Favoritos

receita de viver

por   /  31/08/2010  /  3:48

Receita de viver, por Carlinhos Oliveira

Para viver bem é preciso chegar aos 30 anos com a satisfação de se ter permitido todas as loucuras imagináveis na juventude. E só freqüentar os amigos que suportam os nossos defeitos.

Recomenda-se também uma boa gargalhada, à sós, no momento de se erguer da cama: “Quanta bobagem tenho feito neste mundo! Quá, quá, quá!” A serenidade imperturbável conduz ao fanatismo, e este dá câncer.

Nenhuma preocupação burguesa ou pequeno-burguesa, como por exemplo o medo de perder o emprego ou os bens; nenhuma ambição material, fora as indispensáveis (casa, comida, roupa lavada), ou então que seja gratuita: juntar dinheiro para algum dia comprar um iate ou passar dois anos zanzando pela Europa.

Nunca ferir uma mulher a ponto de fazer-se odiado por ela. O homem inteligente é o que sabe transformar antigos amores em sólidas amizades.

Estar sempre em condições morais de perder tudo e começar tudo outra vez. Interessar-se por tudo, principalmente por aquilo que não nos diz respeito. Amar apenas uma mulher de cada vez. Dizer sempre a verdade, seja qual for e doa a quem doer. Conhecer um por um os nossos defeitos, curar-se dos que não são naturais e cultivar aqueles que mais nos agradam.

Evitar ao máximo o paletó e a gravata, os chatos que falam no ouvido, as mulheres que resolvem tudo pelo telefone, os bêbados que mudam de personalidade quando lúcidos, os vizinhos muito prestativos e todo papo do qual participem mais de três pessoas.

Longa caminhada solitária pelo menos uma vez por semana. Não discutir preços — é melhor ir embora sem comprar. Não guardar ódios a ninguém. Dormir oito horas e, acordando, continuar na cama enquanto puder. Recusar-se terminantemente a beber uísque que não seja escocês legítimo, preferindo a cachaça como alternativa. (Isto vale apenas para quem gosta de beber e bebe freqüentemente, como é o caso do autor dessa receita. Neste caso, a aceitação de qualquer bebida é moralmente inquietante, pois atravessa a fronteira que separa o prazer do vício.)

Ser condescendente com o comportamento sexual dos outros. Tentar compreender cada pessoa, evitando julgá-la. Saber exatamente o momento em que os amigos gostariam de estar sós. Ter caráter bastante para reconhecer as qualidades positivas de um eventual inimigo. Treinar, como quem faz ginástica, para ser sinceramente modesto. Saber contar com irreverência histórias em que faz papel de bobo, e que tenham acontecido realmente.

Viver tão intensamente que possa dizer à morte, quando vier: “Já veio tarde.”

_________________________________________________________________________________________

Tô apaixonada pelas crônicas de Carlinhos Oliveira, em “O Homem na Varanda do Antonio’s”. É aquele tipo de leitura que faz a gente ter saudade do que nem viveu. É pura boemia carioca nos anos 1960 e 1970, com muita farra, muito uísque, muitos amores e desamores, tudo resolvido em mesa de bar…

Pra ilustrar, uma foto do Greekpunk

8 Comentários Deixe seu Comentário

  • Andréia • 31.08.2010 @ 10:33 responder

    ai, que eu sinto tanto essa saudade do que nem vivi! delícia de crônica; obrigada por compartilhar.
    um beijo

  • Caroline • 31.08.2010 @ 11:18 responder

    Ele lembra muito o Vinícius de Morais. Muito bom.

  • adriano • 31.08.2010 @ 12:26 responder

    Amém.

  • Ricardo • 31.08.2010 @ 13:50 responder

    Perfeito ! parabéns pela curadoria, adoro vir aqui ser surpreendido por todas as formas de arte que invadem o Don’t Touch. Bjs cariocas com gosto de bomba de chocolate da Colombo.

  • laura • 1.09.2010 @ 00:58 responder

    bonito… estava um pouco desolada, achando que so eu pensava assim.
    :)

  • Cacau • 1.09.2010 @ 21:24 responder

    hummmm… mesmo, muito bom. anotado, chefe!

Deixe seu comentário