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quanto vale um segredo?

por   /  22/05/2012  /  8:40

Thiago Pethit foi convidado pelo Efêmero Concreto pra elaborar uma intervenção artística no espaço urbano. E ele escolheu comprar segredos no centro de São Paulo.

Sobre “Quanto vale um segredo?”, ele conta:

“Quando recebi a proposta de criar, com toda a liberdade, uma intervenção na cidade, fiquei assustado – e me senti desafiado. Ainda incerto, recorri a duas amigas – as artistas Tainá Azeredo, fundadora do projeto Casa Tomada, e Adelita Ahmed, do grupo Ghawazee – para que desenvolvêssemos uma performance com base na minha ideia inicial: trabalhar com sons e escuta na cidade mais barulhenta da América do Sul.

No começo da ação, na avenida Paulista, sentia que estava jogando contra mim mesmo. O cinismo que eu atribuía à personagem ainda estava longe de ser real – como o nome da nossa moeda. Todas as palavras que me eram vendidas pareciam valer muito, e eu me identificava com cada uma delas. E assim, ainda sem me dar conta do inferno no qual estava entrando, desci até a Praça da Sé.

O depoimento de uma mulher, presa por latrocínio, estuprada ainda muito jovem, com a vida toda estragada e que me jurava com lágrimas nos olhos que seus dias haviam mudado, chacoalhou minha alma. Por que ela contava aquilo para mim e não às pessoas mais próximas? Eu não estava ali como um psicólogo, não tinha a intenção de ajudar ou de aliviar as dores de ninguém. Minha cara e minha crueldade – sim, eu comecei a ser cruel, de verdade – não estavam à disposição do próximo. Tornei-me um grande cínico. E não me dei conta de que a personagem se instalara facilmente em mim. Não por esforço próprio, mas pelo que eu ganhava do mundo em troca das folhas de papel nos meus bolsos. Quanto mais poder eu tinha, menos valiam os segredos.

Parei o jogo quando me estafei. Não sabia ao certo se minha missão estava cumprida com louvor – nem havia me dado conta do relato de um assassinato no meio de tantos segredos. A personagem ficou perdida pela Praça da Sé e eu só consegui escutar e editar o registro dos segredos duas semanas depois. E foi então que percebi que algumas pessoas deram depoimentos muito íntimos, mas que não valiam nada. Disseram palavras duras e sujas que formavam uma história ‘sem alma’, que poderia ser narrada por uma máquina num filme de ficção científica. Mas outras pessoas, escondidas em meio a tudo isso, independentemente do que narravam, realmente me entregaram seus ouros. Os desejos, os sonhos e a humanidade de algumas pessoas ficam claros pelo tom de voz ou por uma risada sutil, como de quem percebe que disse o que jamais diria.

Nem por dinheiro.”

Mais em > http://efemeroconcreto.com.br/?p=50

2 Comentários Deixe seu Comentário

  • Paula Maria • 22.05.2012 @ 10:03 responder

    Sou psicóloga. Hoje não atendo, mas já atendi. E saber dos “segredos” que segredamos é bem complicado. Nem sempre é pra ajudar os outros… Muitas vezes, é pra ajudar a gente mesmo.

    Achei uma iniciativa corajosa tal intervenção.

  • Marilia • 22.05.2012 @ 11:43 responder

    não gostei q vc julgou o segredo de algumas pessoas. vc devia ter escrito: compro segredos ‘bons’. ou, compro segredos que não envolvam crimes.

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