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Posts da categoria "#minasdonttouch"

Projeto I’m Tired fala do impacto das microagressões cotidianas

por   /  03/04/2018  /  10:10

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O projeto I’m Tired (@theimtiredproject) “utiliza a fotografia, o corpo humano e as palavras escritas como ferramentas para falar do impacto duradouro que microagressões cotidianas, suposições e estereótipos causam em nossas vidas”. Criado por Paula Akpan e Harriet Evans, tem como objetivo tirar camadas de discriminação para relevar pensamentos e sentimentos que geralmente não são expressados, seja por medo de reação, seja por dúvida se outras pessoas também passam por isso. Forte, né?

Mais: theimtiredproject.com

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#minasdonttouch  ·  amor  ·  arte  ·  ativismo  ·  fotografia

As mulheres na ilustração de Brunna Mancuso

por   /  02/04/2018  /  9:09

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Colocando em prática a vontade de falar cada vez mais do trabalho de mulheres – e mulheres brasileiras -, converso hoje com a Brunna Mancuso, ilustradora que tem um traço daqueles que dá vontade de dar print e guardar pra mostrar pra mais gente, sabe?

Mais > @brunnamancuso

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Eu já trabalhava como designer há alguns anos, no meio editorial, quando entrei, em 2012, na faculdade de artes visuais. Aconteceu de eu começar a trabalhar, bem timidamente, com ilustração editorial, ao mesmo tempo que estava na faculdade. Desde o começo eu tinha uma inclinação bem forte para desenhar temas femininos, e só segui minha intuição. Até hoje sigo abordando os mesmo temas, porém com mais técnica e profundidade.

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O universo que eu vivo é bem feminino. Entre meus contatos profissionais e colegas de profissão, há muito mais mulheres do que homens. Sinto um movimento forte dentro da área, sinto mulheres sendo mais procuradas e reconhecidas. Claro, sei que vivo numa bolha e que nem tudo no mercado é assim, tem outras áreas da ilustração (como a de quadrinhos, por exemplo) em que nós mulheres ainda estamos lutando por espaço. Porém não posso reclamar.

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Vivo arte 24h por dia. Nos momentos raros que eu não estou trabalhando, estou planejando novos cursos, novas obras, buscando referências, mesmo quando estou fazendo outras coisas. O cérebro não para, literalmente. Às vezes tenho, inclusive, dificuldade me dormir. Com a maturidade, estou aprendendo a ter uma vida mais equilibrada, pois já tive muitos problemas de estafa mental e física no passado. Hoje sei valorizar os momentos de descanso e ouvir meu corpo, mas pra mim é difícil parar, já que o maior prazer da minha vida é criar.

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Mais:

Priscila Barbosa

Fotografar foi o início de uma liberdade, diz Chana de Moura

por   /  14/03/2018  /  10:10

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Chana de Moura é fotógrafa, gaúcha, tem 29 anos. Faz uso da fotografia para compreender como percebe e interage com os diferentes ambientes à nossa volta. Ela faz isso por meio de várias mídias, como a fotografia em si e também colagens, desenhos, gravuras e objetos. A natureza e o universo místico são duas de suas maiores fontes de inspiração. Em um bate-papo rápido ela mostra a profundidade de suas escolhas.

Mais: chanademoura.com.br e @chanademoura

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[Minha fotografia fala de] Reintegração. Creio que hoje em dia possuo um objetivo fotográfico mais definido do que o ato de fotografar significa em minha vida. Antes, pulsava em mim uma vontade louca de sair fotografando, de inventar cenas, procurar cenários e produzir um momento fotográfico. Hoje, eu fotografo elementos bem mais pontuais. Penso antes de fazer uma foto. Busco, através das imagens, compreender como é que eu e as outras pessoas percebem e interagem com os diferentes ambientes à nossa volta.

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Anseio compreender qual o papel da natureza e da paisagem em nossas vidas e porque agimos como se não fôssemos parte do mundo natural. Fotografo para expressar uma idéia ou, como no caso dos autorretratos recentes, pelo desejo de compreender-me enquanto um ser que habita este espaço comum com diversos outros seres de distintas espécies. Quando penso nisso, sempre lembro de uma fala de Sagan, nela ele ressalta a importância de sermos humildes. Veja bem: nós, humanos, surgimos no planeta quando 99,9% da terra já estava completa praticamente do jeito que a conhecemos hoje. Isso quer dizer que surgimos num último instante cósmico, que somos uma parte muito ínfima de um todo que veio antes de nós.

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Quando fotografo, principalmente os autorretratos, os quais chamo de “Mecanismos de reinserção”, busco justamente essa reintegração. Desejo um lampejo do que seria a vida se a humanidade não tivesse se afastado tanto do poder primordial, do que conhecemos como a natureza. Não é que eu romantize a ideia de natureza, achando que esta não se trata de um império hostil, é só que na natureza parece haver uma coerência de vida, algo que acredito ser impossível de encontrar vivendo na estrutura em que nós, pessoas, vivemos hoje. Sei que esse afastamento é, afinal de contas, um processo natural, que não quer dizer que também não sejamos natureza por termos nos afastado em determinados aspectos, apenas creio que a fotografia pode ser uma maneira de percebermos o mundo no qual estamos inseridos e também de interagirmos com o mesmo. Quando tento me “reintegrar”, na verdade estou buscando quase uma utopia de experienciar a vida como se nada jamais tivesse sido rompido.

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[Ser mulher neste meio] É maravilhoso! Sou eternamente grata ao universo por ter nascido mulher, essa condição é algo que permeia muito meu pensamento criativo. Sei que há situações bem complicadas em outros meios, mas no meio da arte que conheço, não presencio muita distinção por gênero. Sei que no cinema e que em outros ramos da fotografia é mais delicada a questão de ser mulher. Claro, essa é apenas minha experiência de vida… Já ouvi de amigas que passaram por situações bem severas: muitos homens assumem compreender mais do que as mulheres, principalmente as competências técnicas. Mas acredito meu caminho é um pouco paralelo: eu gosto muito de experimentar em fotografia, não me encaixo muito bem nas especificidades das questões técnicas, gosto delas para subvertê-las.  Por isso, possivelmente, nunca passei pela situação de alguém querendo me ensinar algo que eu já sei.

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A fotografia em minha vida representa uma grande constelação de apreensão de mundo. Fotografar foi o início de uma liberdade, uma forma de se opor à realidade objetiva (mas sem desconsiderá-la). Hoje ainda é um sinônimo de liberdade, mas também é um meio de estender as emoções, reorganizar o mundo, repensar estados do corpo e do espírito. É um método de voltar-me para fora e voltar-me para dentro, é um comunicar-se com o futuro e um comunicar-se com o passado. Também é uma forma de des-frustrar-me com o presente.  Ou seja, entender pelo reflexo e pela apropriação da vida, ser espelho: apreender em si e devolver ao mundo.

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Quando a vida é uma euforia: o Carnaval de Joana Lira

por   /  23/01/2018  /  12:00

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Joana Lira é o Carnaval. Uma artista gráfica que personifica, no trabalho e na vida, a paixão pela maior de todas as festas. Ela é amor, suor, brilho e euforia. Euforia esta que é traduzida em suas aparições por Olinda. E que, por 10 anos, foi o fio condutor para que ela “vestisse” a folia do Recife com suas criações.

Sou apaixonada pelo Carnaval de Joana Lira muito antes de conhecê-la. Ao atravessar as pontes do Recife em meio a seus bonecos gigantes, vendo a cidade em outra dimensão, com um colorido de encantar. Ao olhar Joana de longe pelos blocos de Olinda, sempre maravilhosa em suas fantasias. Há poucos anos, nos encontramos em uma prévia do Eu Acho é Pouco ao som da bateria e de Lala K. Brincamos o dia todo com um espelho. E o que era admiração de longe se tornou um bloco de amor – de Carnaval e dia a dia.

Com muita alegria e um trabalho de seis anos pra colocar tudo de pé, Joana materializa seu legado com a exposição “Quando a vida é uma euforia”, que será aberta hoje no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Com curadoria de Mamé Shimabukuro, a mostra mistura obras documentais e imersivas sobre histórias e personagens da festa. Que sentimentos e emoções esses quatro dias suscitam? É o que a gente vai descobrir logo mais à noite. Convido vocês a conhecerem do Carnaval que é uma explosão para tantos de nós.

Antes disso, uma conversa com essa musa.

Joana Lira, exposição “Quando a vida é uma euforia”, carnaval 2010_JOSIVAN RODRIGUES_1 Joana Lira, exposição “Quando a vida é uma euforia”, carnaval 2009_JOSIVAN RODRIGUES_4

– Conta um pouco da tua relação com o Carnaval? Qual é a memória mais antiga que tu tem dessa festa na tua vida? E a mais inesquecível?

O Carnaval funciona pra mim como um combustível, uma injeção de vida. Mas não é qualquer Carnaval, tem que ser o carnaval de Pernambuco. Minha memória mais antiga é de ir pro Galo da Madrugada, ainda muito pequena, com meu pai. Sempre amei me fantasiar e sempre tive muitas fantasias, até hoje… rs. Tenho muitas memórias lindas, mas uma que me fez chorar foi me deparar, por puro acaso, numa noite já voltando pra casa, com o exuberante desfile do bloco Elefante de Olinda e poder ver de muito perto todo seu cortejo elegante e mágico. Parecia um sonho.

– Conta um pouco da tua trajetória como artista? Aquela coisa de se apresentar pra quem ainda não te conhece.

Nasci numa família cheia de dons artísticos e com gosto estético bem aguçado. Me formei em design gráfico em Recife em 1997, mesmo ano que fiz minha primeira exposição individual. Trabalhei com suportes diversos e pra mim isso sempre foi um encanto: estamparia, cerâmica, ilustrações de livros. Em 1999 me mudei pra São Paulo. Três anos depois, estava fazendo parte da equipe que criava a cenografia do carnaval do Recife, trabalho que desenvolvi por 10 anos e me jogou para o mundo. Com dele, lancei livro e participei de exposições dentro e fora do país. Fui convidada por grandes empresas a fazer linhas de produtos assinados de várias naturezas. Parcerias que conservo até hoje e que inclusive me apoiaram para eu poder realizar esta exposição. Já há algum tempo tenho repensado minha trajetória e tenho tido desejo de voltar a realizar meus projetos de artes visuais. Inclusive já comecei pôr em prática.

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Joana carnavalesca - foto Gilvan Barreto 1_low Joana carnavalesca - foto Gilvan Barreto 2_low

– E fazer o Carnaval do Recife por tantos anos, como foi a experiência? O que de mais precioso tu guarda disso?

Foi um aprendizado imenso, e ainda é, mesmo depois de já passados 7 anos que parei de fazer. Tem percepções que acontecem com a maturidade da vida e com o tempo. Antes eu acreditava que a maior mudança que este trabalho havia me dado era a de perceber que a força de um desenho é imensurável. Já hoje percebo que o que foi mais importante de verdade foi ter a oportunidade de criar obras onde pessoas de todas as classes sociais podiam ter acesso.

– Carnaval é euforia, mas também renovação e um monte de coisa mais. O que o Carnaval te ensinou e ensina?

Carnaval é tanto, né? É brincadeira, é transformação, é cultura, é todo mundo junto, é extravaso, é autoestima, é persona e personagem, é gastança de energia, é beijo na boca, é suor, é alma, é encontro, é riso, é cor, é aperto, é dor nas pernas, é reafirmação, é choro, é se deixar, é brilho, é paixão no talo, é comichão, é entender a dança da multidão… Como definir tanta emoção e aprendizado?

– Qual é seu roteiro imperdível em Olinda?

Faz anos que repito o mesmo roteiro. Este ano quero mesmo é me perder na multidão pra me achar de verdade.

Joana Lira, exposição “Quando a vida é uma euforia”, carnaval 2009_JOSIVAN RODRIGUES_1

Exposição: Quando a vida é uma euforia

Instituto Tomie Ohtake (rua Coropés, 88, Pinheiros, SP)

Abertura: 23/01, às 20h

Até 04/03 – grátis

De terça a domingo, das 11h às 20h (fechado no Carnaval do dia 10 ao dia 14 de fevereiro, ao meio-dia)

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#asmúsicasdeamor: Pérola Braz

por   /  07/11/2017  /  9:09

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Pedir uma playlist de músicas de amor para as pessoas é uma coisa maravilhosa. Cada escolha diz muito, dá pra sentir as emoções nas entrelinhas, sabe? Essa da Pérola Braz é um espetáculo, consegue juntar Stooges com brega, Jards Macalé com Lia de Itamaracá. Duas horas de pérolas, literalmente!

“Obrigada por me fazer juntar alguns hinos da minha vida, o peito inflou. Aqui é o seguinte, amor sem vergonha: potente, bonito que dói, vulnerável, entregue, esperançoso, atento, mágico, rasgado, safado. Pra mim, é exatamente como Luiz Gonzaga cantou: um cajá do tamanho de um melão, um elefante que caiba em minha mão, tamarindo doce como mel e rapadura amarga como fel. Não faz todo sentido? Cinismo, decepção, crueldade e indiferença não couberam aqui. fica pra uma próxima, hehe”, diz ela.

A imagem que ilustra é “da incrível série em processo ‘Insetos Transando’, de Clara Moreira“, completa.

Apenas ouçam esse presente!

#asmúsicasdeamor + #trilhadonttouch

Mais:

#asmúsicasdeamor: Ju Morganti

#asmúsicasdeamor: Guilherme Gatis

#asmúsicasdeamor: Juliana Alves

#asmúsicasdeamor: Sininho

#asmúsicasdeamor: Henrique Neto

#asmúsicasdeamor: Márcia Castro

#asmúsicasdeamor: Mariana Neri

#asmúsicasdeamor: Laís Sampaio

#asmúsicasdeamor: Laure Briard

#asmúsicasdeamor: Ivana Arruda Leite

#asmúsicasdeamor: Lulina

#asmúsicasdeamor: Miá Mello

#asmúsicasdeamor: Alexandre Matias

#asmúsicasdeamor: Diego de Godoy

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IMS Paulista, uma nova paixão para São Paulo

por   /  14/09/2017  /  11:11

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São Paulo ganhará no próximo dia 20/09 o Instituto Moreira Salles da avenida Paulista. Depois de 4 anos de obras e de expectativa, a cidade recebe um presente – e o público, um lugar maravilhoso para apreciar fotografia, arte, música, cinema. Ontem, na apresentação para a imprensa, fizemos uma visita guiada pelo prédio e suas exposições. E posso dizer sem dúvida: nasce um novo hit na cidade. Um daqueles lugares que vão ficar apinhados de gente, ainda mais com a Paulista aberta aos domingos.

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O IMS Paulista começa com cinco exposições, além da célebre videoinstalação “The Clock”, de Christian Marclay, que recebeu o Leão de Ouro na Bienal de Veneza, em 2011, tem 24 horas de duração e conta com milhares de cenas de TV e cinema que fazem referência ao horário do dia.

“Você sempre tem uma tensão em relação ao tempo. Quando você vai ao cinema, relaxa e sabe que vai sentar e ficar ali por duas horas. Aqui não. Você está sempre pensando no tempo de alguma maneira. O que cria essas pequenas narrativas que são sempre interrompidas é o som”, diz Heloísa Espada, coordenadora de artes visuais e curadora dessa exposição.

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O IMS exibe pela primeira vez no Brasil “Os americanos”, de Robert Frank, um dos ícones da fotografia. A série faz parte do repertório de quem ama fotografia, e ver ao vivo as 83 imagens que compõem o livro é um deslumbre. Entre 1955 e 1957, Frank percorreu os Estados Unidos para fazer retratos de todo tipo de gente. Fez mais de 28 mil fotos, que são um verdadeiro retrato da América profunda.

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Com auxílio do célebre fotógrafo Walker Evans, a viagem também rendeu um livro, que ganha versão brasileira publicada pelo IMS, em parceria com a editora alemã Steidl, celebrada por seu acervo de fotografia. “Pra mim é um verdadeiro curto circuito temporal. Me sinto devolvido para os anos 1950 nos Estados Unidos e, no momento seguinte, me sinto devolvido para esse presente tão conturbado, misturado, confuso que é agora dos Estados Unidos, mas também é do Brasil – e dessa própria avenida”, diz Samuel Titan Jr., um dos curadores da exposição.

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A mostra conta também com fotos inéditas que Frank fez em Manaus. Ele estava em uma viagem pelo Peru, que também originou um livro, e deu um pulo no Brasil. “A relação que ele estabelece com Brasil naquele momento. E também em 1956, que inclui fotos do Pierre Verger”, diz Sérgio Burgi, coordenador de fotografia e curador da exposição.

A mostra conta ainda com uma série de fotos de 24 livros de Frank impressas em formato banner, tomando a parede. Frames de filmes, várias edições do livro célebre e de mais outros. O IMS também vai exibir uma retrospectiva da filmografia de Frank, com 25 títulos, entre curtas, médias e longas-metragens. É emocionante ver as imagens de Frank ao vivo. Elas viraram referência de fotografia de rua, em que a técnica importa menos do que a expressão de quem é retratado, o momento que diz tanto ao ser congelado.

Brasil

“Corpo a corpo” mostra sete trabalhos desenvolvidos por artistas e coletivos brasileiros em parceria com Thyago Nogueira, coordenador de fotografia contemporânea do IMS e editor da revista Zum. Os artistas foram convidados a pensar como as imagens podem nos ajudar a enxergar os conflitos sociais que emergiram no Brasil nos últimos anos. “O mote da exposição é o uso do corpo como um elemento de representação social e atuação política – seja pela presença física e simbólica nos espaços públicos, seja como o veículo condutor da câmera, seja como lugar de expressão da individualidade, que aproxima e separa os indivíduos”, diz o IMS.

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Pra mim os destaques são os trabalhos de Bárbara Wagner. Em “À procura do quinto elemento”, ela retrata os candidatos de um concurso de MCs de uma famosa produtora de funk de São Paulo. São 52 fotografias e um vídeo que nos fazem pensar na música como passaporte para uma vida radicalmente da que eles têm.

Em “Terremoto Santo”, ela e o parceiro Benajmin de Burca fazem uma espécie de musical sobre cortadores de cana da zona da mata de Pernambuco que sonham em gravar um videoclipe gospel. É sensacional!

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“Eu, mestiço”, de Jonathas de Andrade, parte de uma pesquisa dos anos 1950 da Unesco em que fotografias de pessoas com diferentes tons de pele eram usadas como base de um questionário sobre quem parecia mais bonito, rico ou inteligente. O artista fez uma série de retratos com gente de diferentes partes do país para pensar sobre a relação que estabelecemos com a imagem.

A mostra conta ainda com trabalhos do coletivo Mídia Ninja, que exibe transmissões feitas entre 2013 e 2017 de vários protestos no país; “A máscara, o gesto, o papel”, de Sofia Borges, que mistura bocas e gestos de políticos do Congresso Nacianal; “Postais para Charles Lynch”, do coletivo Garapa, que surgiu a partir de notícias sobre linchamentos no Brasil e pesquisa de vídeos no Youtube sobre o tema.

Biblioteca

Pra completar, o IMS Paulista conta, ainda, com uma biblioteca maravilhosa dedicada à fotografia. Começa com 6.000 títulos, deve dobrar de capacidade em breve e tem espaço para 30 mil. Além de aquisições e doações, o acervo conta com coleções especiais de nomes como Stefania Bril, uma das primeiras críticas de fotografia do Brasil, Thomaz Farkas Iatã Cannabrava, Paulo Leite. Gerhard Steidl doou um conjunto completo de livros produzidos por sua prestigiada editora.

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O IMS conta ainda com ateliês e laboratório para cursos, workshops e oficinas, cinema, livraria e o restaurante Balaio, do chef Rodrigo Oliveira, do Mocotó. O prédio de 7 andares fica entre as ruas Consolação e Bela Cintra. Sua obra custou R$ 150 milhões. O IMS foi fundado em 1992 pelo banqueiro Walther Moreira Salles. É uma entidade civil sem fins lucrativos, vive de um fundo e não se vale de incentivos fiscais e patrocínio.

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IMS Paulista

Avenida Paulista, 2424

De terça a domingo, das 10h às 20h. Às quintas, até 22h

Entrada gratuita

ims.com.br

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“Canibal Vegetariano”, de Gabriel Pardal

por   /  25/07/2017  /  15:15

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Toda vez que surge no feed um post do @canibal.vegetariano o Instagram fica melhor, mais inteligente, ácido, provocativo. Em meio a tanto conteúdo genérico, igual, o perfil traz humor e sagacidade. Seu autor é o Gabriel Pardal, artista visual, ator e agora também pai do Tomás Zazu.

Por ocasião do lançamento do livro “Canibal Vegetariano”, no fim do ano passado, conversamos um pouco. Só agora (desculpa, Pardal!) publico. Espero que gostem.

– Quando e de onde surgiu o Canibal Vegetariano?

Sempre gostei de quadrinhos, cartuns, mangás, e, principalmente, sempre fui fascinado por tirinhas de jornal e revista, pela característica em ser simples, rápida e ao mesmo tempo dizer um monte de coisa. Há um tempo atrás eu tentei fazer umas tirinhas com personagens e tal, mas meu desenho não me agradava, eu achava feio. Então pensei: “e se eu fizer as tirinhas, mas sem os desenhos, só com o texto?”  Como eu gosto de fazer o que eu não sei fazer, é isso o que me instiga, é assim que desperto a liberdade imprescindível no processo criativo, fui fazendo e percebendo que a palavra escrita no papel já era por si só um desenho. Desenhar com palavras. Daí fica essa coisa meio confusa, as pessoas não sabem se é texto ou desenho e para confundir ainda mais eu respondo que “estou escrevendo uns desenhos”. Tenho sempre comigo um caderno e uma caneta. Escrevo ou faço anotações durante o dia inteiro em qualquer lugar. Eu gosto da simplicidade do processo. Desenho em cadernos, em folhas soltas, com canetas baratas, tiro uma foto e posto na internet. A literatura é a forma de expressão artística que eu mais gosto, justamente pela força da sua simplicidade, e por isso também gosto de considerar o Canibal Vegetariano literatura.
 
Por isso também que… Quando a editora Rocco me convidou para lançar um livro com alguns dos desenhos que eu já havia publicado no instagram e outros inéditos, topei na hora. Achei que ficaria bonito ver os desenhos que faço nos cadernos e publico na web voltar para o papel novamente.

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 – Adoro quando você fala de internet. A gente meio que perdeu a mão com tanta conexão?

Eu aprendi muito na internet, lendo, vendo filmes, trocando ideias nas comunidades, e também é o meio ambiente onde realizo meus trabalhos, é onde existe e funciona o Canibal Vegetariano, O Leitor, o ORNITORRINCO, etc. Considero ter uma relação saudável com o meio digital, não fico neurótico em responder às pessoas ou fazer um determinado números de postagens, respondo quando posso e posto quando quero. A internet é para mim fonte de conhecimento e espaço para minhas atividades, mas isso aconteceu quando aprendi a usar a ferramenta, a selecionar as fontes e montar minha rede de informações. Eu sou um viajante. Assim como no mundo, na internet podemos escolher entre sermos turistas ou viajantes. Os turistas são aqueles que apenas frequentam os cartões postais, os lugares que todo mundo conhece, e acabam tendo a mesma experiência programada para todos. Já os viajantes exploram os lugares, percorrem outras rotas, descobrem novos caminhos, têm uma avaliação mais profunda e diferenciada dos demais.Considero isso importante porque estamos saturados de informação. Diariamente recebemos novidades de milhares de fontes diferentes e para não ficar perdido é preciso escolher o que merece a nossa atenção. Assim como a gente deve escolher o que quer comer, diferenciar o que é porcaria do que é saudável, a gente também deve saber como alimentar a mente. O que merece a nossa atenção e o que é descartável.

O grande lance da internet é que podemos escolher o que queremos ler, ver, assistir. Mas será que estamos mesmo sabendo escolher o que ler? A liberdade nos está sendo útil ou continuamos presos nas manchetes, nas grandes corporações e nas listas dos mais lidos? A maioria dos usuários passa o dia nas redes sociais conversando, atualizando seus perfis, curtindo fotos, vendo vídeos, sendo que o Facebook é a principal fonte de informação deles. Eles acham que a internet é o Facebook. Pensar assim é o mesmo que achar que o mundo acaba no quintal de casa.

O Google diz que nos mostra os resultados mais relevantes e o Facebook nos mostra o que é mais importante. Mas o que é relevante? O que é importante? Eu entro pouco no Facebook e nunca leio a timeline porque não encontro nada que realmente me interesse, que me faça aprender mais. Para mim o Facebook é a nova TV, onde a maior parte do seu conteúdo é mais do mesmo, mais do mesmo, mais do mesmo.

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– Você é escritor, ator, diretor. Conta um pouco como você começou, o que já fez, o que tá fazendo e o que mais planeja?

Comecei há 32 anos atrás… Aquela frase “Levei minha vida toda para pintar este quadro”, quem foi que disse? Clarice? Luis Fernando Veríssimo? Silvio Santos? Não importa, é uma frase batida mas é verdade. Porque a vida toda está incluída nos estranhos caminhos da criação. Publiquei uns livros, faço teatro e cinema, desenho, mas para mim tudo vem do mesmo lugar. O que importa para mim como artista é a substância da obra, que pode ser chamada de ideia, conteúdo, mensagem, etc. Então tanto faz se é um texto, uma peça, um desenho, uma entrevista; o que me interessa não é o formato, é a questão. Além disso, o que aprendo no processo criativo como ator coloco no processo para escrever e vice-versa. Na prática acabei desenvolvendo um jeito próprio de fazer os trabalhos que eu faço. Vou fazer esses desenhos, mas não sou desenhista, e daí? O estilo do artista está justamente nas suas limitações.

No momento estou fazendo uma peça de teatro chamada “As Palavras e As Coisas”, com texto e direção do Pedro Brício. O filme “Tropykaos”, dirigido pelo Daniel Lisboa, vai estrear em 2017 nos cinemas. Os desenhos do Canibal Vegetariano eu continuo fazendo todos os dias e postando no Instagram e no Facebook. E estou terminando de escrever uma narrativa longa, que é provavelmente o meu projeto mais pessoal e a coisa mais importante que já fiz. Esse é o melhor exemplo para o que eu estava falando, porque estou escrevendo há dois anos mas conto sobre algo que aconteceu comigo há nove anos atrás. É daqueles trabalhos que a gente coloca tanto da gente que quando você me pergunta “o que mais planeja?” eu só penso que depois disso nunca mais vou fazer nada. Pode ser mentira, mas sentir isso é um jeito de entender que estou no caminho certo. Pelo menos pra mim.

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Canibal Vegetariano no instagram: instagram.com/canibal.vegetariano
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“Desejo Motivo”, o acontecimento de arte e afeto de Carolina Paz

por   /  23/06/2017  /  18:18

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“Desejo Motivo” é um acontecimento. Surgiu a partir de um pedido da artista plástica Carolina Paz, que fez uma chamada pedindo que as pessoas lhe enviassem cartas. Cartas sobre qualquer coisa, desde que fossem escritas em papel, enviadas pelos Correios. A ideia? Produzir uma pintura para cada uma delas.

O trabalho que vem sendo desenvolvido desde o final 2015. Na primeira semana de 2016, Carolina abriu uma chamada pública em redes sociais (e também na fachada do seu ateliê) para que interessados enviassem histórias, pedidos, desejos, assuntos, motivos para ela. Recebeu 44 cartas, fez 44 pinturas.

O processo se materializa para o público neste sábado, com uma exposição do Auroras, uma conversa sobre o processo com a artista, curador Divino Sobral, o crítico José Bento Ferreira e a artista Rivane Neuenschwander  e entrega dos trabalhos ao seus quase coautores. (Eu mandei uma carta, estou louca pra ver o resultado!)

Conversei com a artista sobre todo o processo, suas referências e tudo mais.

Desejo Motivo: acontecimento, de Carolina Paz
Sábado, 24 de junho, das 14 às 19 horas
Mesa redonda: 16:30 horas
Auroras – Avenida São Valério, 426, São Paulo
Informações: desejomotivo@carolinapaz.com

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– Como surgiu a ideia do Desejo Motivo?

Foi durante uma residência artística que fiz em Nova York, em 2014, acho que por conta da convivência com os outros artistas residentes, tive a vontade de incluí-los de alguma forma nas pinturas que eu estava fazendo. Eu estava procurando abrir mais meu repertório de imagens, não ficar só na figura humana e objetos “domésticos”. Pedi, então, que me dessem um “assunto” para pintar (não uma imagem, um assunto),  para eu pensar e, então, pintar uma imagem que trouxesse meu repertório meio que dando uma continuidade à conversa. Porque meu interesse continuava sendo (e ainda é) os relacionamentos, os contatos mais íntimos, algo de privado, afetivo… Então me empolguei e passei o ano seguinte, 2015, pensando em como fazer isso. Até saiu uma exposição na época, “Teoria dos Conjuntos”, com essas imagens.

Conversa vai, conversa vem (com outros artistas e amigos críticos, curadores), fui lapidando a ideia do “Desejo Motivo”. Desta vez, eu queria algo físico do outro, uma presença. Primeiro pensei nas pessoas virem no meu ateliê para conversar. Tipo consultório! (risos) Mas isso me pareceu que limitaria muito. Daí pensei nos textos, em receber textos, pedidos, histórias, causos, lista de compras de supermercado. E desta vez eu daria uma pintura em troca dessa presença, dessa disponibilidade à pessoa que se manifestasse, em vez de usar sua proposição como insumo de um trabalho que teria outro destino (a galeria, por exemplo). O trabalho neste momento já não era mais a pintura. Ela se tornava parte, uma peça, uma moeda. A obra é a rede de vínculos criada. Isso pra mim era a proposta do “Desejo Motivo” desde o começo, a intensidade disso é que realmente eu desconhecia, ou não me preocupei muito logo de saída.

Enfim… Ah! As cartas! Fazer tudo pela internet não me interessava porque, pra mim, o texto digital não tem a mesma textura do que o texto no papel (e o projeto comprovou isso). Então, cartas! Enviadas por correio ou entregues em mãos, não importa. E realmente valeu a pena, cada carta foi um surpresa. Rolou muita emoção no recebimento de cada uma. Há uma expectativa, uma chegada e uma presença.

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– Como foi a adesão?

Foi alta! Tanto que eu logo que saquei que a coisa ia crescer muito resolvi dar uma data limite muito antes do que eu havia imaginado. Foram apenas 3 meses para receber as cartas pois eu não daria conta. Achei que não haveria tanta gente disposta a ter o trabalho de escrever a mão, caprichar em um envelope, ir até os Correios (que foi o caso da maioria). Essa é uma primeira edição e foi muito experimental todo o processo, por isso quis limitar mais. Nesta recebi 44 cartas. Foram 44 pinturas. Uma parte de pessoas conhecidas, amigas mas uma outra parte de pessoas completamente desconhecidas que passei a me relacionar a partir do projeto. Demais, né?! Haverá outras edições e já penso em estabelecer algum critério diferente de limite, não necessariamente por data. E também, tenho vontade de abrir para outros idiomas que conheço e ampliar ainda mais o espectro dessa rede. Bom, mas isso são ideias ainda a lapidar.

– Conta como foi todo o processo? Da ideia ao recebimento das cartas passando pela produção das peças?

Cada carta, foi uma experiência singular. Eu lia, pensava, passava uns dias convivendo com ela, imaginando uma resposta não verbal e só então pintava. Algumas foram um processo mais suave, outras um embate de algumas idas e vindas. Não foi “pá pum”. Eu me propus viver cada leitura e cada pintura com a máxima intensidade. Apesar de pequenas (até para que todos os futuros transportes delas sejam bem fáceis e ela possam voltar a conviver eventualmente em quantidade e com outras de novas edições) elas deram trabalho. Não foi fácil. É muito mais fácil pintar a partir de uma pesquisa solitária, criando no ateliê o que der na veneta. Quando abri esse vínculo, a coisa complicou. Mas foi um desafio incrível em vários níveis. Foi uma experiência que me transformou.

– Teve algum momento em que você pensou em desistir?

Claro! Muitas vezes! (risos) Teve momento que sofri pra valer. Teve história que até agora não sei se consegui entrar direito nela, sabe? Será que é assim que um psicanalista se sente?! Lembrei muita da minha! Por que será?! (risos)
Mas o compromisso é algo incrível. Esse compromisso em dar uma devolutiva tão precisa e pontual: “uma pintura a óleo e ponto final” dá um super norte e prossegui. Claro que agora no final (dessa etapa) estou surpresa com o tamanho que a coisa toda tomou. Eu consigo perceber sua força e ela é tremenda. Acho que todos os envolvidos percebem ou perceberão, com mais ou menos intensidade, isso também. Passar batido não dá. Tem muita coisa aí.

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– O que você aprendeu com o processo?

Nossa! Muita coisa. Desde mais repertório formal com a pintura como linguagem até essa camada de quarta dimensão que é quando a obra acontece dentro do espectador, dentro dos participantes (eu inclusa). É um lamaçal fértil, infinito, de possibilidades poéticas. É muito repertório, muito desdobramento. Aprendi que arte interessa, que as pessoas desejam conviver com ela e se manifestar através dela. As cartas que recebi são objetos de arte pra mim. Sinto-me privilegiadíssima em ser portadora desses objetos que não são só seus conteúdos. Aprendi também que o amor é o assunto mais universal mesmo e que o sentimos ainda mais presente quando ele parece nos faltar. É muito locou, muito humano. Fico tão contente em ter empreendido com esse projeto em tempos de sérios dramas políticos, ambientais e sociais tão lamentáveis em todo o planeta. É um alento conviver com essa rede do “Desejo Motivo” com tanta doação e entrega. Isso dá ao projeto um caráter político, ele ganha mais força e importância pois trata-se um esforço em ir contra o clima de desconfiança, encapsulamento e discórdia que parece estar dominando nosso cotidiano. Enquanto, ao que parece, vivemos tempos de divergências, neste projeto a gente converge. Mesmo que não vençamos no final, esse esforço em compartilhar sempre valerá a pena.

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– Conta da sua trajetória como artista? Quando você começou, quais suas principais referências, qual legado você quer deixar pro mundo?

Minha formação é em ciências sociais e foi através dos pensamentos sociológico e antropológico que acabei me aproximando das artes visuais. Foi um processo bem sutil de transformação. Ainda me identifico com a cientista social apesar de efetivamente me intitular artista. Meu interesse, desde o começo, são as pessoas na intimidade, na minha intimidade, da minha intimidade, nossas identidades, práticas cotidianas, repertórios (não necessariamente, ou não somente, memórias). Durante meu percurso percebo que sempre mantive a atenção ao pessoal, ao indivíduo, e não à representação de algo mais generalizado socialmente, entende? Claro que o contexto social entra de alguma forma, é inevitável, mas acho que ele é indireto. A pessoa, o sujeito vem em primeiro plano. É um movimento do micro para o macro. Comecei com retratos, fui às cenas domésticas, trabalhei com objetos da intimidade e dos afetos (travesseiros, louças, café e açúcar etc)… Hoje o repertório imagético está bem expandido e as pessoas, que ainda continuam em primeiro plano, são mais integradas e associadas ao trabalho e entre si (acho que cheguei nesse ponto com “Desejo Motivo”), elas são parte da obra e não apenas o assunto ou o espectador num sentido mais tradicional, que seria separado do trabalho.

Minhas referências são muito diversas e não ficam só nas artes. São muitas mesmo. Atualmente, tenho me dedicado aos estudos sobre a ética de Espinosa (a partir de Deleuze) e tenho olhado muito para artistas como Rivane Neuenschwander, Cildo Meireles e Lygia Clark. Isso hoje, essa lista de referências é bem comprida.

Sobre legado não penso nisso. Vou vivendo e só. Acho que a gente pensa em “salvar o mundo” ou “fazer história” até a faixa dos 20 anos, depois a gente descobre que há tanto de relativo e tanto de impotência na própria existência humana que isso fica desimportante. Pelo menos pra mim! (risos) Se eu puder viver o melhor de mim cada dia, ajudar às pessoas a serem o melhor delas, a cada dia, através da arte, da conversa, enfim, do convívio, tá ótimo, excelente, super! Não vivo minha vida pra mim, nem pra minha arte. Cultivo a vida que há em mim a serviço dos vivos, dos demais seres viventes. Vida pela vida? Acho que é por aí… Bom… Melhor deixar em aberto com muita pausa, lacuna, suspensão, esgarçamento e reticência…

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