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que poeira leve

por   /  28/04/2010  /  10:22

Tom Zé faz músicas que estão entre as mais perfeitas do mundo. “Solidão” é uma delas. E meu querido amigo Evan encontrou a explicação do próprio Tom para a canção. Para ler enquanto se ouve no repeat…

Quando fala “no meu descompasso o riso dela”, falta um tempo no compasso. O samba é em 2/4 e ali na palavra descompasso tem um compasso em 1/4 – sem o tempo fraco, dois tempos fortes sucessivos. No “telefon…”, a letra é suprimida pra a pessoa imaginativamente ouvir se o telefone está chamando ou não.

Porque quando a pessoa está sozinha, o telefone chamando é uma esperança. Não é uma recorrência – você fala “o telefon…”, aí quando toca o telefone você pára pra ver se está tocando mesmo? A intenção era essa, o que tento fazer lá é que você veja o quadro de uma pessoa que faz isso.

O Adolphe Appia, que no princípio do século foi o primeiro teórico das artes, dessa parte das artes, disse que as artes plásticas são artes espaciais – você vê tudo num instante -, as artes do discurso e da música são artes temporais – precisam de um espaço de tempo -, e o teatro é uma arte espaço-temporal – porque depende também do gesto do ator, enquanto o discurso, que é o texto, está sendo apresentado.

Solidão” foi o momento em que tentei botar o espaco dentro do tempo. É ótimo você botar pequenos segredinhos mais cabalísticos, mais esotéricos como esses, ou mais simples, como tantos outros, pra pessoa do outro lado descobrir, ver que tem lógica.

A foto é de Reinaldo Canato


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