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A fotografia sentimental de Juliana Rocha

por   /  30/10/2015  /  11:00

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Juliana Rocha trocou Fortaleza pelo Rio de Janeiro para fazer jornalismo. Ainda na faculdade, se deu conta de que palavras não seriam suficientes para contar tudo o que ela queria. Encantou-se pela fotografia. Quando decidiu fazer fotos de sua Copacabana Sentimental para o Instagram, viu o número de seguidores ultrapassar os 20.000. A série também virou livro.

Agora, ela investiga o nu e todas as suas possibilidades. Quando junta o novo tema ao antigo, cria cenas idílicas, que nos fazem imaginar histórias para seus personagens. Sua vontade é envolver gente na mágica desse negócio que é fotografar. “É como se as fotos estivessem prontas, boiando em alguma outra dimensão, esperando que alguém apareça no momento exato pra trazê-las pro nosso mundo visível. Parece papo de maluco, mas às vezes eu sinto um magnetismo numa cena e eu fotografo como se tudo tivesse muito orquestrado… Nada pode ser mais apaixonante do que isso, sentir essa dança do universo”, diz ela em entrevista ao Don’t Touch.

Na entrevista abaixo, ela conta como começou a se expressar pela fotografia, como é seu processo criativo e muito mais.

Para acompanhar o trabalho dela > www.instagram.com/rochajuliana

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Eu entendo a fotografia como um buraco negro, rs. Pra mim, a mágica na fotografia é esse poder de se descolar do espaço e do tempo, é como criar uma nova realidade, um novo universo. Aí eu acho que vou me afundando nessa vontade de mostrar/descolar esses universos escondidos, de contar histórias misteriosas, de falar sobre a existência, sobre o medo, sobre as coisas que a gente não fala. Tem uma coisa de introspecção e delicadeza, de feminino e força, não sei. Provavelmente quem vê as fotos tem um olhar muito diferente.

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Eu adoro sair com a câmera por ai e poder fotografar o que me aparecer pela frente, se eu quiser. Mas às vezes algumas ideias pipocam na minha cabecinha e eu começo a pensar esteticamente em projetos e depois vou entendendo o que aquelas ideias significam e o que eu tô querendo dizer com aquilo. Parece um processo meio trocado, mas minha imaginação tem existência própria e ela supera todas as minhas intenções teóricas. Então sei lá, eu sigo obedecendo.

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Acho que eu me apaixonei pela ideia de poder dizer alguma coisa através de um clique. Não parece – eu acho –, mas eu sou muito tímida com minhas investidas artísticas, então acho que eu embuti na fotografia uma vontade reprimida de ser escritora. Aí eu sinto que tô sempre querendo contar uma história quando eu penso numa foto, mas eu realmente não me importo que a história seja clara, quanto mais misteriosa e inacabada, melhor.

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E tem uma mágica nesse negócio de fotografar, vai envolvendo a gente. É como se as fotos estivessem prontas, boiando em alguma outra dimensão, esperando que alguém apareça no momento exato pra trazê-las pro nosso mundo visível. Parece papo de maluco, mas às vezes eu sinto um magnetismo numa cena e eu fotografo como se tudo tivesse muito orquestrado… Nada pode ser mais apaixonante do que isso, sentir essa dança do universo.

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Sou de Fortaleza e foi lá que eu vivi até os 18. Mudei pro Rio pra fazer faculdade, cursei jornalismo na UFRJ. Mas no meio disso eu entendi que escrever sobre a realidade não daria conta dos meus anseios criativos, ai comecei a fotografar… No meio disso eu conheci o RIOetc,  no Carnaval de 2010 e é onde eu trabalho desde então. Hoje sou sócia e editora. E foi lá que eu aprendi quase tudo, como ser cara de pau pra pedir foto, transformar uma cena corriqueira da cidade em algo singular, pensar em enquadramentos e associar a cidade com as pessoas na velocidade da luz.

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Mas o RIOetc também não deu conta de meus anseios criativos, e aí eu comecei a fotografar a praia onde eu corria, com o objetivo de fazer uma série engraçadinha no Insta. Assim nasceu o Copacabana Sentimental, que virou um livro no fim do ano passado. Mas nasceu também uma vontade de extrair poesia dos momentos ‘perdidos’ dos nossos dias, dos momentos em que nós mergulhamos no ambiente e formamos um quadro maior, extrapolando nossos corpos… Sabe? Nasceu uma vontade de sempre estar contando uma história, ou de pelo menos estar sugerindo uma história. Hoje eu sinto que se eu parar de fazer isso, eu vou parar de amar o que eu faço. Nesse ano eu comecei a fotografar em filme e já consegui fazer uma pequena exposição com alguns estudos de nu. Foi no Complex Esquina 111 e eu chamei de ‘Beira’. Eu tô completamente apaixonada pelo mistério e pelo processo de voltar pro analógico e pretendo ser fiel.

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Eu adoraria que minhas fotos tivessem o poder acender qualquer chaminha nas pessoas, fazê-las mergulhar um pouco em si próprias, sentir alguma coisa, evocar alguma memória… Tenho medo de entrar na categoria ‘do que é bonito’, prefiro que o significado supere a estética, ou melhor, que a estética engrandeça o significado. Quando eu tava fografando a praia de Copacabana, essa era uma missão bem difícil, e as pessoas entendiam como foto de paisagem, mas nunca foi isso. Hoje, que eu fotografo coisas estranhas e uns nus estranhos, ficou mais claro, hahaha!

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Vejam todos os posts da série:

Paulo Fehlauer e a fotografia guiada por sensações + #retratosanônimostakeover por @fehlauer

A noite sem filtros de Luara Calvi Anic + #retratosanônimostakeover por @luaracalvianic

Corpo em desclocamento na fotografia de Patricia Araújo + #retratosanônimostakeover por @patiaraujo

A busca pela pureza na fotografia de Bruna Valença + #retratosanônimostakeover por @brunavalenca

O mundo dos sonhos de Cassiana Der Haroutiounian

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#galeriadonttouch: Cassiana Der Haroutiounian

por   /  28/10/2015  /  18:30

jh engstrom

#galeriadonttouch: Cassiana Der Haroutiounian

“Fotografia pra mim sempre foi poder entrar em diferentes camadas de realidade e de mim mesma. Fotos que eu vejo, fotos que me atravessam. Adoro ver tudo, de todos os cantos e de todos os estilos. Mas preciso sentir as imagens pra querer guardá-las e deixar naquela caixinha de coisas boas e de inspirações. Penso em um sentimento, lembro de uma foto. Penso em um projeto, acesso a gavetinha das imagens e saem mais ideias. Sou movida por elas. O tempo todo, em tudo. Essas escolhidas são das queridinhas por tudo isso e teria todas, todinhas nas paredes da minha casa”, diz ela.

Mais sobre ela > O mundo dos sonhos de Cassiana Der Haroutiounian

No Catarse, sua campanha para rodar um filme > Corpo-espelho

A primeira foto é de JH Engstrom.

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Henri Cartier-Bresson

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Duane Michals

malick sidibé

Malick Sidibé

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Nan Goldin

anders petersen

Anders Petersen

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Hervé Guibert

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Elina Brotherus

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Aida Chehrehgosha

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Ren Hang

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Robert Mapplethorpe

Sasha Kurmaz

Sasha Kurmaz

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Wolfgang Tillmans

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Na TV com Simone de Beauvoir

por   /  28/10/2015  /  15:00

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Já experimentou deixar de lado o feed do Face por uma manhã para aproveitar os vídeos longos do YouTube? Fiz isso essa semana e, entre outras coisas, assisti a uma entrevista da Simone de Beauvoir para a TV francesa, em 1975.

A feminist, whether she calls herself leftist or not, is a leftist by definition. She is struggling for total equality, for the right to be as important, as relevant, as any man. Therefore, embodied in her revolt for sexual equality is the demand for class equality. In a society where the male can be the mother, where, say, to push the argument on values so it becomes clear, the so-called “female intuition” is as important as the “male’s knowledge” – to use today’s absurd language – where to be gentle or soft is better than to be hard and tough, in other words, in a society where each person’s experiences are equivalent to any other, you have automatically set up equality, which means economic and political equality and much more. Thus, the sex struggle embodies the class struggle, but the class struggle does not embody the sex struggle. Feminists are, therefore, genuine leftists. In fact, they are to the left of what we now traditionally call the political left.

A while ago we were talking about how the MLF has helped women gain sisterhood. affection for each other, and so on. That might have created the impression that I think women are now better off. They’re not. The struggle is just beginning, and in the early phases it makes life much harder. Because of the publicity the word “liberation” is on the tip of the tongue of every male, whether aware of sexual oppression of women or not. The general attitude of males now is that “well, since you’re liberated. Let’s go to bed.” In other words, men are now much more aggressive, vulgar, violent. In my youth we could stroll down Montparnasse or sit in cafés without being molested. Oh, we got smiles, winks, stares, and so on. But now it’s impossible for a woman to sit alone in a café reading a book. And if she’s firm about being left alone when the males accost her, their parting remark is most often salope [bitch] or putain [whore]. There’s much much more rape now. In general, male aggressiveness and hostility has become so common that no woman feels at ease in this town, and from what I hear in any town in America. Unless, of course, women stay at home. And that’s what lies behind this male aggressiveness: the threat which, in male eyes, women’s liberation represents has brought out their insecurity, hence their anger resulting that they now tend to behave as if only women who stay at home are “clean” while the others are easy marks. When women turn out not to be such easy marks, the men become personally challenged, so to speak. Their one idea is to “get” the woman.

Vejam também!

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O machismo disfarcado naquela piadinha do whatsapp

por   /  28/10/2015  /  11:00

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Já contei pra vocês que tenho uma coluna no portal MdeMulher? \o/

Meu texto mais recente é um relato de uma situação péssima que aconteceu enquanto eu fazia um curso. Escrever foi difícil, mas acabou servindo para várias coisas: primeiro, para desabafar, colocar pra fora o que ficou preso na garganta; segundo, pra descobrir centenas de pessoas que se identificaram com a situação e que não aguentam mais; terceiro, pra me dar certeza de que o silêncio nunca mais vai ser uma opção.

Espero que vocês gostem!

Para ler > O machismo disfarçado naquela piadinha do Whatsapp

#primeiroassedio

por   /  27/10/2015  /  20:00

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Quem usa Twitter e Facebook já deve ter se deparado com a hashtag #primeiroassedio, que surgiu na semana passada e já reúne milhares de histórias. Ler esses relatos traz muita dor e revolta. Ao mesmo tempo, nos dá força. Todas nós temos histórias assim pra contar. Elas ficaram escondidas por muito tempo, mas uma vez que começaram a ser expostas, acabaram nos deixando próximas, mais fortes, com a certeza de que nunca mais ficaremos caladas diante de absurdos.

A campanha foi criada pelo Think Olga, think thank feminista que eu admiro diariamente. Em um post no site, a Juliana de Faria, idealizadora do movimento, conta sobre seu #primeiroassedio e fala sobre os desdobramentos da campanha. Não deixem de ver a fala emocionante dela no TEDxSão Paulo (tem no fim deste post também).

Uma menina de 12 anos se inscreve no programa de televisão, pois ama cozinhar. Na internet, homens se sentem atraídos por sua aparência e, ignorando sua idade, resolvem tecer comentários de cunho sexual sobre a criança. o fato gera revolta nas redes sociais, mas não é preciso ir longe para encontrar histórias parecidas: basta pedir para que as mulheres olhem para o próprio passado.

Quando elas são convidadas a contar a história da primeira vez que sofreram assédio, descobrimos que esse comportamento é muito mais comum do que se imagina – e só é preciso imaginar pois esse terror vive escondido sob um manto de culpa e segredo tecido pelo machismo para acobertar os homens e culpar as vítimas. (…)

Nossa jornada contra a violência contra a mulher, via Chega de Fiu Fiu, nos mostrou que, enquanto mulheres, NÃO temos o controle da nossa vida sexual. Somos iniciadas por meio de um ritual bárbaro e sádico – e grande parte dos crimes, 65%, são cometidos por conhecidos. Ou seja, aqueles em que mais deveríamos confiar. Adentramos, então, nessa área tão delicada da vida de forma totalmente despreparada, cheias de dores, traumas e ansiedades.

Mas também descobrimos que anos de silêncio têm a capacidade de tornar as vozes ensurdecedores quando redescobertas. Nunca duvide do poder das redes sociais para provocar reflexão e empoderamento. A Internet é feita de pessoas e é a partir delas que as mudanças acontecem. Nesse caso, para o bem e para mostrar um problema que está longe de acabar, mas que felizmente a hashtag ajudou a mostrar que existe, sim, e muito, e que é preciso não ignorar as vítimas, mas responsabilizar quem colabora com a manutenção de sua existência – nem que seja com uma “brincadeira” no Twitter.

Leiam o texto completo > Hashtag Transformação: 82 mil tweets sobre o #primeiroassedio

Leiam também a entrevista que fiz com a Ju > Precisamos falar sobre feminismo

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