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aprendendo a conviver com a saudade

por   /  03/02/2010  /  12:19

Eu era um sujeito então perseguido pelas nostalgias. Sempre tinha sido, e não sabia como me livrar da saudade para viver tranqüilamente.

Ainda não aprendi. E desconfio que nunca vou aprender. Mas pelo menos já sei uma coisa valiosa: é impossível se livrar da memória. Você não pode se livrar daquilo que amou.

Isso tudo vai estar sempre com a gente. Sempre vamos desejar recuperar o lado bom da vida e esquecer e desnutrir a memória do lado mau. Apagar as perversidades que cometemos, desfazer as lembranças das pessoas que nos magoaram, eliminar as tristezas e as épocas de infelicidade.

É totalmente humano, então, ser um nostálgico, e a única solução é aprender a conviver com a saudade. Talvez, para a nossa sorte, a saudade possa se transformar, de uma coisa depressiva e triste, numa pequena faísca que nos impulsione para o novo, para nos entregar a outro amor, a outra cidade, a outro tempo, que talvez seja melhor ou pior, não importa, mas será diferente. E isso é o que todos procuramos todo dia: não desperdiçar a vida na solidão, encontrar alguém, entregar-nos um pouco, evitar a rotina, desfrutar a nossa parte da festa.

Eu ainda estava assim. Tirando todas essas conclusões. A loucura me rondava e eu escapulia. Tinha sido coisa demais em muito pouco tempo para uma pessoa só, e saí por dois meses de Havana.

Pedro Juan Gutiérrez, minha mais nova paixão, em “Trilogia Suja de Havana”

* a foto é de jaime m

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rip salinger

por   /  01/02/2010  /  22:03

eu li “o apanhador no campo de centeio” no fim da adolescência, com toda aquela pressão que a gente sente quando começa a ler um livro de que todo mundo fala maravilhosamente bem. gostei muito do livro, mas precisei ler “franny e zooey” para entender a genialidade de salinger. “um dia perfeito para os peixes-banana”, incluído em “nove estórias”, também contribuiu para a impressão.

engraçado que, há uns anos, era bem difícil encontrar livros do salinger nas livrarias _vai ver que só em recife. mas lembro do quanto fiquei feliz quando minha tia chegou com uma caixinha com a trilogia de j.d, da editora do autor. os livros acabaram por entrar na lista de leitura imediata, logo pra mim que tinha (e ainda tenho) o hábito de comprar e até ganhar livros numa proporção meio incompatível com a velocidade de leitura.

fui ali pegar os livros. só consigo ler com um lápis na mão e adoro voltar às páginas para saber o que era importante na época em que li. abri o “nove estórias” aleatoriamente e encontrei, em ” a fase azul de daumier-smith”, o seguinte:

(…) Se até o momento você não respondeu a minha carta, então é melhor que não o diga mesmo. Talvez me tenha enganado e, a esta altura da minha vida, não desejo expor-me deliberadamente a uma desilusão. Prefiro continuar no escuro.

tão atual no começo quanto no fim da década pra mim  =)

a esquire é de 1997

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processo de aceitação

por   /  01/02/2010  /  21:50

Hoje era o dia 0 da nossa existência. O dia em que os problemas se resolveriam e tudo ficaria bem. Como diz a minha mãe: demasiadas expectativas. Tenho de aprender a aceitar as coisas, a deixar ir, a desligar. A aceitar. Aceitar é ser crescido. É aprender. Eu aprendo depressa, se a disciplina não for matemática. Passei o dia a ouvir outras pessoas, outros dramas. Há quem viva mal e seja infeliz; há quem não tenha solução. Eu tenho. Resta saber esperar por ela.

Patrícia Reis

* o desenho é de sarah mcneil

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a pré-saudade

por   /  01/02/2010  /  21:42

a leda foi embora e ficou, logo no primeiro dia, a presença física da ausência dela. dá para sentir melhor o tamanho pequeno, a ocupação no espaço, os barulhinhos dos passos na escada, a chegada dela na cama para se aninhar ao meu lado. ouço todo o silêncio dela e ele ocupa alguns lugares marcados. um dia é como um selo estampado de uma nostalgia que ainda virá. a experiência prévia de uma saudade que ainda não deu tempo de chegar, mas que eu vejo caminhando lá longe, no horizonte, em minha direção.

selo, por noemi jaffe

* a foto é de ana cabaleiro

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silêncio

por   /  19/01/2010  /  23:44

Não era desconfiança nem falta de companheirismo nem vontade de esconder. Era simplesmente instalar-se na convicção ou na superstição de que não existe o que não se diz. E é verdade que somente o que não se diz nem se exprime é o que nunca traduzimos.

Javier Marías, em “Coração tão branco”

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ciclos

por   /  14/01/2010  /  10:45

No amor e no trabalho, acreditamos estar no reino das novidades, quando, na verdade, seja na cama seja no escritório, somos apenas épocas que se sucedem umas às outras.

Martin Page, em “A gente se acostuma com o fim do mundo”

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receita pré-ano novo

por   /  26/12/2009  /  14:13

Logo para começar, a melhor coisa a fazer é varrer toda essa raiva da frente.

A raiva do semelhante, do distinto, do consorte, de nós mesmos. A raiva dos mais queridos, dos desafetos, dos inimigos, dos cretinos, dos boçais, dos corrompidos, dos coitados. Do destino. Do passado. Do presente. Do ausente. Da falta de sorte, da falta de tempo, da falta de estímulo, da falta de grana. Do desgraçado do chefe, do empregado, do salário, da injustiça. Do revés, do obstáculo. Da inércia. Da ausência de horizontes. A raiva do amor. Da falta do amor. Do desgosto. A raiva do mundo inteiro. E ainda a raiva da raiva, coitada, que não tem culpa de nada, só pratica seu ofício, é apenas sentimento. É bom espanar com vigor a raiva que pulsa, sobe, explode e vinga. Então, dá-se uma varredura geral naquelas guardadas, cultivadas, conservadas ou escondidas embaixo de algum tapete.

Dito que a raiva cega, assim que ela é afastada pode-se então enxergar mais fundo.

É hora de vasculhar as mágoas.

Certamente se encontrarão antiguidades. As mágoas de infância, mesmo as motivadas por tolices, são as mais enraizadas. Arranca-se tudo. Em seguida aparecem as apaixonadas, dos tempos de juventude: invejas, ciúmes, traições, feridas mal cicatrizadas, tudo muito exagerado. Estas têm uma vantagem: muitas são vindas de êxtases, big-bangs adolescentes, foram devidamente expelidas desde quando apareceram, portanto já se desagregaram da alma. O que sobrou é fragmento. Pouco. Resto. Mas as mágoas mais recentes, as que permanecem alertas e continuam se alastrando, são veneno. Contaminam. Por isso é tão necessário que sejam remexidas com toda cautela possível. Depois de identificadas, todas as mágoas, sem exceção, devem ser exterminadas. Recomenda-se muito fogo para reduzir a cinzas tudo que indevidamente ficou lá atrás, encarcerado.

Adriana Falcão em Dia de faxina (cliquem para ler o texto completo)

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então é natal

por   /  18/12/2009  /  12:03

Natal anuncia que a vida é uma viagem, não só porque estaríamos em trânsito para outro lugar onde seremos recompensados ou punidos para sempre, mas porque somos todos, como o recém-nascido da festa, viajantes: ninguém vale pela sua ascendência, pelo lugar onde nasceu ou pela tradição a qual ele pertence, mas cada um vale pelo que ele conseguirá fazer com sua vida.

Contardo Calligaris em Salas de passos perdidos

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