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é como tirar os rollers depois de andar um bocado

por   /  06/09/2009  /  19:25

sinuca

ruivo, cabeludo, corpulento (pra não dizer gordinho), com aquele short cotton com a estampa da bandeira dos estados unidos, axl rose se esguelava para minha satisfação infantil. era o começo dos discos de rock na minha coleção. finzinho dos anos 80, começo dos 90. e eu pegava carona nos vinis e cds do guns’n’roses que meu irmão exibia com orgulho, até trocá-los pelos de música erudita. eu gostava mais ainda das baladinhas, que falavam com antecedência daqueles amores que um dia eu viveria.

antônia, personagem principal de “sinuca embaixo d’água”, de carol bensimon, era fã de guns’n’roses _e só isso bastaria para que eu adorasse o livro, por essa identificação com uma coisa tão minha.

“eu olhava para a janela do meu quarto e via a luz da tevê, apenas a luz azul, e então sabia que antônia estava sentada no chão com as costas apoiadas na minha cama e vendo axl rose cantar em tóquio, e quando eu chegasse ele já teria trocado de figurino umas quarenta vezes, que era o número de vezes que ele trocava durante todo o show multiplicado pelo número de vzes que antônia assistira às duas fitas naquela noite. ele poderia estar com o short da bandeira americana agora. poderia estar cantando november rain no piano. poderia estar na parte em que veste a camiseta com jesus cristo, e minha irmã imitaria os seus gestos sobre a cama. quando eu entrasse em casa, eu ia perguntar o que ela queria ser quando crescesse, e antônia queria ser tanta coisa que jamais conseguia se decidir”.

mas “sinuca” é muito mais que guns’n’roses. é uma história sobre amor e perda. a partir da morte de antônia, sete personagens, como o irmão e o amigo apaixonado, tentam lidar com as lembranças da garota tão bonita e cheia de vida e com a ausência que sua morte em um acidente de carro faz questão de preencher. forte e delicado, o livro é um daqueles que você quer ler rapidamente enquanto tenta, ao máximo, prolongar a passagem das páginas.

desde que li “pó de parede”, o primeiro livro de carol, me surpreendi com a capacidade que ela tem de construir personagens. ela não precisa de descrições complexas nem de fichas completas pra fazer a gente entender a sutiliza de cada um. é tudo discreto e certeiro. quando li o primeiro, pensei: isso tudo poderia, facilmente, virar um filme. ou um seriado protagonizado por adolescentes e pós-adolescentes que passam por alguns dos mais importantes acontecimentos da vida.

depois de terminar “sinuca”, pensei a mesma coisa. e ainda fiquei com vontade de ler uma continuação. e quando um livro faz isso com a gente, é porque a leitura é mais que obrigatória   =)

* “sinuca embaixo d’água” será lançado em são paulo na terça-feira, às 19h, na livraria saraiva do pátio higienópolis

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