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querida cat power

por   /  08/11/2012  /  15:10

Querida Cat Power,

Estou preocupada com você. Você não me conhece, mas eu acho que te conheço profundamente.

Primeiro por conta das suas músicas que eu tanto amo e com as quais tanto me identifico em diferentes momentos da vida. Segundo porque acompanho sua vida pelo Instagram. E terceiro porque li uma biografia sua; não autorizada, é verdade, mas uma jornalista não ia mentir do começo ao fim. Sei que você era apaixonada pelo seu pai, que era músico e não deixava você brincar no piano, sei que você tem medo de ter esquizofrenia, como sua mãe. Sei também que o que você mais queria na vida era um amor que transformasse essa coisa de ser cantora num hobby, numa atividade esporádica, enquanto você ficaria em casa entre afazeres domésticos, cuidando dos meninos que não iam parar de brincar.

Há uma semana, te vi ao vivo. Acho que pela quinta ou sexta vez. Te vi no Tim Festival, no interior de São Paulo, em umas duas casas de show por lá. Dessa vez foi em Nova York, a cidade pra qual você escreveu “Manhattan” e já antecipou o que vou ouvir depois de morar aqui, fazer amigos, conhecer cada pedacinho e perceber que tudo muda muito rapidamente.

A casa estava cheia, antes de você entrar um cara do Occupy Wall Street falou sobre como a gente deve parar de procurar um herói quando se olha no espelho. Bob Dylan te dava as boas vindas através da caixa de som. Você entrou com seu novo cabelo moicano, descolorido, calça preta, jaqueta azul marinho, botas e uma canequinha que parecia de chá. Sua voz estava meio rouca, de quem está gripada e toma xarope e remédio há uns dias. O cenário era lindo, tinha um pedaço de um triângulo que recebia diversas projeções, ora com imagens de crianças, ora com desertos, ora com explosão de cores.

Você tentava cantar. E quando conseguia era tão bonito! Mas na maior parte do tempo você parecia brigar com o som, com você mesma. É como se você tivesse fazendo MUITO esforço pra estar ali. Nos seus olhos, a tristeza era tão grande que fez a gente chorar junto. As revistas sabem ser uma chatice, e uma delas nos contou que o seu ex-namorado casou com uma modelo quatro meses depois que vocês terminaram. Ninguém se recupera disso rapidamente. E a impressão que dá é que você voltou a ser a Chan de antes do “Jukebox”, a Chan dos excessos (de droga, de bebida?), que sempre deixava o público sem saber se o show seria maravilhoso ou uma porcaria.

O seu foi maravilhoso e muito triste. Você tem uma força enorme e emociona a gente quando faz uma versão parecida com a do disco pra “Manhattan” e outra quase irreconhecível pra “I don’t blame you”. Você reclama do som, é como se quisesse a perfeição na hora de se mostrar, pra que ninguém veja que você está em pedaços. Dá medo, porque parece que a qualquer momento você pode deixar de conseguir cantar, de subir em um palco. E a gente não quer isso.

Por isso te escrevo essa carta, na esperança de que você encontre essas palavras bobas e pense no quanto tanta gente ama você nesse mundo. Fica boa, fica forte. Daqui a gente espera que esse amor chegue no seu coração e traga alegria e serenidade.

Se cuida, Chan, você é fantástica.

Um beijo,

Dani

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Escrevi essa carta depois de ver o show da Cat Power na última semana de outubro no Manhattan Center Hammerstein Ballroom, em Nova York.

A revista Noize publicou a carta. Vão lá ver! > http://noize.virgula.uol.com.br/carta-aberta-para-cat-power-enviada-por-daniela-arrais/

6 Comentários Deixe seu Comentário

  • Gabriela • 9.11.2012 @ 19:26 responder

    Estava neste mesmo show e achei que estava sozinha.
    Ainda bem que nao.
    Belo post.

  • Tati • 11.11.2012 @ 21:19 responder

    Como não sentir exatamente o que cada palavra transborda por aqui?! Lindíssimo!

  • Eliane • 28.11.2012 @ 22:14 responder

    Dani, fiquei emocionada com esse texto. Lindo!

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