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“Desejo Motivo”, o acontecimento de arte e afeto de Carolina Paz

por   /  23/06/2017  /  18:18

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“Desejo Motivo” é um acontecimento. Surgiu a partir de um pedido da artista plástica Carolina Paz, que fez uma chamada pedindo que as pessoas lhe enviassem cartas. Cartas sobre qualquer coisa, desde que fossem escritas em papel, enviadas pelos Correios. A ideia? Produzir uma pintura para cada uma delas.

O trabalho que vem sendo desenvolvido desde o final 2015. Na primeira semana de 2016, Carolina abriu uma chamada pública em redes sociais (e também na fachada do seu ateliê) para que interessados enviassem histórias, pedidos, desejos, assuntos, motivos para ela. Recebeu 44 cartas, fez 44 pinturas.

O processo se materializa para o público neste sábado, com uma exposição do Auroras, uma conversa sobre o processo com a artista, curador Divino Sobral, o crítico José Bento Ferreira e a artista Rivane Neuenschwander  e entrega dos trabalhos ao seus quase coautores. (Eu mandei uma carta, estou louca pra ver o resultado!)

Conversei com a artista sobre todo o processo, suas referências e tudo mais.

Desejo Motivo: acontecimento, de Carolina Paz
Sábado, 24 de junho, das 14 às 19 horas
Mesa redonda: 16:30 horas
Auroras – Avenida São Valério, 426, São Paulo
Informações: desejomotivo@carolinapaz.com

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– Como surgiu a ideia do Desejo Motivo?

Foi durante uma residência artística que fiz em Nova York, em 2014, acho que por conta da convivência com os outros artistas residentes, tive a vontade de incluí-los de alguma forma nas pinturas que eu estava fazendo. Eu estava procurando abrir mais meu repertório de imagens, não ficar só na figura humana e objetos “domésticos”. Pedi, então, que me dessem um “assunto” para pintar (não uma imagem, um assunto),  para eu pensar e, então, pintar uma imagem que trouxesse meu repertório meio que dando uma continuidade à conversa. Porque meu interesse continuava sendo (e ainda é) os relacionamentos, os contatos mais íntimos, algo de privado, afetivo… Então me empolguei e passei o ano seguinte, 2015, pensando em como fazer isso. Até saiu uma exposição na época, “Teoria dos Conjuntos”, com essas imagens.

Conversa vai, conversa vem (com outros artistas e amigos críticos, curadores), fui lapidando a ideia do “Desejo Motivo”. Desta vez, eu queria algo físico do outro, uma presença. Primeiro pensei nas pessoas virem no meu ateliê para conversar. Tipo consultório! (risos) Mas isso me pareceu que limitaria muito. Daí pensei nos textos, em receber textos, pedidos, histórias, causos, lista de compras de supermercado. E desta vez eu daria uma pintura em troca dessa presença, dessa disponibilidade à pessoa que se manifestasse, em vez de usar sua proposição como insumo de um trabalho que teria outro destino (a galeria, por exemplo). O trabalho neste momento já não era mais a pintura. Ela se tornava parte, uma peça, uma moeda. A obra é a rede de vínculos criada. Isso pra mim era a proposta do “Desejo Motivo” desde o começo, a intensidade disso é que realmente eu desconhecia, ou não me preocupei muito logo de saída.

Enfim… Ah! As cartas! Fazer tudo pela internet não me interessava porque, pra mim, o texto digital não tem a mesma textura do que o texto no papel (e o projeto comprovou isso). Então, cartas! Enviadas por correio ou entregues em mãos, não importa. E realmente valeu a pena, cada carta foi um surpresa. Rolou muita emoção no recebimento de cada uma. Há uma expectativa, uma chegada e uma presença.

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– Como foi a adesão?

Foi alta! Tanto que eu logo que saquei que a coisa ia crescer muito resolvi dar uma data limite muito antes do que eu havia imaginado. Foram apenas 3 meses para receber as cartas pois eu não daria conta. Achei que não haveria tanta gente disposta a ter o trabalho de escrever a mão, caprichar em um envelope, ir até os Correios (que foi o caso da maioria). Essa é uma primeira edição e foi muito experimental todo o processo, por isso quis limitar mais. Nesta recebi 44 cartas. Foram 44 pinturas. Uma parte de pessoas conhecidas, amigas mas uma outra parte de pessoas completamente desconhecidas que passei a me relacionar a partir do projeto. Demais, né?! Haverá outras edições e já penso em estabelecer algum critério diferente de limite, não necessariamente por data. E também, tenho vontade de abrir para outros idiomas que conheço e ampliar ainda mais o espectro dessa rede. Bom, mas isso são ideias ainda a lapidar.

– Conta como foi todo o processo? Da ideia ao recebimento das cartas passando pela produção das peças?

Cada carta, foi uma experiência singular. Eu lia, pensava, passava uns dias convivendo com ela, imaginando uma resposta não verbal e só então pintava. Algumas foram um processo mais suave, outras um embate de algumas idas e vindas. Não foi “pá pum”. Eu me propus viver cada leitura e cada pintura com a máxima intensidade. Apesar de pequenas (até para que todos os futuros transportes delas sejam bem fáceis e ela possam voltar a conviver eventualmente em quantidade e com outras de novas edições) elas deram trabalho. Não foi fácil. É muito mais fácil pintar a partir de uma pesquisa solitária, criando no ateliê o que der na veneta. Quando abri esse vínculo, a coisa complicou. Mas foi um desafio incrível em vários níveis. Foi uma experiência que me transformou.

– Teve algum momento em que você pensou em desistir?

Claro! Muitas vezes! (risos) Teve momento que sofri pra valer. Teve história que até agora não sei se consegui entrar direito nela, sabe? Será que é assim que um psicanalista se sente?! Lembrei muita da minha! Por que será?! (risos)
Mas o compromisso é algo incrível. Esse compromisso em dar uma devolutiva tão precisa e pontual: “uma pintura a óleo e ponto final” dá um super norte e prossegui. Claro que agora no final (dessa etapa) estou surpresa com o tamanho que a coisa toda tomou. Eu consigo perceber sua força e ela é tremenda. Acho que todos os envolvidos percebem ou perceberão, com mais ou menos intensidade, isso também. Passar batido não dá. Tem muita coisa aí.

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– O que você aprendeu com o processo?

Nossa! Muita coisa. Desde mais repertório formal com a pintura como linguagem até essa camada de quarta dimensão que é quando a obra acontece dentro do espectador, dentro dos participantes (eu inclusa). É um lamaçal fértil, infinito, de possibilidades poéticas. É muito repertório, muito desdobramento. Aprendi que arte interessa, que as pessoas desejam conviver com ela e se manifestar através dela. As cartas que recebi são objetos de arte pra mim. Sinto-me privilegiadíssima em ser portadora desses objetos que não são só seus conteúdos. Aprendi também que o amor é o assunto mais universal mesmo e que o sentimos ainda mais presente quando ele parece nos faltar. É muito locou, muito humano. Fico tão contente em ter empreendido com esse projeto em tempos de sérios dramas políticos, ambientais e sociais tão lamentáveis em todo o planeta. É um alento conviver com essa rede do “Desejo Motivo” com tanta doação e entrega. Isso dá ao projeto um caráter político, ele ganha mais força e importância pois trata-se um esforço em ir contra o clima de desconfiança, encapsulamento e discórdia que parece estar dominando nosso cotidiano. Enquanto, ao que parece, vivemos tempos de divergências, neste projeto a gente converge. Mesmo que não vençamos no final, esse esforço em compartilhar sempre valerá a pena.

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– Conta da sua trajetória como artista? Quando você começou, quais suas principais referências, qual legado você quer deixar pro mundo?

Minha formação é em ciências sociais e foi através dos pensamentos sociológico e antropológico que acabei me aproximando das artes visuais. Foi um processo bem sutil de transformação. Ainda me identifico com a cientista social apesar de efetivamente me intitular artista. Meu interesse, desde o começo, são as pessoas na intimidade, na minha intimidade, da minha intimidade, nossas identidades, práticas cotidianas, repertórios (não necessariamente, ou não somente, memórias). Durante meu percurso percebo que sempre mantive a atenção ao pessoal, ao indivíduo, e não à representação de algo mais generalizado socialmente, entende? Claro que o contexto social entra de alguma forma, é inevitável, mas acho que ele é indireto. A pessoa, o sujeito vem em primeiro plano. É um movimento do micro para o macro. Comecei com retratos, fui às cenas domésticas, trabalhei com objetos da intimidade e dos afetos (travesseiros, louças, café e açúcar etc)… Hoje o repertório imagético está bem expandido e as pessoas, que ainda continuam em primeiro plano, são mais integradas e associadas ao trabalho e entre si (acho que cheguei nesse ponto com “Desejo Motivo”), elas são parte da obra e não apenas o assunto ou o espectador num sentido mais tradicional, que seria separado do trabalho.

Minhas referências são muito diversas e não ficam só nas artes. São muitas mesmo. Atualmente, tenho me dedicado aos estudos sobre a ética de Espinosa (a partir de Deleuze) e tenho olhado muito para artistas como Rivane Neuenschwander, Cildo Meireles e Lygia Clark. Isso hoje, essa lista de referências é bem comprida.

Sobre legado não penso nisso. Vou vivendo e só. Acho que a gente pensa em “salvar o mundo” ou “fazer história” até a faixa dos 20 anos, depois a gente descobre que há tanto de relativo e tanto de impotência na própria existência humana que isso fica desimportante. Pelo menos pra mim! (risos) Se eu puder viver o melhor de mim cada dia, ajudar às pessoas a serem o melhor delas, a cada dia, através da arte, da conversa, enfim, do convívio, tá ótimo, excelente, super! Não vivo minha vida pra mim, nem pra minha arte. Cultivo a vida que há em mim a serviço dos vivos, dos demais seres viventes. Vida pela vida? Acho que é por aí… Bom… Melhor deixar em aberto com muita pausa, lacuna, suspensão, esgarçamento e reticência…

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Trilha: Glamuarama @ Trancoso

por   /  22/12/2016  /  9:09

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Playlist especial: Glamurama em Trancoso, com muita música brasileira! E mais uma Cesaria Evora aqui, um Beck ali, uma versão linda da Laya pra “Como 2 e 2”, a “Varanda suspensa” da Céu, uma Elza Soares das antigas, o “Transeunte coração” da Ava Rocha…

Vai ser a trilha do verão da Casa Glamurama na Bahia. Achei demais fazer isso!

Para saber mais > http://glamurama.uol.com.br/sobe-o-som-dani-arrais-entrega-playlist-que-vai-ferver-no-verao-de-trancoso/

Dá o play?

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Trilha: Coquetel Molotov, 13 anos

por   /  20/10/2016  /  13:13

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O Coquetel Molotov é da maior importância. O festival existe há 13 anos e é feito no Recife (e hoje se espalha por outras cidades, como Belo Horizonte, e faz shows especiais em outras, como São Paulo). Imagina 13 anos atrás ter a chance de ver, fora do eixo Rio-São Paulo, shows de bandas que foram fundamentais para a formação de um monte de gente que é apaixonada por música? Meu coração indie chora e até hoje lembra da comoção que foi o Teenage Fanclub tocando “Your love is the place where I come from”. Acho incrível a dedicação que Ana Garcia, Jarmerson de Lima e toda trupe têm pelo festival. É para quem ama música, é para formar público, é para estreitar fronteiras.

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Em comemoração ao início da adolescência do festival, Aninha fez uma playlist especial para o Don’t Touch. Ela explica e relembra alguns momentos da trajetória:

“Achei que seria difícil fazer uma playlist dos 13 anos do festival No Ar Coquetel Molotov, mas ela saiu naturalmente e foi gostoso relembrar que já tivemos tantos artistas incríveis no festival. O festival passou por diversas fases e durante muitos anos os integrantes do Hurtmold faziam parte da programação com os seus projetos paralelos. Dinosaur Jr. foi com certeza a turnê mais divertida que fizemos. Rodamos o país com os nossos ídolos que por nossa surpresa foram incríveis e ainda tocaram em Salvador! Teenage Fanclub foi a banda que nos motivou a começar essa história toda de festival e trazer gringos para o Brasil. Eu nunca consigo acreditar que uma banda sueca cantando em sueco encerrou uma das noites do festival. Dungen fez isso em 2005. CocoRosie foi um dos shows mais especiais que já vi na vida. Acho que todo mundo que esteve neste show lembra até hoje. Soko, Hundi Zahra e Sebastien Tellier foram algumas das bandas melhores francesas que trouxemos. Beirut foi talvez o show mais difícil e complicado que fizemos, mas valeu todo esforço. Carne Doce fez talvez uns dos melhores shows do ano passado e lançou agora o segundo disco “Princesa”. Club 8 e toda a Invasão Sueca foi uma experiência surreal. Lulina veio em mente porque era a banda recifense que mora em São Paulo e traz uma nostalgia gostosa. Thiago Pethit talvez seja uma das relações mais especiais que criei por causa do festival. Jaloo vem este ano com o seu disco novo e, apesar dele ter tocado em 2014, parece que o público daqui só acordou para ele agora. a sua música começou a propagar agora. Beans pelo seu show energizante. Racionais MCs por ter sido a maior loucura que fizemos no Teatro da UFPE. Miike Snow por ter o melhor técnico de luz de todos os tempos. Boogarins por ter o meu amor.”

Vamos ouvir? ♡

Ah, o Coquetel Molotov acontece no sábado (22/10) na Coudelaria Souza Leão, em Recife. Entre as atrações, Céu (SP), BaianaSystem (BA), Karol Conká (PR), Boogarins (GO), Jaloo (PA), Baleia (RJ), Tagore (PE), Luneta Mágica (AM), Barro (PE), Ventre (RJ), Phalanx Formation (PE), Rakta (SP) e AMP (PE), Deerhoof (EUA), Moodoïd (França) e Los Nastys (Espanha). Mais em > facebook.com/events/1800288883532928

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Trilha: Inky, música eletrônica com pegada rock made in Brasil

por   /  13/10/2016  /  15:15

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De vez em quando entro numas de ouvir música eletrônica made in Brasil. E gosto bastante, ainda mais quando tem uma pegada de rock. Conheci a Inky com “Parallels”, o primeiro EP, que foi lançado em 2010. De lá pra cá, curti o clipe de “Baião”, vi um show em algum lugar que não lembro e, agora, tenho ouvido “Animania”, o segunda álbum do grupo formado por Luiza Pereira (vocais e sintetizadores), Guilherme Silva (baixo), Stephan Feitsma (guitarra) e Luccas Villela (bateria). A produção é de Guilherme Kastrup, que assina, entre tantos outros, “A mulher do fim do mundo”, de Elza Soares.

Ouçam o disco > https://www.youtube.com/watch?v=j46melKgk_E

Pedi pra Luiza uma playlist com suas principais influências, que vão de PJ Harvey a Savages, passando por Janis Joplin, Pixies e Warpaint. Ouçam!

Aproveitei pra bater um papo rápido com ela, espero que gostem!

Ah, a banda faz show no próximo domingo, em São Paulo. Saiba mais > www.facebook.com/events/1052784464777526

– Conta um pouco da sua história? Como você começou a cantar? Quais foram suas principais influências?

Comecei a fazer aulas de música desde muito pequena, com 4/5 anos. Primeiro iniciação musical e depois aulas de piano. Nessa mesma época comecei a querer cantar me acompanhando no piano e achava mais fácil me expressar assim; a voz é um instrumento muito pessoal, cantar é um processo de autoconhecimento, de desvendar o seu instrumento e se descobrir. Gostava muito do jazz e de cantar standards clássicos. Uns anos depois, descobri o rock, a Björk, o Thom Yorke, a Beth Gibbons (e outros vários) e fui descobrindo minha personalidade artística no meio disso. Já no synth, tive uma grande influencia do “disco punk”, dos anos 80 e do trip hop.

– Como é ser mulher no mercado da música? É um espaço de mais acolhimento ou ainda tem bastante preconceito?

Acho que poucos mercados de trabalho são acolhedores pras mulheres. Salvo aqueles de carreiras consideradas “femininas”. O mercado musical é extremamente masculino. Desde produtores, engenheiros de som, roadies, músicos… E ser mulher nesse mercado é ser constantemente testada, subestimada e desrespeitada. Já ouvi homens questionando se eu sabia ligar meu instrumento, se eu tocava com playback, já fui assediada, já ouvi que eu tava na banda porque “era legal como marketing”, enfim… Ainda tem essa mentalidade de que mulher não tem capacidade e somos reduzidas ao nosso gênero e à nossa aparência. Mas isso tá mudando aos poucos, e fico feliz de ver cada vez mais mulheres trabalhando no mercado e mostrando qualidade e competência.

– Qual caminho você espera seguir com a INKY? Conta como vocês começaram, como estão atualmente e quais os planos pro futuro?

A gente começou a tocar em 2010. O Gui (baixista) tinha um projeto de musica eletrônica com baixo ao vivo e queria que isso virasse uma banda. Na época, eu tinha 17 anos e tinha acabado de comprar um synth e ele me chamou pra fazer um ensaio com outros integrantes e ver no que dava. A INKY nasceu e eu tô na banda desde então 🙂
Lançamos nosso segundo disco, Animania, em agosto desse ano e começamos a fazer os shows desse disco e a absorver essa nova fase. Espero que a gente continue crescendo, tocando pelo Brasil e pelo mundo e podendo trabalhar com pessoas que a gente admira.

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