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Posts da categoria "#galeriadonttouch"

A força das mulheres de verdade ilustradas por Prisicila Barbosa

por   /  09/04/2018  /  18:31

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Priscila Barbosa é ilustradora e nos presenteia a cada post com seus desenhos de mulheres de verdade. E o mais legal é que, além de compartilhar o processo do seu trabalho, ela também divide leituras, sensações e pensamentos, o que ajuda a tornar ainda mais forte o que ela coloca no mundo.

Conversei com ela pra saber mais disso tudo, logo abaixo!

Mais: @priii_barbosapriscilabarbosa.iluria.com

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A ilustração sempre foi minha paixão, mas durante alguns anos ela foi colocada de lado por diversas inseguranças. Demorou pra eu perceber que ilustrar era justamente uma das maneiras de lidar com essas inseguranças. A partir do momento que me dei conta disso, comecei a explorar alguns assuntos que tinham impacto direto na minha vida e na maneira como eu me via, o que coincidiu justamente com o início da vida adulta e com um processo de independência. Então, acabo ilustrando tudo o que passa pela minha cabeça e deixa alguma pergunta. No momento tem sido a relação das mulheres com seus corpos e isso, claro, me inclui. Tenho tentado olhar meu corpo com a gentileza com que olho o das outras mulheres e é um processo bem complexo, mas incrível. Talvez por isso meu assunto preferido de ilustrar tem sido anatomia.

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A arte representa estar viva, que não é só coração batendo e respirar. E digo arte não só no sentido de produzir arte, mas de absorver a arte de outras pessoas também e conhecer diferentes pontos de vista. A arte me dá diversas sacodidas, sabe? Me força a pensar em coisa que estão fora da minha vivência, a enfrentar e confrontar também.

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Acho que a maior força que um trabalho pode ter é você mesma acreditar nele. Ele significar muito pra ti. Daí essa potência fica visível pro outro e reverbera nele também, o que vira um ciclo de retroalimentação poética.

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Arte é sempre política, essa sempre foi minha visão. Considerando que nossos corpos também são políticos, e nossas relações mais ainda, considero que o mais importante é se posicionar através das criações e incentivar esse processo no outro, cada vez mais é o que tento fazer.

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Eu estive em cargos superiores trabalhando com design e ilustração e ser firme sempre foi uma das minhas características. Mas é isso, tu tem que ser firme o tempo todo, mesmo quando não quer. Me questiono muito sobre a necessidade disso existir por eu ser mulher. Hoje, como freelancer, infelizmente o desafio é fugir de outras mulheres que usam o discurso feminista e girl power como uma maneira de se aproveitar disso pra ganho pessoal. Isso é desanimador, mostra a total desvalorização das profissionais de arte e da própria causa.

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Mais:

Brunna Mancuso

Autoamor e natureza na fotografia de Ieve Holthausen

por   /  03/04/2018  /  9:09

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Gosto de ver como trabalhos de mulheres diferentes se conectam. Conheci o da Ieve Holthausen por meio de uma indicação da Tuane Eggers, que já apareceu por aqui (A fotografia de sonhar acordado de Tuane Eggers). Ela também falou da Chana de Moura (Fotografar foi o início de uma liberdade). As três são do Sul – e se conectam com si mesmas e com a natureza para criar imagens em que a gente quer mergulhar, fazer parte.

Conversei com a Ieve sobre seu trabalho. Espero que gostem!

Mais: @ieveholthausen + ieve.org

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Penso que é o sagrado que é o objeto da minha fotografia. Entendi que de forma mais inconsciente ou intuitiva costumo buscar em meu trabalho fotográfico fazer uma louvação à natureza (que é Deus para mim) e aos sentimentos mais elevados, como o amor. Percebo que minhas fotos falam de conexão consigo ou com a natureza, de meditação, de transcendência, da potência das viagens interiores, buscando lembrar que somos consciência. E também falam de ser mulher, de nossa força, de nossa sensibilidade, da potência da união feminina e do autoamor e da libertação dos nossos corpos de mulheres – os portais que nos trouxeram até aqui.

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Acho que não estou muito inserida no meio da fotografia, visto que não participo de editais, concursos, eventos e não tenho quase nenhum contato com outros fotógrafos (exceto duas amigas) ou qualquer coisa assim. Fico meio escondida e não percebo a muito diferença entre ser homem e ser mulher nessas circunstâncias, embora saiba que exista bastante machismo nesse meio.

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A fotografia representa a linguagem que minha alma aprendeu a usar para se expressar. Tudo aquilo que não consigo expressar por palavras, pintura, desenho ou música. É a maneira de revelar e compartilhar um pouco do meu universo interior.

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As mulheres na ilustração de Brunna Mancuso

por   /  02/04/2018  /  9:09

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Colocando em prática a vontade de falar cada vez mais do trabalho de mulheres – e mulheres brasileiras -, converso hoje com a Brunna Mancuso, ilustradora que tem um traço daqueles que dá vontade de dar print e guardar pra mostrar pra mais gente, sabe?

Mais > @brunnamancuso

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Eu já trabalhava como designer há alguns anos, no meio editorial, quando entrei, em 2012, na faculdade de artes visuais. Aconteceu de eu começar a trabalhar, bem timidamente, com ilustração editorial, ao mesmo tempo que estava na faculdade. Desde o começo eu tinha uma inclinação bem forte para desenhar temas femininos, e só segui minha intuição. Até hoje sigo abordando os mesmo temas, porém com mais técnica e profundidade.

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O universo que eu vivo é bem feminino. Entre meus contatos profissionais e colegas de profissão, há muito mais mulheres do que homens. Sinto um movimento forte dentro da área, sinto mulheres sendo mais procuradas e reconhecidas. Claro, sei que vivo numa bolha e que nem tudo no mercado é assim, tem outras áreas da ilustração (como a de quadrinhos, por exemplo) em que nós mulheres ainda estamos lutando por espaço. Porém não posso reclamar.

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Vivo arte 24h por dia. Nos momentos raros que eu não estou trabalhando, estou planejando novos cursos, novas obras, buscando referências, mesmo quando estou fazendo outras coisas. O cérebro não para, literalmente. Às vezes tenho, inclusive, dificuldade me dormir. Com a maturidade, estou aprendendo a ter uma vida mais equilibrada, pois já tive muitos problemas de estafa mental e física no passado. Hoje sei valorizar os momentos de descanso e ouvir meu corpo, mas pra mim é difícil parar, já que o maior prazer da minha vida é criar.

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Mais:

Priscila Barbosa

Fotografar foi o início de uma liberdade, diz Chana de Moura

por   /  14/03/2018  /  10:10

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Chana de Moura é fotógrafa, gaúcha, tem 29 anos. Faz uso da fotografia para compreender como percebe e interage com os diferentes ambientes à nossa volta. Ela faz isso por meio de várias mídias, como a fotografia em si e também colagens, desenhos, gravuras e objetos. A natureza e o universo místico são duas de suas maiores fontes de inspiração. Em um bate-papo rápido ela mostra a profundidade de suas escolhas.

Mais: chanademoura.com.br e @chanademoura

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[Minha fotografia fala de] Reintegração. Creio que hoje em dia possuo um objetivo fotográfico mais definido do que o ato de fotografar significa em minha vida. Antes, pulsava em mim uma vontade louca de sair fotografando, de inventar cenas, procurar cenários e produzir um momento fotográfico. Hoje, eu fotografo elementos bem mais pontuais. Penso antes de fazer uma foto. Busco, através das imagens, compreender como é que eu e as outras pessoas percebem e interagem com os diferentes ambientes à nossa volta.

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Anseio compreender qual o papel da natureza e da paisagem em nossas vidas e porque agimos como se não fôssemos parte do mundo natural. Fotografo para expressar uma idéia ou, como no caso dos autorretratos recentes, pelo desejo de compreender-me enquanto um ser que habita este espaço comum com diversos outros seres de distintas espécies. Quando penso nisso, sempre lembro de uma fala de Sagan, nela ele ressalta a importância de sermos humildes. Veja bem: nós, humanos, surgimos no planeta quando 99,9% da terra já estava completa praticamente do jeito que a conhecemos hoje. Isso quer dizer que surgimos num último instante cósmico, que somos uma parte muito ínfima de um todo que veio antes de nós.

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Quando fotografo, principalmente os autorretratos, os quais chamo de “Mecanismos de reinserção”, busco justamente essa reintegração. Desejo um lampejo do que seria a vida se a humanidade não tivesse se afastado tanto do poder primordial, do que conhecemos como a natureza. Não é que eu romantize a ideia de natureza, achando que esta não se trata de um império hostil, é só que na natureza parece haver uma coerência de vida, algo que acredito ser impossível de encontrar vivendo na estrutura em que nós, pessoas, vivemos hoje. Sei que esse afastamento é, afinal de contas, um processo natural, que não quer dizer que também não sejamos natureza por termos nos afastado em determinados aspectos, apenas creio que a fotografia pode ser uma maneira de percebermos o mundo no qual estamos inseridos e também de interagirmos com o mesmo. Quando tento me “reintegrar”, na verdade estou buscando quase uma utopia de experienciar a vida como se nada jamais tivesse sido rompido.

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[Ser mulher neste meio] É maravilhoso! Sou eternamente grata ao universo por ter nascido mulher, essa condição é algo que permeia muito meu pensamento criativo. Sei que há situações bem complicadas em outros meios, mas no meio da arte que conheço, não presencio muita distinção por gênero. Sei que no cinema e que em outros ramos da fotografia é mais delicada a questão de ser mulher. Claro, essa é apenas minha experiência de vida… Já ouvi de amigas que passaram por situações bem severas: muitos homens assumem compreender mais do que as mulheres, principalmente as competências técnicas. Mas acredito meu caminho é um pouco paralelo: eu gosto muito de experimentar em fotografia, não me encaixo muito bem nas especificidades das questões técnicas, gosto delas para subvertê-las.  Por isso, possivelmente, nunca passei pela situação de alguém querendo me ensinar algo que eu já sei.

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A fotografia em minha vida representa uma grande constelação de apreensão de mundo. Fotografar foi o início de uma liberdade, uma forma de se opor à realidade objetiva (mas sem desconsiderá-la). Hoje ainda é um sinônimo de liberdade, mas também é um meio de estender as emoções, reorganizar o mundo, repensar estados do corpo e do espírito. É um método de voltar-me para fora e voltar-me para dentro, é um comunicar-se com o futuro e um comunicar-se com o passado. Também é uma forma de des-frustrar-me com o presente.  Ou seja, entender pelo reflexo e pela apropriação da vida, ser espelho: apreender em si e devolver ao mundo.

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A fotografia de sonhar acordado de Tuane Eggers

por   /  19/10/2017  /  10:00

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Tuane Eggers cria imagens que parecem saídas de um sonho. Paisagens idílicas e corroídas pelo filme analógico se misturam aos amores e amigos em meio à natureza que ela tanto adora. O encontro dá tão certo que a gente é transportado para um tempo de beleza e contemplação.

Lembro dela da época do Flickr, muitos anos atrás. Existia toda uma estética Flickr, quem lembra? Lembro também que ela foi parar no filme “Os famosos e os duendes da morte”, de Esmir Filho. Mais recentemente, suas fotografias fizeram parte de “O filme da minha vida”, de Selton Mello.

Entre suas inspirações, estão as fotógrafas Aela Labbe, Polina Washington e Rinko Kawauch.

Nesta breve entrevista, ela fala sobre o que a motiva a criar imagens que falam tanto de impermanência. Espero que vocês gostem! #galeriadonttouch

Mais em: @tuane.eggers + cargocollective.com/tuaneeggers

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Meu nome é Tuane Eggers e sou natural de Lajeado, uma pequena cidade do interior do sul do Brasil, mas atualmente vivo em Porto Alegre. Acho que sou fotógrafa, mas também acho um tanto difícil de me definir assim em algumas poucas palavras…

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O que me encanta na fotografia é esse paradoxo entre o espaço e o tempo – enquanto ela congela o espaço, o tempo continua pulsando dentro de uma imagem infinita. Também gosto de pensar nessa capacidade que a fotografia possui de registrar algo que realmente aconteceu ou existiu no mundo, mas também de criar um mundo à parte, um mundo inventado a partir do real. É como se minhas imagens fossem um recorte de um espaço em que eu gostaria de viver para sempre, e acho que elas permitem que outras pessoas habitem esse espaço no momento em que são olhadas – e então, talvez, o tempo continue pulsando infinito dentro desse olhar.

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Nossa, muito difícil escolher apenas três [fotos mais fortes que já fez], mas vou falar dessas porque elas marcam, simbolicamente, a força de alguns momentos da minha vida. A primeira [que abre o post] é “Um amor que brota”, de 2015: um retrato do meu ex-namorado Antônio, pessoa tão importante na minha vida, que me ensinou tanto e estimulou tantas coisas bonitas na minha vida e no meu ser, incluindo o meu encantamento pela fotografia analógica. Além disso, essa foto também traz outro assunto que me encanta muito e está bastante presente no meu trabalho: os fungos, principalmente em forma de cogumelos, com a sua capacidade tão importante de decompor.

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A segunda [segunda foto do post] é “Estrada para a imensidão”, de 2014: além de ter sido feita em uma ocasião linda de uma viagem com amigos, ela ganhou um significado especial pra mim neste ano, pois está presente em “O Filme da Minha Vida”, dirigido pelo querido Selton Mello, e foi uma emoção enorme ver ela gigante na tela de cinema durante o filme.

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A terceira [foto do post] é “Dos imensos dias em que fomos tão grandiosamente pequenos”, de 2017: feita durante uma viagem que fiz com meus amigos em que fomos de carro desde o sul do Brasil até o Peru. Nessa viagem, tivemos uma experiência muito forte de dar a volta em uma montanha, durante quatro dias de caminhada, entre os 4 mil e 5,2 mil metros de altitude. Ela também marca uma fase importante de mudanças na minha vida.

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Acho que espero [com as fotos] reencontros com outros olhares sensíveis. Que elas possam despertar uma vontade de viver. Espero que meu fascínio pela natureza, pela vida e pela potência dos encontros reverbere em outros corpos. Por isso, a cada vez que recebo uma mensagem de alguém que se sentiu tocado pelas minhas fotografias, me sinto preenchida.

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#galeriadonttouch: João Arraes

por   /  04/10/2017  /  18:18

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João Arraes constrói imagens de moda e gosta de fotografar sem necessariamente falar de roupa. Suas imagens compõem timelines, catálogos, campanhas e revistas. Tem muito de beleza. E diversão. Essa semana, aliás, ele virou hit na internet quando foi publicada uma matéria falando sobre as fotos com pé na pia que ele e os amigos postam no Instagram.

Conversei com esse meu primo torto sobre sua profissão. #galeriadonttouch

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Sou o João, leonino, nascido e criado em Recife, amante da praia. Fotografo desde os 16 anos (agora estou com 28). Eu não consigo muito bem me definir, sou um inquieto sempre na busca de um novo jeito de me comunicar.

Fotografar é a maneira que encontrei de me comunicar. É como expresso meus vários eus. É meu ganha pão, meu prazer, meu trabalho, meu hobby.

Minha paixão não vem tanto da resposta [para as minhas fotos], nem sei nem se de fato espero por resposta, vem do ato de fotografar. O momento que aperto o disparador é o mais importante. Posso ter uma equipe de mil pessoas (que são super importante na construção de uma imagem), mas o momento do click é só meu e da pessoa (ou objeto) em questão, a atenção e a troca são só nossas.

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[Sobre as fotos dele mais marcantes] A primeira é a campanha que fiz para Nike X Pedro Lourenço. Primeiro pela liberdade artística que tive, segundo pela linguagem que pude trazer. Estava fotografando moda sem falar de roupa, sabe? Eles meio que me mandaram ir para rua e fotografar o que eu quisesse, com algumas palavras chaves de mood.

A segunda não é uma foto, e sim uma história. Quando comecei a passar mais tempo que São Paulo e viajando fora de Recife, criei junto com um amigo uma história chamada areia. Era essa minha busca por praia mesmo longe. Falamos de praia de uma forma escura, não tem uma moda focada em tendência. Eram surfistas tirados de casa.

A terceira foto é quando pude falar de futebol sem ser sexista, fiz a foto para um cliente durante a Copa no Brasil. Meu futebol era jogado por uma mulher linda, negra, forte – e que, além de fazer tudo, ainda tinha que cuidar do filho.

Mais João Arraes > joaoarraes.com

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“1978”, de Gabriela Oliveira

por   /  04/10/2016  /  13:13

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Quando saiu do interior de São Paulo para morar na capital, Gabriela Oliveira foi para um pensionato católico. Tinha 17 anos. Munida de uma câmera herdada do irmão e de alguns rolos de filme, começou a fotografar o cotidiano de jovens como ela que compartilhavam um espaço enquanto começavam a viver uma poderosa etapa da vida.

Os registros dos anos 1970 foram revisitados em quatro décadas depois e, este ano, deram origem ao fotolivro “1978”, editado pela Olhavê, de Alexandre Belém e Georgia Quintas.

Conversei brevemente com a fotógrafa, cujo trabalho me encantou pela aura de mistério, pelas tantas histórias que uma única imagem consegue nos fazer imaginar.

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Desde a infância me interessei por artes visuais e comecei esse trajeto através da pintura. Em 1977, vim para São Paulo cursar o colegial no IADE (Instituto de Artes e Decoração), onde uma das matérias era fotografia, com o fotógrafo Antônio Saggese. O ensaio fotográfico “1978” foi a semente de tudo que tracei em seguida, inclusive a faculdade de artes plásticas na FAAP.

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Sempre fui interessada em reter e deter o tempo, registrando o que se passava ao meu redor, um apelo da memória: fixar a imagem que magicamente se revelava sob a luz vermelha. Essas fotos que fiz aos 17 anos foram meu primeiro contato com a fotografia. Captadas de forma intuitiva, ainda hoje possuem uma carga emocional, base de todo o meu trabalho.

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No processo de edição o que prevaleceu foi o viés poético que Georgia Quintas propôs com a escolha das imagens, além de presentear o trabalho com um lindo poema. Foi um processo muito rico, com confiança total e sobra de competência da Editora Olhavê.

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O objetivo de toda essa soma é simples. Que as pessoas possam apreciar a narrativa proposta, que cada leitor possa acrescentar as próprias histórias e memórias… Sentimentos que expandem todas as possibilidades do olhar.

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“Ponte dourada sobre rio noturno”, de Ilana Lichtenstein

por   /  02/09/2016  /  15:15

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Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

Trecho de “Guardar”, de Antônio Cícero

Fotografar é guardar. É tentar estancar um momento, uma memória – para depois se debruçar sobre eles na tentativa de ressignificá-los, achar sentidos até então ocultos. É buscar, investigar, analisar. Quase sempre na tentativa de uma vida inteira que é entender a nossa própria narrativa e a de quem é fundamental para nós. Em “Ponte dourada sobre rio noturno”, a fotógrafa Ilana Lichtenstein faz uma costura entre o passado e o presente para criar um elo entre sua mãe e o Japão.

O fotolivro começou a tomar forma quando sua mãe teve um diagnóstico de uma doença sem cura, e a fotógrafa quis levá-la para o outro lado do mundo. “O Japão para mim sempre foi uma pulsão de vida, uma fonte de beleza profunda.” Visitou o país pela primeira vez em 2010. Em 2013, quando morou lá, a artista recebeu uma carta da mãe. “Ela dizia que quando eu tinha morado na França, em 2008, havia surgido entre nós uma paixão à distância. A gente não tinha uma relação muito próxima antes, não era muito harmônica. Mas quando fui morar longe pela primeira vez, a gente se aproximou muito. Na nova ida para o Japão eu confiava nisso. Tinha o sonho que ela conhecesse. Nesse estado de torpor, de letargia, achava que seria ótimo ela ver o outro lado do mundo.”

Não conseguiram ir juntas. Ilana viajou, voltou em dezembro de 2013. Em março do ano seguinte, a mãe foi internada em uma UTI por 81 dias, de onde não saiu – o que deu origem a outro livro, feito pelo seu pai, um diário poético e dolorido desse período. “Ela está, de fato, agora, de um outro lado do mundo que não alcanço. Mas esse trabalho dá de alguma forma materialidade a esse sonho.”

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Ilana passou dois anos trabalhando nas imagens que compõem o fotolivro. “Tempo lento, tempo certo”, diz. Além de suas fotos, feitas entre 2013 e 2015 em Tóquio, Kyoto e Itō, ela também recorre às imagens que seu avô, Joel Goldbaum, registrou nos anos 1960 e 1970. A ligação entre os materiais se dá ora pelas imagens em preto e branco, ora pelas bordas na maioria delas e, principalmente, nas imagens dos asiáticos que se juntam aos traços orientais do rosto da mãe, que passou a vida sendo confundida com japonesa, quando sua origem remete à Polônia. As imagens nos conduzem por uma viagem que remete a sonho, nostalgia e contemplação.Têm um pouco de melancolia e muito de beleza e poesia.

Na trama familiar, o design foi feito por sua irmã, Tamara Lichtenstein, que também costurou cada um dos 300 exemplares. O formato remete a um calendário e tem até linhas pontilhadas que permitem destacar as imagens. “Ouvi de uma senhora que a palavra defunto tem a ver com o significado de difundir. Essas fotografias serem soltas tem tudo a ver.” Pensar na passagem do tempo é inevitável.

No processo, Ilana se deparou não só com luto, mas também com mistério. “Tem coisas que não podem, não querem e não vão ser fotografadas.”, diz Ilana. “Levei minha câmera pra Tóquio, ela quebrou. Comprei outra, o filme rodava, depois soltava e entrava de volta na câmera, o que é estranhíssimo. Tenho várias imagens feitas pra esse livro em que aconteceu isso. Eu chorava, anotava essas imagens no caderno para de alguma forma não perdê-las.” O título do fotolivro, aliás, vem de uma dessas imagens que ela não conseguiu fotografar, sendo também uma metáfora sobre a morte.

O livro será lançado neste sábado, 03/09, data de aniversário da mãe de Ilana, na Doc Galeria (rua Aspicuelta, 145, Vila Madalena), das 12h às 18h.

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“Ponte dourada sobre rio noturno”, de Ilana Lichtenstein

Ipsis

60 pág.

14 x 21 cm

Quanto: R$ 80

www.ilanalichtenstein.com

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#galeriadonttouch: Adelaide Ivánova

por   /  07/12/2015  /  17:00

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Quais são as fotos preferidas dos fotógrafos? Adelaide Ivánova responde para a #galeriadonttouch!

Adelaide Ivánova é uma escritora, poeta, jornalista e fotógrafa brasileira, nascida no Recife, Pernambuco, em 1982. Lançou os livros “autotomy (…)” (São Paulo: Pingado-Prés, 2014), “Polaróides” (Recife: Cesárea, 2014) e em fevereiro lança “O bom animal” (Lisboa: Douda Correria, no prelo). Tem trabalhos fotográficos publicados por diversas revistas internacionais, como i-D (UK), Colors (Itália), The Huffington Post (EUA), Der Greif (Alemanha), Vogue Brasil e Vogue RG (Brasil), Ojo de Pez (Espanha) e Vision (China), entre outras. Faz parte das coleções do DKW Museum (Alemanha) e do Museu de Belas Artes da Bretanha (França). Vive e trabalha entre Colônia e Berlim, na Alemanha.

Escolher uma foto de um/a autor/a, dentre todas as suas outras, esvazia a própria foto de sentido. Por outro lado, pensar que uma foto só funciona no contexto de uma série também reduz o que essa foto pode comunicar. Que dilema. Fiquei nessa encruzilhada entre escolher fotos preferidas e escolher fotos de projetos que marcaram minha formação fotográfica (e, com o perdão da pieguice, minha formação humana), mas elas tinham que “sobreviver” sozinhas e isso não é fácil. Então fiquei com a segunda opção, por não me sentir confortável com a primeira. Essa lista não é a pequena lista dos melhores trabalhos do mundo, é apenas um lembrete dos trabalhos mais importantes na minha formação. Claro, todo recorte traz também limitações e aponta exatamente para as falhas de quem fez a seleção. E a minha falha nesse caso é: ela é composta quase que exclusivamente de mulheres norte-americanas brancas – e exclui artistas que mais tarde se tornaram referências fundamentais para mim, como Thabiso Segkala (África do Sul, 1981-2014), Rena Effendi (Azerbaijão, 1977), Zanele Muholi (África do Sul, 1972), Ute Mahler (Alemanha, 1949), Barbara Wagner (Brasil, 1980), Roger Ballen (EUA/África do Sul, 1950) e Inge Morath (Áustria, 1923).

Pra começar, com a foto acima:

Alessandra Sanguinetti (EUA, 1968). Alessandra me devolveu o prazer de fazer fotos bonitas. Não dá pra fazer isso sempre, com todo tema, mas às vezes é importante poder ser leve. Os temas dela não são sempre conflituosos, mas nem por isso pouco complexos. E ela usa lindamente o formato 6×6. Essa foto é da série “The adventures of Guille and Belinda”.

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Chauncey Hare (EUA, 1934), do livro “Protest photographs”. O livro já começa com o seguinte aviso, em letras garrafais: “DEDICADO PARA TODOS OS TRABALHADORES – Essas fotografias foram feitas por Chauncey Hare para protestar e alertar contra a crescente dominação da classe trabalhadora, por parte das multinacionais e seus donos e administradores, membros da elite”. Outro exemplo de projeto fotográfico que contém alto nível de engajamento pessoal. Por conta do contato com os fotografados, Chauncey acabou abandonando a fotografia (antes, tinha abandonado um cargo de alto engenheiro na indústria automobilística para virar fotógrafo), doou todo seu acervo para a Universidade da Califórnia para se dedicar à militância e virar terapeuta de trabalhadores. O que eu mais gosto dessa foto é o teor Diane-Arbus dela, de mostrar algo spooky dentro da normalidade, algo que você não sabe exatamente porque, mas incomoda.

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Cindy Sherman (EUA, 1954). O que me atrai no trabalho de Cindy é a coerência e exatidão da pesquisa dela, ao longo de todos esses anos, em relação à representação do feminino; por isso escolhi essa foto, que é da série Untitled Film Stills.

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Gerda Taro (Alemanha, 1910-1937). Fotógrafa de guerra que morreu durante a Guerra Civil Espanhola, aos 26 anos. Ela tinha um nível de engajamento pessoal com a luta anti-fascista que ia além do seu trabalho de fotógrafa. O Partido Comunista francês bancou seu funeral, com grandes honrarias. Eu gosto da elegância e da ousadia dela, de encenar fotografias num contexto super conservador, que é o da fotografia documental e de guerra. Só tenho uma coisa a dizer: que foto!

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Mimi Chakarova (Bulgária, não sei quando ela nasceu, arrisco anos 70) – “The price of sex” é uma documentação sobre tráfico de mulheres na Moldávia. O que me marcou e ainda me comove, toda vez que re-olho essa série, é a profundidade e empatia com a qual Mimi abordou o tema – quase como militância (o projeto virou depois um documentário), sem perder de vista nem as pessoas que ela entrevistou/fotografou, nem a si própria enquanto autora. Eu gosto particularmente de que todas as fotos são tortas, desfocadas, mal enquadradas , granuladas, escuras ou super expostas – tudo “errado”, tudo que meus professores de fotografia teriam um treco ao ver. Mas é um trabalho e uma história que você não esquece nunca mais. Escolhi a foto mais “errada” de todas.

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Nan Goldin (EUA, 1953). “The ballad of sexual dependency” fez 40 anos esse ano e continua fresco, imbatível, insuperável. Se sexo não for política, e não for suficiente para uma pesquisa da vida inteira, eu já não sei mais de nada. Ninguém fez isso nem foi tão fundo como Nan Goldin, e é uma perda de tempo tentar fazer projetos sobre o assunto da mesma maneira como ela fez. Escolhi essa foto, que é a capa do livro homônimo, porque sim.

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Robert Mapplethorpe (EUA, 1946-1989). Outro artista importante pela exatidão da sua pesquisa em relação à gênero, representação de gênero e sexualidade. Esse é um dos seus auto-retratos.

Já passaram pela #galeriadonttouch:

Toni Pires

Cassiana der Haroutiounian

Filipe Redondo

Daigo Oliva

Ilana Lichtenstein

#galeriadonttouch: Toni Pires

por   /  02/12/2015  /  9:00

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Quais são as fotos preferidas dos fotógrafos? Toni Pires responde para a #galeriadonttouch!

Toni é fotojornalista e atuou nos principais veículos no Brasil. Foi editor de fotografia na Folha de S.Paulo e atualmente vive em Beijing fotografando para o Los Angeles Times e desenvolvendo projeto autoral no interior da China. Ele diz:

As fotografias que mais gosto embaralharam minha mente. Vem e vão e as troco no pensamento de acordo com o meu café da manhã. O humor e o desejo fazem as memórias revirarem e o gostar se transformar. E, assim, me inspiro em fotógrafos que despertam em mim uma onda de emoções, são invasores de minh’alma, os vejo como olhos mágicos que explodem em luz, transgressão e forma. Aqui, transito com nomes da história e jovens profissionais que me fazem acreditar que existem pessoas especiais, capazes de captar o mais íntimo dos sentimentos… Neste caleidoscópio de oito olhares me entrego ao infinito sonhar de imagens.

Sobre a foto que abre o post: Chien-Chi Chang um taiwanês que faz parte do quadro dos mestres da Magnum Photos e retrata entre outras partes do mundo, a Ásia, com um olhar despido de clichês e atrevido para os padrões da região.

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Minha inspiração maior, Dan Weiner, um fotojornalista americano que soube retratar pessoas, lugares e situações com elegante parcimônia e maestria.

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Elena Sariñena, a espanhola de delicadeza máxima para retratar o universo feminino com elegância e sensualidade, sem escorregar em clichês.

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Jacksparrow Apinchai foi o responsável por me levar aos campos de arroz do sudeste Chinês, depois que vi seu trabalho sobre as terraças de arroz na Ásia.

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Como minha escola é o fotojornalismo, James Nachtwey me perturba a mente com seus personagens e suas histórias.

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A alemã Eva Creel me encanta com seu olhar submerso nas águas e me inspira sempre que a água aparece em minhas retinas.

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Na era do selfie, ninguém menos que a fotógrafa disfarçada de babá, Vivian Dorothy Maier, me inspira e se apresenta como a mais crítica no momento “auto-selfie narciso” que vivemos.

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O clássico e metódico construtor de imagens, Christian Coigny, me ensina sempre que o domínio da técnica é fundamental, mesmo que seja para desconstrui-la.

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