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videoclipe de amor

por   /  01/02/2011  /  15:00

Meu querido Thiago Soares, que teve uma das Fraturas mais elogiadas, é jornalista e professor e também entende tudo de videoclipe. Ele é autor do livro “Videoclipe – O Elogio da Desarmonia” e escreveu um ótimo texto para o Clipestesia, que reproduzo aqui!

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Vou falar de amor. Videoclipe de amor. E, my God, quem pinta imagens sobre amor mais lindas que o cineasta Wong Kar-Wai? Talvez haja. Eu não conheço. Amo o Wong Kar-Wai desde “Amores Expressos”, um filme que fala, entre outras coisas, de sentimentos com prazos de validade e de uma garota que invade a casa de um rapaz solitário pelo qual é apaixonada, faz a comida dele, lava a roupa, arruma as coisas, deixa lembretes e sai sem deixar vestígios. E transforma suas “invasões” (foram muitas) numa poética declaração de amor à distância.

Wong Kar-Wai dirigiu filmes onde o amor é essa coisa estranha e silenciosa. Amantes que não conseguem dizer que se querem como em “Amor à Flor da Pele”, um fim de relacionamento que precisa de Buenos Aires – sim, a capital argentina – como cúmplice em “Felizes Juntos” e até um homem que não consegue esquecer a ex e afoga as mágoas num bar ao som de “Try a Little Tenderness” em “Um Beijo Roubado” (eu prefiro o título original “My Blueberry Nights”, não é mais poético?).

Mas, é de clipes que estamos falando. E Wong Kar-Wai levou seu estilo fragmentado, solto, cheio de ambigüidades visuais (que fez a crítica o classificar como uma espécie de “Godard do Oriente”) para o vídeo musical. E dirigiu “Six Days”, do DJ Shadow. Dá uma olhada.

(Não tô conseguindo inserir vídeos do YouTube > http://www.youtube.com/watch?v=eY-eyZuW_Uk)

Neste clipe, temos o amor e o estilo de Wong Kar-Wai. Juntos. Casados. Amor é água, essa emulsão em que a gente mergulha meio sem saber onde vai dar, se tem fundo, se tem alguma coisa que nos sustente. Não à toa, o clipe começa com corpos na água. Ouvimos, na canção, uma espécie de “contagem” de dias para o que quer que seja – Um encontro? Um começo? Um fim? Mas, quando Wong Kar-Wai nos sugere aqueles corpos n’água, temos um indício: ele está falando de um mergulho. Sim, um mergulho.

Aí aparecem coisas como faíscas, fogo, olhares à espreita. Oh, meu Deus, eles, os paradoxos sempre a aparecer… Os conflitos. Os senões. Por que existem? Existem. Do lindo e tranqüilo azul em que mergulhamos, acabamos fadados ao amarelo-fogo, ao laranja-faísca. Então, os olhares. Furtivos, desconfiados.

E por que a tatuagem? A dor da tatuagem, o prazer da tatuagem ao espelho. Tatuar é colar algo não na pele, mas na alma. Não sai. É matar um pouco o nosso corpo com os registros de um momento. Tatuagem é vestígio de que a gente passou por algo. Ou passa. A gente viveu. Ou vive. Tatuagem e amor. É até óbvio, não? Mas é tão, mas tão bonito quando mostrado por Wong Kar-Wai…

Ouvimos na música: “Tomorrow never comes until it’s too late” (“Amanhã nunca vem até que é tarde demais”). E então, além da água e dos corpos, vemos lutas: boxe, golpes de artes marciais. Duas palavras não saem da minha cabeça: “amanhã” e “tarde demais”. Eu quero não acreditar que Wong Kar-Wai está falando de um fim. De um adeus. Estava tudo tão lindo…

Mas quem disse que não há beleza no fim de um relacionamento?

A artista sérvia Marina Abramovic, em 1988, realizou uma performance para encenar seu fim de relacionamento com o então parceiro Ulay. Marina num extremo da Muralha da China. Ulay em outro. Eles caminharam ao encontro um do outro. Três meses e 2500 quilômetros depois, se encontraram. E deram adeus. Nunca mais voltaram a se falar. Uma performance que é o fim de um relacionamento. Quer saber mais sobre essa história? Dá uma lida abaixo.

Ficamos na cama dez dias seguidos.

Falo de Marina Abramovic porque acho que esse clipe do Wong Kar-Wai é também sobre performatizar um fim. Percebe o casal brigando. Nota as plataformas de gelo sendo quebradas. No fim, ele, sozinho, chuta a lâmpada e entra na escuridão. Mas, oh, se fosse tão fácil assim esquecer…

Não é. Ao fim, um dizer do ator de filmes de artes marciais Bruce Lee: “a possessão de algo começa na mente”.

E a nossa memória é esse lugar em que aplicamos golpes, chutamos, lutamos. Contra o que foi mágico. E ficou trágico.

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