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“Treta”, um disco de Marcia Castro para o corpo – e a pista

por   /  13/11/2017  /  15:15

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Gosto de pensar na importância da gente construir um repertório de pista baseado em músicas novas – e não só nas maravilhosas que nos acompanham há 10, 30, 40 anos (como “Cartaz”, de Fagner, “Todo dia era dia de índio”, de Baby do Brasil, e todas aquelas que recheiam o som nas festas de música brasileira, sabe?). Então gosto quando artistas de hoje se propõem a criar músicas pra gente dançar – e suar, colocar o corpo em movimento.

Ao ouvir “Treta”, da Marcia Castro, pensei nisso. Que bom! Foi então que deu vontade de fazer mais uma dessas entrevistas longas, em que a gente tenta conhecer mais da artista, sabe? Espero que gostem!

Pedi playlist pra ela também. Tá uma delícia, ouçam!

#asmúsicasdeamor + #trilhadonttouch

– Depois de ouvir “Treta” pela primeira vez, pensei: a Márcia Castro quer ser a Anitta, e isso é maravilhoso! Como se deu essa mudança de sair de uma carreira na MPB para algo tão sexy e pop?

Quando comecei a produzir esse trabalho, não tinha idéia onde isso daria, estética e pessoalmente. A única coisa que sabia era que queria produzir um som eletrônico, eu queria dançar com o meu som. Há alguns anos eu vinha fazendo em Salvador um projeto de verão chamado Pipoca Moderna, onde aconteciam encontros bem alegres entre diversos artistas da música brasileira, como Otto, Caetano, Gil Zeca Baleiro etc. Sentia falta de uma música minha que representasse esse espírito de celebração, de dança. Daí vi que fazer um som eletrônico dançante poderia ser um desafio muito enriquecedor para mim, para minha carreira, para esse desejo. Convidei o Rafa Dias (DJ e produtor baiano) para iniciar esse processo comigo, mergulhei no eletrônico de cabeça, nas referências que vinham a partir de Rafa, que já tinha ali um filtro do que poderia me interessar mais, pois o mundo eletrônico é muito vasto. Foi um ano inteiro de processo, desde começar a finalizar o vídeo. E muitas tretas e mudanças pelo meio do caminho. O que se revelou foi a vontade de produzir um som mais pop, que se comunicasse diretamente com as pessoas, e com muitas pessoas. As letras, melodias, os timbres, tudo isso foi definido por esse desejo. E tom sexy se estabeleceu por conta de minha vida pessoal, de novas experiências com o meu corpo. Tudo acontecendo enquanto eu fazia o disco. A música revelou minha vida.

– O disco marca uma fase de transformação na sua vida. Conta sobre ela?

Eu era casada por 9 anos. Em 2016, meu casamento chegou ao fim, me apaixonei por uma pessoa. Tudo que era estável e encaixado em minha vida se estremeceu. Perdi meus lugares de permanência, lugares afetivos, sociais…. Em contrapartida, conquistei novas experiências que só são possíveis a partir do furacão de uma paixão. Todo esse território de instabilidade e novidade foi fundamental para me fazer nessa nova etapa. Não foi fácil, porque a crise estava ali, com todo sofrimento que acompanha toda crise, e em meio a isso havia a responsabilidade de colocar um trabalho novo no universo. Chegado ao fim, parece que você viveu uma longa ressaca. E depois o alívio de ter sobrevivido e construído coisas tão importantes, como esse disco.

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– O disco é do corpo, da pista, cama. O corpo é quase um instrumento nele. Faz sentido?

Faz todo sentido. Há alguns anos comecei a me relacionar de um jeito novo com meu corpo. Mudei minha alimentação, comecei a fazer exercícios intensos regularmente, acendi uma vaidade que estava escondida. Daí o corpo acendeu junto. E foi acendendo faíscas, contaminando quem estava ao redor. E tudo foi acontecendo….

– O que um casamento duradouro trouxe de aprendizados? E para o que uma nova paixão te despertou?

Meu casamento foi longo, 9 anos de relação. São muitos aprendizados. O maior talvez se refere a alteridade. Você perceber o outro a partir dele, ser generoso, saber ceder, saber dividir. Nenhum relacionamento dura tanto tempo de um modo saudável se você não consegue desenvolver esses sentimentos numa relação. Amadureci muito nesse período, como se estivesse mais preparada hoje para viver comigo, dentro e fora de uma relação. A paixão, por outro lado, lhe faz descobrir a intensidade dos desejos, a urgência dos sentimentos, o carnal, o sexo, o frescor da admiração, coisas que, se você não cuida numa relação, vão se perdendo e minando esse território estável. É necessário a gente estar sempre atento para manter a faísca da paixão acesa numa relação. Isso é possível.

– De quem você se cercou para fazer o disco? Não só os compositores e produtores (quero saber dessas escolhas), mas também o que foi referência pra você durante o processo?

Musicalmente, me cerquei de poucas pessoas, porque o trabalho eletrônico é mais enxuto, são menos profissionais necessários para fazer a coisa andar. Iniciei o processo com o baiano Rafa Dias, que foi fundamental para me lançar na história eletrônica. Tínhamos imersões mensais no trampo, aprendi muito nessa fase inicial. Depois, Marcos Vaz se juntou ao trabalho trazendo novas referências e muita experiência, pois há muitos anos ele desenvolve uma pesquisa nesse território eletrônico. Os compositores Ozz, Raoni, Luciano Salvador Bahia, Jurema Paes, Ava Rocha, que conversaram comigo no processo e enviaram músicas e versos a partir dessa minha demanda. Os músicos baianos Juninho Costa (guitarrista), Chibatinha (guitarrista) e Gustavo DiDalva (percussionista) foram precisos para pontuar definitivamente o jeito do som. Por fim, a contribuição do francês Mr. Gib, que mixou o trabalho, foi essencial para chegarmos no resultado de som que desejamos no início. Além dessas pessoas que trabalharam diretamente na música, teve o incentivo absoluto do DJ Zé Pedro, dono do selo Jóia Moderna, que lançou o trabalho. Teve a contribuição valiosa e generosa do diretor criativo Giovanni Bianco, que realizou toda concepção gráfica do trabalho. Enfim, me considero sortuda por ter encontrado a mão de cada uma dessas pessoas disponível para somar ao trabalho. E de referências, no inicio ouvia muito o Stromae, o Buraka, a MIA, Bomba Stereo, Die Antwoord.. Depois comecei a ouvir o pop de Beyonce, Timberland, Rihanna, Drake, Kanye West, Kendrick Lamar… Depois, ouvi muito funk….. E por aí vai…..

– Aliás, o que te formou musicalmente?

Minha formação musical primeira está ligada à música brasileira e ao jazz por conta do meu pai, que me dava todas essas referências para eu escutar. De Elis Regina, passando por Caetano, Tom Jobim e indo até Billie Holiday, Chet Baker etc. Mas eu sempre absorvi muita coisa. Tudo que me soa novo, eu experimento. E daí, acabo absorvendo muita coisa. Não existe um estilo que eu não escute. Talvez, o pagode paulista seja a coisa mais distante de mim. No mais, ouço e acompanho quase tudo. Sou curiosa.

– O que te inspira a compor?

Minha vida, minhas experiências pessoais. Aí mora toda minha inspiração.

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– Conta brevemente sua trajetória?

Comecei a cantar profissionalmente aos 16 anos, em bares de Salvador. Fiquei fazendo isso por uns cinco anos. Eu tinha meu próprio equipamento de som, fazia eventos, comecei a ganhar meus primeiros cachês assim, mas já estava enfadada de fazer barzinho, eu sentia e sabia que tinha minha mensagem para reverberar por aí. Foi então que conquistei o Prêmio Braskem de Cultura e Arte para gravar o meu primeiro disco, “Pecadinho”. Com ele, me mudei para São Paulo, pois sabia que precisa de um terreno onde espalhar minha música fosse mais possível. Na sequência vieram os discos “De pés no chão” e “Das coisas que surgem”. No meio desse caminho, toquei o projeto Pipoca Moderna em Salvador, que me deu bastante visibilidade e despertou o desejo de fazer um disco de dança, de corpo, que chegou agora com o “TRETA”.

© Erivan Morais

© Erivan Morais

– O que ser cantora, compositora, artista melhor te ensinou e ensina sobre a vida? E quais foram as maiores dificuldades no caminho?

Ser artista me faz ser mais sensível ao outro, me faz ser aberta ao encontro, me desperta a curiosidade, a generosidade. E sou artista porque essas coisas todas já me pertencem. Sinto que sou uma pessoa melhor por ser artista. A arte me melhora, me espiritualiza. Foram muitas dificuldades no caminho, que ainda existem. Não é fácil ser artista e viver de arte nesse mundo, porque se você não está no topo como artista, o trabalho é pouco valorizado, em todos os sentidos. E precisamos sobreviver. Mas nenhuma dificuldade até aqui sucumbiu o desejo de fazer arte. Vivemos agora um período muito crítico. Depois de anos de conquista, onde vimos pela primeira vez a música independente brasileira se estabelecer de modo mais digno, temos uma crise profunda no mercado musical. E quem mais sofre essa crise somos nós, os pequenos e independentes. Mas estamos aí. Crescemos na crise. Agora é uma questão de administrar.

– Agora pausa pra uma pergunta de RH: como você se vê daqui a cinco anos? E daqui a 20? O que você quer fazer que ainda não fez?

Não tenho idéia… rs. Eu mudo muito o tempo todo. Tenho vontade fazer um curso de nutrição, me interesso por alimentação. Acredito em nas curas emocionais e físicas a partir dela. Tenho vontade de morar em Portugal. Tenho vontade de morar numa casa no campo. Tenho vontade de ter filhos. Tenho vontade de fazer música para sempre, mas aos poucos a gente vai mudando a expectativa. Sinto cada vez mais que faço para mim, por mim. Em tudo que me vejo fazendo, existe o desejo de me tornar uma pessoa que contribua para a evolução desse mundo, de modo que as pessoas possam viver mais plenas, inclusive eu. É um desafio constante. É uma prática diária.

– Ser artista no Brasil hoje é…

Uma novidade a cada dia…

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