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quartos de hotéis

por   /  12/12/2011  /  13:11

Lugar Nenhum, de Denise Schnyder

Nos quartos de hotéis os lençois sempre tem o mesmo cheiro,

não falo dos quartos de hotéis baratos,

dos motéis que guardam cheiros diversos,

eu falo mesmo do amaciante mais vendido da cidade.

Nos quartos de hotel não tem pelos, nem cabelos,

não se imagina a existência de poeira nos quartos de hotel,

também não se imagina a existência de células mortas nas toalhas.

As toalhas chegaram quentes.

Para que não se imagine vida anterior à nossa os objetos foram plastificados.

Abre-se o sabonete como se abre um biscoito chinês: Minha sorte cheira à lavanda.

Abre-se o armário como se a porta fosse ranger: Ela não range.

Fico presa entre o armário e a cama. Experimento o colchão. Afundo.

Começo a me envolver com os objetos, bonita a maçaneta, bonito o lustre, bonita a pia.

Testo o secador na minha mão, forte. Testo o secador no meu cabelo, forte.

Me despenteio. Abre-se o pente deslizando o próprio pente contra sua embalagem:

Nunca uso pentes, desfaço os nós que criei. Não consigo desfazer os nós que criei.

Caminho pelo quarto com o pente fincado nos cachos loiros. Passo pelo espelho.

Não me observo. Observo o quarto. Não observo o quarto.

Observo minha imagem dentro do quarto. Me esqueço.

Para que eu possa imaginar à minha vida anterior a esse quarto,

tento me concentrar no meu olhar. No teto uma luz vermelha pisca.

Rouba a minha atenção. Penso em você, desvio o pensamento.

Penso em você, de novo, destruo o pensamento. Não posso fumar.

Não posso fumar na janela. Não posso sair seminua no corredor.

Enfio um vestido pela cabeça. Penso em você.

Aos poucos me acostumo a pensar em você. Fora do quarto não existe você.

Corredores de hotéis são vazios às 3 da manhã, corredores de hotéis são frios,

Não posso fumar no corredor. Me expulsam e a cidade me recebe inteira.

O tempo vai passando. Sozinho.

O quarto aos poucos ganha novos traços,

a cadeira sempre olhando a cama,

minha cabeça pendendo do encosto.

encostando na parede fria,

a rachadura no azulejo,

ninguém mais deve ter reparado,

minha escova de dente,

meus frascos…

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A foto é de Janaina Wagner. A partir das fotos dela, Denise escreve seus textos.

Mais em > http://prosaretratil.tumblr.com/

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