Favoritos

que chuva, hein?

por   /  24/02/2011  /  9:00

Que chuva, hein?, por Antonio Prata, na Folha de S.Paulo

Um dos efeitos mais nefastos do aquecimento global tem passado despercebido por cientistas, políticos e jornalistas: é a intensificação do papinho sobre o tempo. Na era pré-diluviana-ou seja, até uns dois anos atrás-o assunto não segurava mais do que quatro frases. “Esquentou, né?” “Ô, tá um bafo!” “Mas parece que de tarde chove. “Tomara!”

Então o elevador chegava ao térreo, o taxista ligava o rádio, você dizia “vou ali, pegar uma bebida” e cada um voltava para o conforto ou desconforto de seus próprios pensamentos.

Dizer que o tempo é um assunto chato não é correto, uma vez que ele sequer chega a ser um assunto. É, na verdade, o antiassunto, quase que uma extensão do aperto de mãos, cuja finalidade é criar um campo de consenso entre desconhecidos. Afinal, é bem pouco provável que, durante um toró, você diga “que chuva, hein?”, e ouça como resposta: “não acho, não, tive uma formação diferente da sua e, na minha opinião, está fazendo um sol de rachar o coco”.

O mundo é uma bagunça, o ser humano é imprevisível, ninguém sabe o dia de amanhã, mas no meio dessa barafunda, uma coisa podemos afirmar, vez ou outra, sem chance de erro: há água caindo do céu. Sim, há muita água caindo do céu. E, abrigados sob o guarda-chuva dessa pequena, porém inconteste certeza, acreditamos estar a salvo dos riscos do dissenso e da aleatoriedade.
Ou melhor, acreditávamos, pois um século queimando carvão e petróleo fez a temperatura subir, o gelo derreter e a conversa sobre o tempo, assim como as estações do ano, está completamente descontrolada. Você entra num táxi, diz “que chuva, hein?”, e o que deveria ser apenas uma brisa de interação transforma-se num dilúvio. “Mais de três horas, só na Radial Leste…”, “meu cunhado perdeu um Corolla, na Vila Madalena…”, “saco de lixo passava que nem caiaque…”, “nem bombeiro tava chegando!”. Num segundo, você já tá falando do Kassab e do Alckmin, da ira divina e do fim dos tempos. O que era um papinho à prova de fogo tornou-se material altamente inflamável.

O tema é sério. Se o aquecimento global é uma morte lenta, cocção em banho Maria, a discórdia entre os homens pode levar à guerra de todos contra todos e acabar com a vida na Terra de uma hora pra outra.

Enquanto ecologistas e políticos cuidam da redução nas emissões de gases e outros fatores que possam reverter o degelo das calotas, eu, como escritor, dedico-me a tarefa mais urgente: ajudar a humanidade a buscar uma nova conversa inócua, que permita a neutra interação e impeça o aquecimento das cacholas. Pensei em algo como “Dois e dois são quatro” ou “A capital do Brasil é Brasília”, mas as afirmações, embora indiscutíveis, me parecem forçadas. Por hora, até acharmos o substituto ao papinho (anti) climático, acho que devemos conversar só por meio de provérbios. Quando o silêncio desabar, como uma sombra, sobre você e o taxista, vizinho ou colega da firma, basta dizer: “antes um pássaro na mão do que dois voando”, ao que ele responderá, afável: “quem tudo quer, nada tem”, e os dois sorrirão, prenhes dessa tranquilidade bovina que toda concórdia traz- pelo menos, até o estrondo do primeiro trovão.

_________________________________________________________________________________________

A ilustração é do I Love Doodle

Mais Antonio Prata em > http://antonioprata.folha.blog.uol.com.br/

2 Comentários Deixe seu Comentário

  • penny • 24.02.2011 @ 19:31 responder

    *e foi falando sobre o tempo que conheci meu namorado (:

  • @gabrielkdt • 2.03.2011 @ 11:36 responder

    ótimo texto, é bem verdade e nunca tinha reparado…

Deixe seu comentário