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você fotografa, marilda escreve

por   /  23/10/2009  /  23:29

se tem uma coisa que eu gosto de inventar pra este quase abandonado blog é uma nova seção. aí um dia marilda me chamou no gtalk e falou: deixa eu escrever um conto no teu blog. ao que eu respondi: má é claro! e aí a gente teve a idéia de juntar o texto com uma foto. então, a partir de agora, você leitor, você que gosta de fotografar, você amador, você pessoa querida escondida por aí, todos vocês estão convidados a fazer parte disso aqui. a gente dá uma olhada, seleciona a imagem e marilda se põe a escrever. curtem a idéia?

com vocês, a estréia! texto de marilda (aka mariana rezende) e foto de joão pedro perassolo

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As meninas

Saí de casa cedo. Há dez anos, creio eu. Não saí de lá porque apanhava de um pai bêbado na frente de uma mãe omissa. Nem porque passava fome e fui obrigada a me prostituir para comer. Ganhava presentes no natal, aniversário, dia das crianças e até algum agrado sem data especial. Saí porque saí. Talvez eu quisesse achar meu lugar no mundo. Fugir de um futuro pré-agendado – faculdade, carreira, marido, lua-de-mel no nordeste, bebês e babás. Eu queria era ser alguém. Alguém de alguém. Conheci tantos lugares, tanta gente. Em alguns momentos me senti acolhida, tive muitas famílias. Me apaixonei um sem-número de vezes. Essa minha vida foi a vida dos outros. Peguei muitas caronas em carros e sonhos de outrem. Nunca consegui fixar residência. Ou ter meu próprio carro com pelúcias penduradas no retrovisor, adesivos irreverentes, lixinho de TNT pendurado no câmbio de marchas. Não nasci para fixar residência. Quando os lugares começam a tomar a forma de um lar, com cheiro e cores característicos, eu junto as minhas pequenas posses e vou-me embora como cheguei – com algum drama, um certo tumulto, uma comoção poética para marcar o rito da mudança. Vez ou outra me pego com um olhar comprido para paredes vazias e penso que gostaria de colar algumas fotografias, bilhetes e postais nelas. Penso também em como seria ter um copo onde eu pudesse deixar a minha escova de dentes. Então sou tomada por um impulso. Alguma coisa lá fora me chama. Uma inquietude, uma urgência, um comichão. É hora de ir. E eu vou. Nessa vida eu gosto mesmo é de ir embora.

12 Comentários Deixe seu Comentário

  • chebel • 24.10.2009 @ 00:05 responder

    é nóis.

  • Ana Shio • 24.10.2009 @ 02:26 responder

    o texto é ótimo!
    talvez eu goste de ir embora tb…

  • Amanda • 24.10.2009 @ 04:45 responder

    my little runaway run run run run run runawy

  • coracaoaomolhopardo • 24.10.2009 @ 13:35 responder

    essas palavras fizeram revirar la no fundo do peito a tal inquietude que nos rege e me contive pra nao ir logo fazendo a mala. talvez amanha! ;)

  • Joao Perassolo • 24.10.2009 @ 21:06 responder

    Lagrimas, aqui!

  • Enzo • 25.10.2009 @ 02:16 responder

    Muito cliché. Gostaria de saber onde estavam vocês “viajantes” quando nós, os pioneiros, se largaram pelo mundo nos anos 70 e 80, caronas em navios cargueiros, com revelação de fotos nos banheiros de espeluncas e sem amigo da amiga da prima da vizinha como cicerone em cada ponto? Sim, nós os pioneiros que não se largaram mundo afora apenas para contar estórias ou postar foto cliché no Flickr, mas fizeram faculdades no exterior. Ver figurinhas e se deitar com vários (as) é muito fácil. Viajantes facilitados pela Internet e câmera digital não vale. Sem falar que aquele passaporte italiano por causa de tataravô é uma mão na roda, eh?

    PS: Global Warming é uma armação para tirar dinheiro de trouxas. See, se vocês fossem “viajantes” mesmo, saberiam disso e não acreditariam em pilantras como o Al Gore e Obama.

  • edgar • 25.10.2009 @ 05:06 responder

    Now we´re talking, Marilda. Proud of you. Congrats!

  • Carmen • 26.10.2009 @ 18:43 responder

    Adorei o texto e a foto.
    eu faço o inverso, escrevo um nanoconto e depois procuro uma imagem. olha lá: cantoscabides.blogspot.com
    bjs

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