água em São Paulo. Espanta-me nunca ter passado mais de 24 horas em Salvador, não conhecer o sertão de Euclides, ter lido Nelson Rodrigues tão tarde. Espanta-me o Alto Rio Negro, a poesia de Caetano, o verbo do Rosa, o queixo de Noel. Espanta-me a juventude de Machado de Assis. Espanta-me a antiguidade de Monique Nix. Espanta-me ir ver o Metá Metá e dançar morna. Sobre o vale do Anhangabaú, continua a espantar-me tanta gente falar a mesma-e-outra língua, ando a aprendê-la, ela não pára. A propósito de Anhangabaú, espanta-me que em 2015 queiram prender Zé Celso. A propósito de justiça, espanta-me que o exército esteja na Maré e ainda haja Polícia Militar. Espanta-me que uma menina aborte clandestinamente enquanto mais um Boeing 777 volta de Miami. Espanta-me o olho arrancado, o olho por olho e o mau-olhado. Espanta-me de novo a cor da terra em Minas Gerais, o desconhecido que pergunta tudo jóia e me chama de amada. Espantam-me sempre as formas de Nuno Ramos para este estranho fruto de todos nós. Tudo me espanta além do bem e do mal, então difícil achar o que seja o “vosso comportamento”. O Brasil são tantos que nunca vai virar um imenso Portugal.

Alexandra Lucas Coelho, escritora portuguesa, em entrevista para Ronaldo Bressane.

Leiam em > www.ronaldobressane.com/2015/09/01/o-fado-e-foda

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