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Rebu, um seriado sapatão no Instagram

por   /  30/08/2019  /  21:21

Sextou! Que tal maratonar um seriado sapatão? No Instagram? Segue a dica: “Rebu: egolombra de uma sapatão quase arrependida”, um seriado feito por Mayara Santana (@tretasan) e disponível no formato IGTV no perfil @rebu.doc. A jovem pernambucana de 27 anos resolveu mergulhar na história de seus relacionamentos amorosos quando percebeu que, mesmo sendo uma mulher negra, lésbica e ativista, ela tinha muito do seu pai, um homem hétero, branco, um tanto machista. “Entre tantos sentimentos, reflexões e sessões de terapia, cheguei à conclusão bem dura que eu reproduzia muitas práticas abusivas”, conta ela em entrevista ao blog.

Na série de seis episódios, Mayara relembra suas histórias, seus amores, conversa com o pai com uma sinceridade cortante – a mãe prefere não aparecer tanto, mas dá pra ouvir suas considerações. Tudo editado com fotos de infância e adolescência, da vida atual e da que já passou, um tanto de cultura pop, de “Chiquititas” a novela de Manoel Carlos, passando por Los Hermanos. A trilha sonora, aliás, é tão boa! Eu como nordestina chega sorrio ao entender tanto aquela mistura. 

Leia a seguir a entrevista que fiz com ela.

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– Como surgiu a ideia pro Rebu.doc? E como foi o processo entre ter a ideia e publicar a série? Os altos e baixos, as dúvidas… 

Faz um tempo que eu venho questionando e sendo questionada pelo modo que eu me relaciono nos meus namoros. Entre tantos sentimentos, reflexões e sessões de terapia, cheguei à conclusão bem dura que eu reproduzia muitas práticas abusivas. Esse entendimento da minha condição veio em conjunto com uma análise pesada do tanto que eu parecia com meu pai, e na minha cabeça eu não parava de perguntar: Como uma mulher de 27 e anos cheia de consciência de classe, cor e gênero pode muitas vezes se comportar como o homem, boleiro, hétero dos anos 70. A partir daí nasce a vontade de investigar essa história. A princípio eu tinha vontade de fazer um curta simples onde eu gravaria uma conversa com meu pai, mas durante uma cadeira na faculdade de dispositivos móveis veio a ideia dessa série, e em uma tarde eu rabisquei todos os episódios. Cerca de um mês depois comecei a gravar, fiz todo o processo técnico sozinha, mas o processo de concepção foi divido com muita gente, especialmente minha mãe, minhas duas maravilhosas últimas ex namoradas e minha atual namorada incrível, paciente e generosa, que me deixou embarcar tranquilamente nessa viagem que é se olhar no espelho e se expor. E, rapaz, eu juro que no começo eu não achava que fosse ter tantos altos e baixos, hehe, mas aconteceram uns BOs sim. Minha mãe depois que soube de toda repercussão ficou um tanto tensa com a minha exposição,  e do meu pai e por consequência dela, e me preocupa muito que qualquer ação minha traga qualquer questão pra essa maravilhosa. Também tive algumas questões quando pensei e fui “conduzida” a pensar se o que eu tava fazendo não era uma romantização dos meus atos. Isso fez com o que eu tivesse que refazer um dos episódios. Enfim, muitos altos e baixos, mas também muita satisfação com as trocas que ter puxado esse assunto trouxe.

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– E, principalmente, como foi ver a repercussão? Como foi encontrar tanta identificação ao postar sua série no Instagram?

Então, confesso que fiquei um pouco surpresa com a repercussão, até por que fiz a série bem sem pretensão, inclusive sem tanta elaboração técnica. Mas agora olhando o tanto de mensagem e compartilhamento que recebi é um pouco compreensível, a gente não tem tanto conteúdo sapatão sendo difundido. Acho que outro fator é o tema, que é o centro da série, que é debater o fato que eu me identifiquei com uma sapatão abusiva. Muitas das mensagens recebidas é sobre ter passado como vítima ou agente dessa violência em uma relacionamento com mulher. Além disso a linguagem que eu usei subverte um pouco a ideia do documentário clássico, o fato de ser curtinho e estar na palma da mão trás um respiro pra esse modo de consumir material audiovisual. Além da repercussão na internet, tem rolado umas interações bem engraçadas na rua, nos rolês que eu frequento. Fiquei de cara com uma amiga que disse que assistiu com a mãe evangélica e a mãe disse: nunca pensei que ia me emocionar com uma sapatão. Isso é muito massa hehe.

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– O público adorou, né? E quer mais. Quais são os próximos passos que você pretende dar?

Então, para o Rebu eu tenho duas ideias até agora. Eu estudo cinema e a gente costuma pensar muito em filme no formato pra festival. E eu acho massa. Então essa primeira temporada de Rebu provavelmente vai ganhar um corte de curta metragem, mas confesso que me atrai mais a ideia de chegar direto nas pessoas sem o filtro de um festival, fechado em sala debatendo o material. Depois de receber um monte de mensagens acredito que seria massa continuar esse debate, então meu outro plano pra o Rebu é uma segunda temporada, em que eu debata temas que me atravessam mas botando outras sapatões na roda.

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– Conta um pouco de você? Quem é, qual idade tem, o que estudou, como começou no cinema?

Tenho 27 anos, sou designer e videasta, atualmente trabalho como assessora parlamentar e comunicadora em um mandato de esquerda aqui no Recife, mas sigo trabalhando em projetos paralelos tanto em cinema quanto em design. Comecei a estudar cinema depois de um tempo de trabalho com design, onde eu vinha achando a linguagem estática do design meio frustrante para o que eu queria expressar e viver. Agora depois de um tempo em cinema fiz as pazes com o design e tenho tentando unir os dois, construir narrativas visuais e principalmente me divertir contanto e escutando histórias. 🙂

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– Como é ser uma mulher negra e lésbica vivendo no Recife?

Ao mesmo tempo que essas vivências se alinham elas tem suas divergências, dependendo do contexto. Confesso que no meu contexto ser uma mulher negra tem sido um caminho mais tortuoso, é preciso correr 5 vezes mais que toda e qualquer pessoa branca, é preciso viver um processo constante de fortalecimento da auto-estima, é preciso lidar com infinitos BOs dessa sociedade racista que fode nossa cabeça. É bem cansativo, imagino que aqui como em todo lugar. No meu contexto ser uma mulher lésbica, mesmo que com todas suas problemáticas, tem sido um processo mais fácil, já que minha família é bem incrível e me enche de amor, e os demais ambientes que convivo são de puro acolhimento. Mas claro que eu não posso marcar bobeira, ser essas duas mulheres é se resistir diariamente quando saímos dessa rede de proteção. Mas é isso, mesmo com suas infinitas tretas é compensado pelo orgulho.

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– Conta um pouco do que te inspira? Eu amei muito as músicas, que playlist! Onde você busca referências, identificação, quem são suas musas?

Muito engraçado tu falar da playlist, muita gente mandou mensagem falando dela, e eu sem entender por que hehe. A escolha das músicas foi a partir do que tava presente na série, que é uma mistura bem aleatória das coisas que eu gosto de escutar e que de alguma forma marcaram minha vida, mas também entendo que mais gente tenha curtido. Impossível não dar certo Alcione, Mastruz com Leite, Mr. Catra e Maria Bethânia no mesmo lugar, haha.

É sempre difícil a gente definir referências quando a gente tá o tempo inteiro consumindo e recebendo estímulos visuais por todo canto, mas eu cato muita referência nas ruas, adoro escutar toda e qualquer história da vida dos outros, na época do meu pai talvez fosse chamada fofoqueira, hehe. Tenho buscado muita referência e passado por um processo de formação bem pesado nos últimos anos através do rap, tanto de referência visual quanto de conteúdo. Além das coisas palpáveis têm as referências que mobilizam a gente pelo sentir. Acho que os momentos caóticos que o país vem vivendo nos últimos anos deixou a gente mais ligado na política, e ter achado certas inspirações nesse meio é de certa forma achar referências. Já que é pra falar de “musas”, hehe, quando eu escuto uma fala de Áurea Carolina (Dep. Federal MG), de Talíria Petrone (Dep. Federal RJ), de Mônica Francisco (Dep. Estadual RJ) me inspiram na hora a querer escrever e contar a minha própria história, ser dona da minha narrativa. É muita mulher maravilhosa, eu ainda botava aí nessa minha lista Ana Maria Gonçalves (leiam “Um defeito de cor”), minha mãe Zefa, Débora Britto, minha namorada (já era musa inspiradora jornalista antes disso, haha), e por favor incluir Alcione, haha.

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