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Posts da tag "literatura"

desencontro

por   /  13/12/2009  /  19:20

O que aumenta a penumbra é que incrivelmente nunca mais encontraremos nosso par, apesar de viver na mesma cidade, frequentar o mesmo bairro, dividir gostos semelhantes. Nenhum esbarrão no mercado ou no banco. Os amigos em comum apagam as pistas. Não dá para compreender se mudamos os hábitos ou os hábitos não nos pertenciam mesmo e queríamos agradar pensando que eram nossos.

Fabrício Carpinejar em Depois de Tanto Tempo

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o mundo dos que olham e não vêem

por   /  30/11/2009  /  12:00

El mundo está lleno de gente ciega. Gente que mira sin mirar. Voltean y posan sus ojos sobre ti pero no te ven. Se quedan ahí, pensando en otra cosa o no pensando nada. Con los ojos dirigidos hacia ti, completamente vacíos, muertos. Esa gente dejó de ver hace mucho tiempo. Y realmente no les interesa volver a hacerlo. Estoy convencida que ni siquiera lo notan. Van como autómatas ciegos y sordos. Vacíos por dentro. Llenos de órganos y sangre y huesos pero vacíos. Ven pero no miran. Oyen pero no escuchan. Comen sólo para seguir con sus vidas planas haciendo lo mismo un día tras otro, un minuto tras otro. Comen para cagar. Para comer otra vez. Y no piensan ni sienten ni les interesa comenzar a hacerlo. La superficialidad ha alcanzado un nuevo nivel. Son todos cascarones ambulantes. Cascarones huecos, o en el mejor de los casos, de huevos podridos.
Cuando algo lindo pasa no lo registran. Cuando alguien dice algo valioso no significa nada.
Tan mecánicos. Tan poco humanos.
Tengo tantas ganas de ver los colores, de oír cada nota, de cambiarme de planeta.
por carolina, do esto no es un blog
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golpe de ar

por   /  30/11/2009  /  0:20

Você senta para ler o jornal e come medialunas. Você está sozinho porque não sente necessidade de dividir esse momento com ninguém. Você pensa em todo mundo que faz parte da sua vida e nos que deixaram de fazer, e entende que ainda falta encontrar tantas pessoas e que você também vai se afastar por conta própria de muitas delas, porque é assim que as coisas são e não há nada de mau nisso, pelo contrário, você está contente de ter descoberto as regras do jogo e não se sente tão especial.

Fabrício Corsaletti em “Golpe de Ar” _aliás, leiam esse livro! sabe aquela alegria que você sente quando está com um determinado livro nas mãos? o primeiro romance do corsaletti tem essa capacidade de deixar a gente com um sorriso (muitas vezes melancólico) no rosto =)

maira busca felicidade

por   /  21/11/2009  /  2:02

imagina se você olhasse para os melhores momentos do seu dia e os transformasse em desenhos e pinturas? e conseguisse denominar tudo da melhor maneira?  maira kalman faz isso com um talento impressionante.

conheci a autora, ilustradora e designer pelo livro “the principles of uncertainty”, que é um daqueles que você devora com os olhos e com o coração.

e o bom é que, finda a leitura, você consegue continuar acompanhando o olhar de maira, porque ela mantém um blog no “new york times”.

façam seus dias mais felizes: and the pursuit of happiness

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é como tirar os rollers depois de andar um bocado

por   /  06/09/2009  /  19:25

sinuca

ruivo, cabeludo, corpulento (pra não dizer gordinho), com aquele short cotton com a estampa da bandeira dos estados unidos, axl rose se esguelava para minha satisfação infantil. era o começo dos discos de rock na minha coleção. finzinho dos anos 80, começo dos 90. e eu pegava carona nos vinis e cds do guns’n'roses que meu irmão exibia com orgulho, até trocá-los pelos de música erudita. eu gostava mais ainda das baladinhas, que falavam com antecedência daqueles amores que um dia eu viveria.

antônia, personagem principal de “sinuca embaixo d’água”, de carol bensimon, era fã de guns’n'roses _e só isso bastaria para que eu adorasse o livro, por essa identificação com uma coisa tão minha.

“eu olhava para a janela do meu quarto e via a luz da tevê, apenas a luz azul, e então sabia que antônia estava sentada no chão com as costas apoiadas na minha cama e vendo axl rose cantar em tóquio, e quando eu chegasse ele já teria trocado de figurino umas quarenta vezes, que era o número de vezes que ele trocava durante todo o show multiplicado pelo número de vzes que antônia assistira às duas fitas naquela noite. ele poderia estar com o short da bandeira americana agora. poderia estar cantando november rain no piano. poderia estar na parte em que veste a camiseta com jesus cristo, e minha irmã imitaria os seus gestos sobre a cama. quando eu entrasse em casa, eu ia perguntar o que ela queria ser quando crescesse, e antônia queria ser tanta coisa que jamais conseguia se decidir”.

mas “sinuca” é muito mais que guns’n'roses. é uma história sobre amor e perda. a partir da morte de antônia, sete personagens, como o irmão e o amigo apaixonado, tentam lidar com as lembranças da garota tão bonita e cheia de vida e com a ausência que sua morte em um acidente de carro faz questão de preencher. forte e delicado, o livro é um daqueles que você quer ler rapidamente enquanto tenta, ao máximo, prolongar a passagem das páginas.

desde que li “pó de parede”, o primeiro livro de carol, me surpreendi com a capacidade que ela tem de construir personagens. ela não precisa de descrições complexas nem de fichas completas pra fazer a gente entender a sutiliza de cada um. é tudo discreto e certeiro. quando li o primeiro, pensei: isso tudo poderia, facilmente, virar um filme. ou um seriado protagonizado por adolescentes e pós-adolescentes que passam por alguns dos mais importantes acontecimentos da vida.

depois de terminar “sinuca”, pensei a mesma coisa. e ainda fiquei com vontade de ler uma continuação. e quando um livro faz isso com a gente, é porque a leitura é mais que obrigatória   =)

* “sinuca embaixo d’água” será lançado em são paulo na terça-feira, às 19h, na livraria saraiva do pátio higienópolis

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felicidade surpresa

por   /  25/08/2009  /  2:56

faff

faff2

se hoje eu tivesse que escolher imagens para traduzir o que é bliss, escolheria essas duas aí acima, feita por felicia labor. bliss é aquela felicidade que vem quando a gente menos espera. chega assim, de repente, e invade a gente de uma alegria que não depende de motivos, de circunstâncias, muito menos de recompensas. é um momento mágico, no sentido mais hippie da palavra. e é, no fundo, tudo o que a gente passa a vida procurando, pra poder escrever no epitáfio: “foi feliz e soube muito bem disso”.

incorporei essa à palavra à minha vida depois de ler “bliss”, de katherine mansfield. vocês têm que ler esse conto:

Altough Bertha Young was thirty she still had moments like this when she wanted to run instead of walk, to take dancing steps on and off the pavement, to bowl a hoop, to throw something up in the air and catch it again, or to stand still and laugh at–nothing–at nothing, simply.

What can you do if you are thirty and, turning the corner of your own street, you are overcome, suddenly by a feeling of bliss–absolute bliss!–as though you’d suddenly swallowed a bright piece of that late afternoon sun and it burned in your bosom, sending out a little shower of sparks into every particle, into every finger and toe? . . .

Oh, is there no way you can express it without being “drunk and disorderly” ? How idiotic civilisation is! Why be given a body if you have to keep it shut up in a case like a rare, rare fiddle?

“No, that about the fiddle is not quite what I mean,” she thought, running up the steps and feeling in her bag for the key–she’d forgotten it, as usual–and rattling the letter-box. “It’s not what I mean, because–Thank you, Mary”–she went into the hall. “Is nurse back?”

“Yes, M’m.”

“And has the fruit come?”

“Yes, M’m. Everything’s come.”

“Bring the fruit up to the dining-room, will you? I’ll arrange it before I go upstairs.”

It was dusky in the dining-room and quite chilly. But all the same Bertha threw off her coat; she could not bear the tight clasp of it another moment, and the cold air fell on her arms.

But in her bosom there was still that bright glowing place–that shower of little sparks coming from it. It was almost unbearable. She hardly dared to breathe for fear of fanning it higher, and yet she breathed deeply, deeply. She hardly dared to look into the cold mirror–but she did look, and it gave her back a woman, radiant, with smiling, trembling lips, with big, dark eyes and an air of listening, waiting for something . . . divine to happen . . . that she knew must happen . . . infallibly.

para continuar a leitura em inglês, clica aqui

para ler em português, aqui

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a memória é um pesadelo

por   /  09/08/2009  /  2:11

Não, a memória não é nada disso. Acho que ela parece mais um oceano agitado por ondas aleatórias de angústia e dor a encobrir imagens perturbadoras em fuga através de fronteiras imprecisas nos substratos mais profundos da mente humana, como no “Império dos Sonhos”, do Lynch. É isso: a memória é um pesadelo fílmico do David Lynch. Não é à toa que ela vem com um dispositivo autolimpante – o esquecimento.

Reinaldo Moraes em “Pornopopéia”, meu livro preferido de 2009 até agora

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