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som, fúria e obsessão

por   /  03/02/2011  /  10:25

“Cisne Negro” é um dos melhores e mais pertubadores filmes recentes. Até gosto de “A rede social”, mas não entendo porque tanto barulho da Academia quando se tem uma obra-prima dessas nas mãos! Carol Almeida escreveu o melhor texto sobre o filme, para o portal Terra. Leiam!

“Cisne Negro” é a obra-prima de Aronofsky feita de som e fúria, por Carol Almeida

Contrariando as angústias de Narciso, Nina não acha feio o que não é espelho. Ela acha o que sempre teve medo de procurar. E isso não é feio, mas sim assustador. Pois que o espelho, não sabe a protagonista, é essa armadilha que tranca a imagem de quem você acha que é. E mais perigoso ainda, de quem acha que pode ser. É na poesia visual desses reflexos, projeções de nossas ideias e medos sobre nós mesmos, que Darren Aronofsky dirige Cisne Negro, filme que é desde já sua grande obra-prima, personificada na atriz que nos intimida tamanha a imersão na personagem. Natalie Portman, favoritíssima a levar o Oscar de Melhor Atriz este ano, abdica de seu corpo, sua voz, seus olhos e qualquer vestígio dela mesma para se dar por inteiro aos reflexos quebrados de Nina, a bailarina cuja tensão psicológica é capaz de explodir sua cabeça para balés nunca dantes coreografados no cinema.

Cisne Negro, indicado para cinco categorias no Oscar deste ano (incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor) não é exatamente um filme, stricto sensu. É sobretudo um grande espetáculo, de balé, de cinema e de poesia. Desses que, a cada sessão, merecia ser aberto e fechado com uma pesada cortina de veludo vermelho. O que Aronofsky faz é, na verdade, uma interpretação multidimensional do próprio Lago dos Cisnes, o épico balé de Tchaikovsky. Estamos falando de uma história sobre como, assim como a princesa presa no corpo de um cisne, nos enfeitiçamos facilmente com a fantasia que costuramos para vestir diante dos outros.

Nina, a bailarina que busca descontroladamente a perfeição do movimento, encontra a sua chance de provar a todos do que é capaz quando a prima ballerina da companhia, vivida por uma Winona Ryder ironicamente decadente, é forçada a sair de cena. Mas para ser a “cisne rainha”, Nina precisa provar que é capaz não apenas de interpretar a contida e delicada Cisne Branca, como também pode lidar com a tempestividade e sexualidade da Cisne Negra.

Thomas, o coreógrafo e diretor da companhia vivido por um ator – Vincent Cassel – reconhecido por atuações extremamente físicas, está ali para beijar uma face de Nina e estapear a outra. À medida que reconhece seu talento para a Cisne Branca, ele vocifera contra a repressão emocional e sexual da bailarina que recusa a achar na perfeição os elementos do imponderável.

Aronofsky, um diretor cheio de altos e baixos no cinema, atinge aqui uma maturidade que longe de ser exclusivamente fílmica, é antes de tudo cênica. Enche todos os cenários dos já citados espelhos, esse elemento que é tão fundamental para o balé quanto para um filme de terror. Nos reflexos, o filme vai se construindo como um quebra-cabeças entre o ego, o id e o super-ego da protagonista, alguém que sofre de uma aguda crise com sua própria identidade e por isso mesmo, enxerga nos espelhos algo que vai muito além de uma imagem. Nesses momentos, sentimos por diversas vezes a vertigem de ver uma Natalie Portman tão absorta nesse figura despedaçada.

No entorno desse horror psicológico, Nina ainda precisa conviver com a mãe frustrada e com uma bailarina que parece incorporar toda a extroversão e sensualidade que a falta. Em ambas, ela encontra as personas que, de uma maneira estranha, parecem pertencer a ela própria. A mãe é uma mulher que vive com o fardo de ter abdicado da carreira de bailarina – que nunca teve – em nome da filha. Interpretada por uma Barbara Hershey com densidade para essa amargura, a personagem é um dos vários enigmas morais do filme – inveja ou admiração? ódio ou afeto? – reforçando a teoria de que para cada objeto, o sujeito cria olhares distintos que, sim, podem mudar o curso de como formamos nossas ideias.

Quanto à bailarina que logo se projeta como a rival de Nina, esta é ainda mais latente em sua projeção da imagem invertida. Lily é uma Mila Kunis tal qual a mesma Mila Kunis aparenta ser (ou como nos acostumamos a vê-la): sem correntes presas aos pés ou espelhos amarrando seus movimentos. Leve e sexy, ela sabe usar o perigo de seu corpo como virtude. Em outras palavras, ela é a fúria que move a espinha dorsal da Cisne Negra. E sem a fúria de Lily, Nina não consegue voar.

Com esses personagens, o filme vai sendo dirigido tal qual uma sinfonia que aos poucos cresce seu volume, acrescentando um instrumento de cada vez para, em desfecho, apresentar a orquestra completa de sensações e, novamente eles, reflexos. Cisne Negro, enfim, reforça aquela teoria de Lacan de que, para entender a dimensão mais ampla de nossa realidade, precisamos atravessar, tal qual uma bailarina que salta no ar, o excesso de nossas fantasias.


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8 Comentários Deixe seu Comentário

  • Paula Laffront • 3.02.2011 @ 12:58 responder

    Lindo o texto Estou louca para ver este filme e agora fiquei ainda com mais vontade. Parabéns pelo post e pelo blog todo, adoro!

  • marcelo castro • 7.02.2011 @ 16:14 responder

    na boa: achei o filme uma bela bosta !

  • Juli • 9.02.2011 @ 15:09 responder

    Marcelo, por que vc achou o filme uma bela bosta?

  • Ludmila • 10.02.2011 @ 23:06 responder

    excelente!

  • Júlio • 15.02.2011 @ 20:44 responder

    A intepretação de Natalie Portman é boa, mas é exagerada. Ela parece que vai chorar ou surtar em praticamente todas as cenas do filme. É muito mais fácil ser valorizado com esse tipo de personagem semiesquizofrênico do que saber equilibrar as sutilezas de uma pessoa mais normal. É uma atuação histérica, como o próprio filme (que pode ser considerado uma narrativa em primeira pessoa, pois transmite o ponto de vista paranoico e extremamente moralista dela), que coloca uma música cheia de culpa e terror na cena em que a amiga simplesmente faz um carinho no meio de suas pernas.

  • severino orelly souz • 16.02.2011 @ 09:30 responder

    Juli, o Marcelo achou o filme uma bosta porque é apenas isto que ele tem na cabeça. Marcelo camarão.

  • Giltes • 17.02.2011 @ 15:34 responder

    O filme ” O Cisne Negro” une a bela música aos movimentos suaves e poderosos da dança. Quanto a loucura, faz parte do mundo e quem deseja perfeição obssecivamente, acaba enlouquecendo.

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